Continuando as explicações preliminares para o bom aproveitamento da leitura do blog, quero fazer um pequeno esclarecimento com relação a um detalhe epistemológico:

É necessário inverter a noção mundo real/mundo dos conceitos: a história da filosofia ainda pode ser considerada platônica (crianças, tomem cuidado com Platão), onde o ato de filosofar seria entrar em contato com o mundo das Ideias para encontrar a verdade, a essência de um mundo real. A interpretação que Platão faz de Heráclito é levar o fluxo ao seu extremo: “tudo flui”, logo, nenhum conhecimento do mundo é possível, não há verdade, ela está em constante mudança; mas, então, de onde vem o conhecimento? Para escapar de eterno fluir, Platão desloca a Verdade para fora da terra. O mito da caverna diz que o homem não deve procurar a Verdade na escuridão da gruta em que habita, deve abandoná-la para finalmente encarar o sol, fonte autêntica do conhecimento. Seguindo este raciocínio, o conhecimento estaria fora da caverna, no mundo das Ideias.”A história do conhecimento humano é a história da cristalização da ideia de verdade” (Mosé), por não suportar o real, criou-se um outro lugar – imóvel, perene, eterno – onde a verdade se mantivesse. Platão é responsável por deslocar a verdade para fora da realidade, localizá-la no além, depois, acima do mundo. Por medo da descomunal maré de forças que move o real, o homem se esconde por detrás de conceitos, crenças que supostamente vieram de fora (ou poderíamos dizer que nos foram “reveladas”?). Sendo assim, “a verdade é a necessidade de estabelecer no mundo uma duração” (Mosé).

Mas qual seria a interpretação dos materialistas? Como os negadores-de-além-mundos entederam o “tudo flui” de Heráclito? Mesmo em face do devir contínuo, ainda é possível verdades provisórias. Sim, há um fluxo contínuo, mas em diferentes velocidades, há redemoinhos, correntezas, desvios, e é isso que permite olhar e compreender o mundo momentâneamente. “O devir da humanidade é uma série de interpretações”, já disse Foucault analizando Nietzsche. O mundo existe, indefectivelmente, acima de qualquer suspeita, e a partir dele criamos conceitos; porém, o real se afirma muito antes e muito mais do que qualquer conceito que criemos. Cortamos as arestas da realidade para criar “verdades”, falsificamos e simplificamos o mundo para criar teorias e leis (ou vocês acham que um ser humano é igual ao outro? …ou acham, talvez, que um átomo é igual ao outro?). O mundo é texto, e tudo o mais é interpretação. Todo olhar é perspectivo, sempre acontece num determinado lugar e num determinado momento. Logo, não é possível ser autoritário com as verdades, nem mesmo crer realmente nelas; não morreríamos por elas, mas adoraríamos o direito de tê-las e mudá-las como convier. Se o tempo passa, se tudo flui, então até as verdades mudam.

“Somente como criadores! – Isto me causou o maior dos cansaços e continua ainda a me causar o maior dos cansaços: perceber que indizivelmente mais importa como as coisas se chamam, do que o que elas são. A reputação, nome e aparência, a validade, o peso e medida usual de uma coisa – na origem, o mais das vezes, um erro e uma arbitrariedade, lançados sobre as coisas como uma roupa e inteiramente alheios à sua essência e mesmo à sua pele – pela crença que se tem neles e por seu crescimento progressivo de geração em geração pouco a pouco como que aderiram e se entrelaçaram à coisa e se tornaram seu próprio corpo; a aparência, desde o começo, acaba quase sempre por se tornar em essência e faz efeito como essência! que parvo não haveria de ser quem pensasse que basta indicar essa origem e esse invólucro nebuloso da ilusão para aniquilar o mundo que vale como essencial, a assim chamada “efetividade”! somente como criadores podemos aniquilar! – Mas também não esqueçamos disto: basta criar novos nomes e estimativas e verossimilhanças para, a longo prazo, criar novas “coisas”.” – Nietzsche, Gaia Ciência, 58

Pois então, aprendamos a ser anti-platonistas! Que nossa filosofia não seja nada mais que afirmar o real no lugar do mundo das Ideias. Sejamos como artistas que não se envergonham de suas criações e rompamos com religiosos e cientistas que ainda acreditam em suas verdades! Uma afirmação incondicional do mundo é imprescindível para filosofar com o corpo, para romper com uma “Verdade Universal”, válida para todos os tempos, todos os momentos (todos? absolutamente todos? não parece absurdo?), criamos este espaço de reflexão exatamente para quebrar com o discurso da Verdade: discordem de nós, isto já seria um bom começo.

algumas referências:
Giacoia, Oswaldo. “Sonhos e Pesadelos da Razão Esclarecida: Nietzsche e a Modernidade”
Foucault, Michel. “Microfísica do Poder”, Capítulo II.
Nietzsche, Friedrich. Os Pensadores: obra incompleta.
Mosé, Viviane. Apresentação no café filosófico: Youtube

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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