Ausência é a essência por trás da matéria que sou e que são as coisas ao meu redor, às quais não deixo de ser. Neste fluxo de mim, sou, estou e vou.

Ausência de possibilidades é o que sinto, obrigado a ser no interior destas construções de barro. Portas abertas, mas incertas.

Ausência de sentido é o que vejo. Vi as rachaduras em todos os edifícios que passei, imaginando o dia em que viriam abaixo.

Ausência de coragem para sair, pôr os pés no chão e observar o vazio. Ter à minha volta, o não-ser e o não-estar – os ecos da demolição.

Ausência de força vital para criar escolhendo alicerces que me pareçam mais adequados. Para ser, para si, a própria medida.

Ausência de Verdade em minha obra, assim como em todas as outras, mas a Possibilidade de ter se apropriado das escolhas.

Ausência de afirmação é o que pode fazer meu chão ruir. O perigo constante de saber: o Absoluto é o irmão mais velho do Obsoleto.

 

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

6 comentários

  1. menos pelo conteúdo ou sentido (porque acho diferentes talvez) mais pelo estado de espírito; me lembra muito o pós guerra… transcrevo um trecho de Beckett que me fez sentir a aproximação (intencional ou não): “Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levanto e busco o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então você será como um pedregulho perdido na estepe.”

    ps: fiquei devendo um texto que me tomou mais tempo do que pensei! logo ele sai! abraços!

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    1. Sim! Totalmente pós guerra!
      Agora que voce fez essa associação, não pude deixar de lembrar de Robert Antelme! Um dos maiores legados do pós-guerra, alguém que saiu e fez questão de estruturar uma obra. Suas palavras: A essência é existência, e vice-versa. Não existe diferença substancial.
      Muito pertinente seu comentário! Não havia pensado dessa forma, mas comcerteza fui influenciado por toda essa constituiçãod de um niilismo pós guerra.
      O trecho do Beckett é fantástico, obrigado por compartilhar! Aliás, quero ler mais coisas dele!

      ps: quando sair é só avisar! Você já tem o espaço! Abração!

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    1. Engraçado como o resultado de um estado emocional, seja esta poesia, uma música, um filme, ou qualquer objeto que tenhamos feito a associação, nos leva direto de volta para o momento. Mesmo assim vale a pena! Não sei justificar ..

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