Lançado em março deste ano, o livro Occupy – Movimentos de protesto que tomaram as ruas é a coroação da editora Boitempo (neste livro em parceira com o portal Carta Maior), que tornou-se um dos principais pontos de convergência das linhas de pensamento da esquerda. Não só por ter traduzido a obra completa de Marx e Engels ou por manter coleções  como Estado de sítio, Marxismo e literatura, O mundo do trabalho, entre outras, mas por ter uma proposta política clara, uma diretriz ética que não permite o lucro como primeiro plano.

Occupy reúne textos de diversos intelectuais (Slavoj Žižek, Mike Davis, Tariq Ali, Vladimir Safatle, Edson Teles, Emir Sader, entre outros) tratando dos movimentos de populares que tomaram as ruas no ano de 2011. Mas a proposta não acaba aí, para tornar o livro mais acessível, os editores, os autores e os fotógrafos cederam gratuitamente seus trabalhos, o aproveitamento de papel e o projeto gráfico também ajudaram a reduzir os custos. No fim das contas, o livro saiu mais barato do que ir e voltar usando ônibus e metrô para comprá-lo.

Deco Ballerina, Camila Schindler de Souza

No ano passado, eclodiram manifestações em diversos países, organizados por parte da própria população, articulada por mídias como o Twitter e o Facebook e, mais importante, sem envolvimento de quaisquer partidos e instituições.

 “Na África do norte o movimento assumiu o caráter de revolução democrática, colocando fim a longas ditaduras. Na América Latina se expressou principalmente na reivindicação estudantil por educação pública e gratuita no Chile – que teve apoio de amplos setores, com greves sindicais que geraram uma crise nacional […]. Assumiu ainda feitio de marcada denúncia dos bancos e das corporações, sacudindo até mesmo os Estados Unidos, onde a ocupação de Wall Street se espalhou para centenas de cidades e chegou a realizar um dia de greve geral em Oakland, parando um dos maiores portos do país.” Texto de apresentação do livro, Henrique Soares Carneiro

A crise econômica que vem crescendo desde 2008 e teve como consequência o aumento do preço dos gêneros alimentícios e do desemprego é o cenário sócio-político onde se fundamentam as críticas dos manifestantes ao capitalismo neoliberal de nosso tempo. “É o socialismo para os ricos” diz Tariq Ali em seu texto para descrever as medidas Estatais de alguns países, como a injeção de dinheiro público nos bancos privados, evitando, assim, o colapso dos mesmos às custas do povo.

“A economia focou-se no aspecto financeiro. As instituições financeiras cresceram assustadoramente. Acelerou-se o círculo vicioso entre finanças e política. A riqueza concentrou-se ainda mais no setor financeiro. Os políticos, confrontados com os altos custos das campanhas eleitorais, foram levados ainda mais aos bolsos dos seus ricos colaboradores.” Palestra no Occupy Boston proferida por Noam Chomsky dia 22 de Outrubro de 2011

A atitude de ocupar os espaços públicos surgiu como o opção ao fechamento de espaços midiáticos e à falta de espaços para o questionamento e a discussão. Segundo Žižek, “[…] os protestos de Wall Street estão apenas começando, e  é assim que o início deve ser, com um gesto formal de rejeição, mais importante do que um conteúdo positivo – somente um gesto assim abre espaço para um conteúdo novo.”

No texto transcrito do discurso feito na ocupação do Vale do Anhangabaú em São Paulo, Vladimir Safatle ressalta a importância da recusa à uma democracia em processo de degradação, no meio do caminho “entre um absoluto totalitarismo e uma democracia esperada” e põe o desencanto como o afeto central da postura política, na medida em que o mal-estar se torna o motor da crítica.

Estudiantes, Eneko

Muito interessantes também as ideias expostas por Giovanni Alves sobre a universalização do proletariado (os 99%) – o “precariado” –  em contraposição com os detentores de direitos, propriedades, produções e capitais (o 1%).

“A luta social anticapitalista hoje é a luta para revelar as contradições candentes do sistema. No capitalismo manipulatório, a regra é a ocultação das misérias da ordem burguesa. Os indignados europeus e norte-americanos, no entanto, expõe e criticam a concentração de riqueza e a precariedade do trabalho e da vida – e principalmente, desmitificam a democracia ocidental” Ocupar Wall Street…E Depois?, Giovanni Alves

De maneira geral, todos os textos tratam de um “e depois?”. Particularmente, gosto de pensar que a insubmissão é uma postura fundamental do político e que uma perspectiva futura é, neste momento, menos importante do que uma recusa criadora de novas possibilidades, utilizando a ocupação como meio de discussão e organização de novas ideias. Recusa que até então andava ausente, desde os anos 80 parecíamos aceitar todo esse jogo de perversões que legislam nossas vidas. Entretanto, passado praticamente um ano das ocupações, há de se pensar na continuação. Se em 2011 não  foi obtida a mudança real, foi dado o primeiro passo em direção a esta, que é a crítica dirigida à ideologia, até então hegemônica, do capitalismo neoliberal regido pela democracia parlamentarista.

“Os “ocupas” põem na pauta política justamente a discussão de alternativas aos regimes econômicos desiguais e a experimentação do igualitarismo democrático radical. E, com exceção dos ricos, que de fato saem perdendo, participar dessa discussão é do interesse de toda a população” Os “Ocupas” e a desigualdade econômica, João Alexandre Peschansky

Occupy é um livro que promove um pensamento, trata de um assunto que foi ignorado ou utilizado de forma tendenciosamente superficial pela mídia mainstream*. Um pensamento que, assim como os ocupantes, põe em questão e discute mudanças, que quer dinâmica onde reina o estático. Documenta uma realidade possível e vivenciada por milhares de pessoas ao redor do mundo e possibilita a reflexão sobre as raízes desses movimentos. Enfim, deve ser lido por todos que almejam uma mudança, ou ao menos a possibilidade de discutí-las, o que já seria um grande avanço!

Occupy May Day Tree, Rich Black

*Exemplos de uso tendenciosamente superficial pela mídia mainstream:

Folha SP: Nove meses após protesto, Ocupa Sampa vive ‘baby boom’

-Estado SP: Longe do Vale do Anhangabaú, jovens promovem um outro tipo de ocupação, tomando o espaço público com arte, lazer e esporte

Para saber mais:

Editora Boitempo – Livro Occupy

Portal Carta Maior

Artigo de Noam Chomsky que não foi para o livro

Occuprint: mais arte dos ocupantes de Wall Street

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s