Em um mundo de ídolos quebrados, de antigos valores absolutos já obsoletos, temos uma série de problemas fundamentais para lidar. Um deles é a linguagem. Linguagem esta que utiliza principalmente dois meios para se propagar: o corpo e a fala.

Ao meu ver, um dos sintomas deste niilismo contemporâneo – que é o estar ciente da ausência de valores absolutos – é a não correspondência de significantes e significados, isto é, o descomprometimento entre aquilo que é e aquilo que se diz. Um falso cinismo1,por assim dizer.

Para tornar evidente, basta lembrarmos de alguns exemplos, tais como a hipocrisia necessária entre pais e filhos, a falta de sinceridade no relacionamento amoroso, as campanhas e os discursos políticos, a construção de ideologias…

Tal sintoma, em si, não é condenável. Aliás, diria Nietzsche, nada é julgável após a quebra do último ídolo, mas2 já que  não nos cabe permanecer no vazio olhando os estilhaços, proponhamos uma saída para tal situação.

A questão não é canalizar o fenômeno da linguagem sob alguma regra conceitual absoluta, afinal estaríamos apenas substituindo aquilo que se desfez, mas sim criar uma ética e utilizar a razão como um instrumento que torne possível o transitar pela conotação e a denotação. Criar um mecanismo coerente entre os significados e os significantes, flexível porém eficaz.

Partindo de uma ética construída em torno do bem-estar de si e do outro, uma ética hedonista, podemos então colocar parâmetros de diálogo. Não me refiro só a linguagem como ponte entre si e o outro, mas também como entendimento do mundo, e mais especificamente, do próprio corpo.

Há falta de coerência até no diálogo com nossos próprios corpos! Ignoramos a vontade de prazer para alcançar objetivos que sequer desejamos. Não há nem uma via de comunicação sincera entre nós e nossos corpos, quanto mais entre nós e o mundo. Esquecemos as dores nas costas, nos acostumamos com as dores de cabeça, remediamos nossos sintomas sem nunca perguntar porque é que chegamos a sentí-los, ou se pelo menos escolhemos suas causas. Chegamos ao ponto de não perceber que nossos corpos não aceitam nossas rotinas de dormir 6 horas por noite, trabalhar 8 horas por dia e descansar o resto do tempo para “conseguir trabalhar no dia seguinte”.

“É chegado o tempo da criança” diz Nietzsche3. Sim, a criança pode sentir dores se brincar o dia todo, mas vejo na escolha a maior possibilidade de afirmação. A relação entre prazer é dor não é simples, mas a relação entre aquilo que ser quer e aquilo que não se quer é.

Talvez o primeiro passo para uma nova relação entre nós e mundo possa ser criada se buscarmos parâmetros para um diálogo coerente. Quem sabe então teremos coragem de recusar a calça jeans no calor, parar de pensar “isto que estou comendo não foi brutalmente assassinado”, acabar com as centenas de gratuitos “eu te amo” e com as “obrigações” do relacionamento3. Basicamente, aprender a dizer não para aquilo que não queremos e, assim, valorizar nossa palavra mais afirmativa: o “Sim”.

Da criação de uma relação sincera com o corpo surgem mais possibilidades de relação sincera com as pessoas, vistas não mais como complemento, mas como excesso. Reconhecer as vontades, os limites e as necessidades de nossos próprios corpos torna possível relações intersubjetivas mais leves, não mais carregadas com o peso das projeções.

Trata-se de aproveitar esta Era posterior à existência de verdades inquestionáveis para construir  valores, razões, éticas corporais que sejam, acima de tudo, individualmente pertinentes.

1 – Cuidado com a enorme diferença entre este falso cinismo e o Cinismo antigo praticado por Diógenes.

2 – É sempre no “mas”, no “apesar de”, que se busca a afirmação. Fica uma possibilidade para outro texto.

3 – Para Nietzsche, a criança é a personificação da reinvenção, da criação, da subversão por relacionar-se com o mundo de maneira lúdica. É exuberância, é transbordamento de vida.

4 – Obviamente, escolhi exemplos pertinentes a mim que talvez não o sejam para outras pessoas.

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

4 comentários

  1. “[…]relações intersubjetivas mais leves, não mais carregadas com o peso das projeções.”Que bonito isso, alias, o texto todo! Parabenss! 🙂

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