“Uma falta de liberdade confortável, suave, razoável e democrática prevalece na civilização indutrial desenvolvida, um testemunho de progresso técnico” (p. 23). É assim que Hebert Marcuse abre o primeiro capítulo de seu livro A Ideologia da Sociedade Tecnológica, um livro muito interessante e bastante denso.

O título original, One Dimensional Man, me parece mais esclarecedor; vivemos uma sociedade unidimensional e, portanto, temos um pensamento unidimensional onde “o status quo desafia toda transcendência” (p. 36). Confesso que não pude absorver tudo que o livro tinha a oferecer, ainda não tenho a base teórica para compreender a exposição de todos os pensadores mencionados no livro. Contudo, um conceito me chamou a atenção: dessulimação repressiva, e pretendo expô-lo neste texto. Antes, porém, uma pequena introdução (quase injusta) do conceito de sublimação, que faz parte da teoria psicanalítica.

As pulsões do aparelho psíquico, que fazem parte do princípio de prazer, não podem ser completamente satisfeitas em sociedade porque esta se define exatamente pela castração de certos desejos. Conforme o desenvolvimento psíquico prossegue, o princípio de prazer é substituído pelo princípio de realidade que consiste em reprimir e/ou adiar algumas vontades. Com isso, alguns desejos pulsionais perdem suas características sexuais através da sublimação e, assim, podem ser satisfeitos em sociedade. A sublimação é este processo pelo qual impulsos inconscientes se tornam socialmente aceitáveis através da arte, religião,ciência, filosofia, música entre outros. Para Marcuse, a sublimação denota o caráter revolucionário das pulsões, seu desejo de mudança, do diferente, explicita algo que não se encaixa na sociedade mas que quer emergir. “A arte contém a racionalidade de negação. Em suas condições avançadas, ela é a Grande Recusa – o protesto contra o que é” (p. 75)

Sendo assim, a sublimação na forma artística significa um perigo para a Sociedade
Unidimensional, a queda do véu de Maia, a fuga da Matrix. Através da sublimação o homem se torna livre para ver sua total falta de liberdade; através da fantasia, o homem pensa outros mundos possíveis, outras realidades (o que me faz lembrar da proibição do governo da China à filmes com viagens no tempo). A arte funciona com esse caráter libertador, a Grande Recusa; suas imagens são irreconciliáveis com um mundo de repressão dos instintos: trabalhar 8 horas por dia (ou mais) num emprego sem significado, pegar ônibus e metrô lotado, chegar em seu apartamento apertado e ver novela, futebol ou enlatados americanos.

Mas por que então o homem não vê a irracionalidade em vive? Por que não se revolta? É ai que entra o conceito de dessublimação repressiva: a indústria cultural torna impraticável até mesmo o ato de sublimação, operando com a “satisfação de um modo que gera submissão e enfraquece a racionalidade do protesto”(p. 85). As necessidades básicas são criadas e atendidas pela própria cultura que oprime e escraviza os indivíduos. A subjetividade é moldada para e pelo capitalismo moderno; os desejos e satisfações funcionam oprimindo e dando a ilusão de liberdade, “a recusa é refutada pela suavização da miséria na sociedade industrial desenvolvida”(p. 81). Não temos tempo para sonhar, pensar, criar, pensar por nós mesmos; isso fica a cargo dos comerciais de televisão que nos mostram as “últimas tendências” e dos slogans que dizem “aqui está aquilo que você nem sabia que desejava”. Vemos isso o tempo todo, na música que “toca em todas as rádios”, na roupa que “todos estão usando”, nos livros “mais vendidos”. Não é raro ver uma mulher de cabelo alisado, bolsa da marca X, lendo “Cinquenta Tons de Cinza”; o homem de barba por fazer, usando blusa xadrez, gastando todo o salário para ter o carro do ano. Somos frutos de necessidades criadas, desejamos o que nos é permitido desejar, queremos o que dizem para querer. Somos levados, por entre programas alienantes à comerciais cada vez mais absurdos, a aceitar e desejar a
realidade como ela é. Até a sexualidade supostamente libertada é submissa à pesadas
manipulações, e então nos vemos fazendo sexo somente com trilha sonora e nas posições de tal ou tal filme de comédia romântica.

Será que nossos desejos são realmente nossos? Será que a mulher precisa ser como as capas de revista de beleza para ser feliz? Será que o homem só tem valor se tiver um abdômen definido e um cartão de crédito? “Esta sociedade transforma tudo o que toca em fonte de progresso e de exploração, de servidão e satisfação, de liberdade e opressão”(p. 87), precisamos tomar cuidado com o que queremos, pode não ser verdade. Somente escapando à dessublimação repressiva teremos a chance de desejar por nós mesmos, multiplicar o desejo, abrir mais possibilidades. Não é possível vivermos em um mundo onde todos escutam as mesmas coisas, vêm os mesmos filmes, vão aos mesmo lugares e ainda achem que desejam realmente aquilo por livre e espontânea vontade.

“Os bens de serviço que os indivíduos compram controlam suas necessidades e petrificam suas faculdades. Em troca de artigos que enriquecem a vida deles, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre. A vida melhor é contrabalançada pelo controle total sobre a vida. As pessoas residem em concentrações habitacionais – e possuem automóveis particulares, com os qual já não podem escapar para um mundo diferente. Têm gigantescas geladeiras repletas de alimentos congelados. Têm dúzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais. Dispõem de inúmeras opções e inúmeros inventos que são todos da mesma espécie, que as mantém ocupadas e distraem sua atenção do verdadeiro problema – que é a consciência de que poderiam trabalhar menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações.” p.99

Fica minha pergunta final: o que VOCÊ deseja?

Referência: A Ideologia da Sociedade Industrial – Marcuse

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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