Sim. Somos todos iguais. Somos todinhos iguais. Igualzinhos. É, pois é. Só que não.

Às voltas no Facebook, nos deparamos com este cartaz. Levado pelo bom senso vigente, logo concordamos. Mas a fagulha de razão inadequada ao tempo, ao senso, ao comum, presente em nossas cabeças logo discordou.

Entendemos a necessidade histórica de tal pensamento. Lemas nunca antigos demais como a “igualdade para todos” e o velho blá-blá-blá do preconceito. Sabemos da necessidade de uma ideologia do igual, mas veja, o problema já não é a diferença, mas a ilusão de diferença; e a solução já não é apenas a luta pela igualdade, mas esta como possibilidade de ir além.

A igualdade não deve ser buscada como fim ético, mas como fim político. As lutas políticas de esquerda não devem aposentar-se com o fim da desigualdade social, porque estas não fecham, mas abrem as portas para verdadeiras “possibilidades de diferença”. Como disse Vladimir Safatle, “em que condições a diversidade pode aparecer como a modulação de uma mesma universalidade em processo tenso de efetivação?” (A esquerda que não teme dizer seu nome, Boitempo). Ele mesmo responde que apenas quando as “diferenças forem indiferentes”. Somente após um processo igualitário podemos pensar nas diferenças, mas a igualdade é só o primeiro passo.

Nossa luta é contra a igualdade como objetivo último. Não se trata de “tolerar as diferenças”, mas de querer as diferenças. O problema do discurso “somos todos iguais”, por mais bem intencionado que seja, é que ele ignora a melhor parte da brincadeira: somos todos diferentes! 

 O problema se torna muito pior quando percebemos que nosso Estado atua como um regulador das diferenças, preso a problemas culturais. Os homossexuais têm que lutar pelo casamento? As mulheres tiveram que lutar pelo voto? Os negros tiveram que lutar pela liberdade? Sim, sim e sim. Tudo isso com muito custo e por um preço bem alto, pois nossa sociedade tem a igualdade como fundamento e não a diferença. Ainda queremos ser tolerados, aceitos. Nunca pensamos em ir além. No Brasil, é proibido, por exemplo, o casamento entre mais de duas pessoas – a famosa poligamia. Mas tivemos um caso de três pessoas que conseguiram fazer “valer o seu direito à igualdade” e registrar seu casamento polígamo na justiça federal. Vitória? Pois eu acho que não é bem isso que vai mudar a situação.

Repetiremos mais uma vez e mais quantas vezes for necessário: não se trata de tolerar as diferenças,  mas sim de querê-las! Diferenças reais, não a de escolher entre o desodorante da marca X ou Y. Não queremos ser tolerados, isso é muito pouco para nós, queremos nos tornar indiferentes às diferenças. E não queremos a falsa igualdade de todos usarem tênis Nike; o igualitarismo serve como prerrogativa para todos terem as mesmas possibilidades de buscar seu próprio caminho. Não se trata de nos tornarmos iguais, mas de, partindo dai, buscarmos nossa singularidade.

Quantas possibilidades existem de ser? E como seria uma sociedade baseada na diferença? Quantas crises seriam evitadas se, ao invés de tolerar, gostássemos das diferenças? É a busca pelo diferente, pelo dinâmico, pelo devir, que nos constrói enquanto indivíduos dotado de identidades.

Ps: Sabemos que a ideologia iluminista de igualdade têm um valor histórico inegável. A chamada luta pelos direitos. Mas, acreditamos que chegou a hora de querer um pouco mais.

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

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