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“Nas eras negras as pessoas são mais bem guiadas pela religião, assim como em uma noite escura um cego é o melhor guia; ele conhece as estradas e trilhas melhor que um homem que consegue enxergar. Porém, quando o dia nasce, é tolice usar um velho cego como guia” – Heinrich Heine.

Apesar deste blog não ter a militância ateia como um de seus objetivos, é necessário fazer uma pequena observação sobre o assunto. Nossa intenção aqui não é oferecer provas da não existência de deus, não estamos realmente preocupados com isso; partimos da morte de deus como premissa básica, uma aposta nietzschiana que não consideramos tão alta assim. Não sabemos realmente se deus existe ou não, e é irrelevante.

Nosso real argumento vem de Bakunin que, subvertendo Voltaire, afirma: “se Deus realmente existisse, seria necessário aboli-lo”. Esta é nossa questão principal, qual a relevância de deus para nós? Nenhuma. Mas as conseqüências de um pensamento cristão impregnando tudo à nossa volta gera conseqüências nefastas para uma via existencial francamente ateísta.

O problema é que ainda hoje propagam-se idéias cristãs. O respeito, submissão ou tolerância, vêm de idéias de hierarquia que foram impostas por deus (Romanos 13). A escravidão, defendida com argumentos bíblicos, foi justificada durante séculos e hoje é uma das causas da desigualdade social extrema e conformação daqueles que Jesus chamou de “bem aventurados” (I tomótio 6; Efésios 6:5). A desvalorização da mulher como mero objeto, enfeite, coadjuvante, também teve apoio bíblico. A mulher em segundo lugar, submissa, sem opinião, sem voz própria (I corintios 11:8; I coríntios 14:35; Colossenses 3:18). O ódio a todas as formas de sexualidade que não a heterossexual monogâmica (Romanos 1:26), ódio ao mundo (Tiago 4:4; I João 2:15), à carne (gálatas 5:16), aos prazeres (I Pedro 4). Resumindo, “a criação de além-mundos não seria tão grave se o seu preço não fosse tão alto” (Onfray, Tratado de Ateologia, p. XVIII).

Sendo assim, nossa negação de deus consiste na busca de uma nova ética que não seja baseada na bíblia e no ódio a este mundo, mas sim uma ética hedonista, associada à busca de prazer. Nunca o prazer desmedido, sem limites, desenfreado, mas sim uma economia que procura “ter prazer e dar prazer”; nunca vivendo da falta, mas do excesso, do esbanjamento. Estamos vivos, aqui e agora, e precisamos nos responsabilizar por este grande acontecimento procurando o melhor modo de nos relacionar uns com os outros, sem buscar justificações fora deste mundo, sem procurar por uma Moralidade Divina que o justifique. Uma ética hedonista se constrói do chão, “tijolo por tijolo num desenho lógico”, e é certamente melhor que qualquer outra que cai do céu. “A negação de Deus não é um fim, mas um meio para visar uma ética pós-cristã ou francamente laica” (Onfray, Tratado de Ateologia, p. 42).

Deus está morto, ausente, ou claramente não se importa. Muitos filósofos dizem que a filosofia e a religião nascem do medo da morte, mas será que a melhor forma de lidar com a questão é virar a face inventando além-mundos? Encaremos de frente! Filosofiar é viver, só se deve filosofar para a vida. Criemos alternativas corajosas de existência!

“A abolição da religião como felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. A necessidade de abrir mão das ilusões sobre sua condição é a necessidade de abrir mão de uma condição que precisa de ilusões” – Marx

Tivemos sorte que alguns poucos epicuristas zombaram de Paulo quando este apareceu em Atenas afirmando a ressurreição dos mortos (Atos dos apóstolos, 17:16) e agora podemos encontrar nosso próprio caminho sem se valer de uma Verdade Universal, sem procurar uma base metafísica, ou uma justificação além-mundo. No caso dos autores que aqui escrevem, recorremos ao pensamento filosófico alternativo (não impregnado de platonismo), à razão verdadeiramente laica, aos materialistas, aos hedonistas, aos epicuristas, aos cínicos, aos nietzschianos de esquerda, qualquer um que pense com o corpo e não só com a mente.

Somente negando valores metafísicos poderemos pensar o mundo, somente destruindo “Verdades Eternas” a responsabilidade é totalmente nossa. Não há nada acima de nós julgando, olhando, anotando, condenando. Estamos sós! Sob esta perspectiva, podemos dizer verdadeiramente que somos livres. Uma liberdade ateia que abre portas para pensar em novos sentidos.

“Qual pode ser nossa única doutrina? – […] É absurdo querer fazer rolar sua existência em direção a uma finalidade qualquer.  Nós inventamos o conceito de “finalidade”: na realidade falta a finalidade… É-se necessariamente, se é um pedaço de fatalidade, se pertence ao todo, se está no todo.  Não há nada que pudesse julgar, medir, comparar, condenar nosso ser,  pois isso significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo… Mas não há nada fora do todo!  Que ninguém mais seja responsável, que o modo de ser não possa ser reconduzido a uma causa prima, que o mundo não seja uma unidade nem enquanto mundo sensível, nem enquanto “espírito”: só isso é a grande libertação. – Com isso a inocência do vir-a-ser é restabelecida… O conceito de “Deus” foi até aqui a maior  objeção  contra a existência… Nós negamos Deus, negamos a responsabilidade em Deus: somente com isso redimimos o mundo.” – Nietzsche (Crepúsculo do Ídolos, Os Quatro Grandes Erros, 8)

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

9 comentários

  1. Pequena grande nota né.
    Entendo, acredito que talvez possa vir a ser um caminho. Mas a interpretação do que Deus pode ter um dia falado coube aos homens e foram estes que tornaram a sociedade submissa de um padrão camuflado de interesses daqueles que achavam ser Deus.
    Desta forma, acredito que as religiões e não Deus corrompem a verdadeira liberdade.
    Apesar de que entra naquela discussão de o que seria da sociedade sem ordem? O Estado depende da Sociedade para ter força, ou a Sociedade é quem depende do Estado?
    Bjos!

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  2. Duas questões muito boas!! Primeira: realmente o que está em pauta aqui não é Deus…. mas o deus que criamos e interpretamos. E irrelevante se deus existe ou não para essa discussão (a não ser que ele desça agora dos céus e diga “estou aqui”) ….. o problema também não é a bíblia, mas sim alguns levarem tão a sério aquelas palavras!! O problema sempre será a interpretação, o mundo é interpretação.
    Com relação à sociedade e Estado, podemos dizer que é uma relação dialética, um forma e depende do outro…. mas é muito mais importante perguntar o que é ordem? Até onde ela é necessária? A partir do momento que criamos ideias que nos oprimem e violentam, acho que a criação perde sentido. Talvez ainda estejamos sendo guiados por velhos cegos.

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    1. A relevância de Deus em um contexto político-religioso-social abordada no artigo de vocês é sensacional. A perene questão sobre a existência ou não de Deus vem atormentando a humanidade há milênios. Argumantos a favor da sua existência não faltam, ontológicos, cosmológicos, teológicos; bem como não faltam argumentos ateístas explorando a incoerência das doutrinas teológicas tradicionais. Entretanto a questão da relevância e consequências de um pensamento cristão religioso no contexto social, principalmente em se tratando de liberdade, é fascinante. Viajando um pouco além da cruz na sala do Supremo ou do tão debatido “Deus seja louvado” nas notas de Real herdados através dos missionários no Brasil pré-colonial, observo um mundo insano, irracional e colérico ainda em pleno século XXI, promovendo guerras e conflitos sangrentos em nome das mais diversas autoridades máximas: Deus, Javé, Jeová, Allah, Shaphatar ou Yahweh. É a fé distorcida em fanatismo e o fanatismo,, por sua vez,, transformado em paranóia. A humanidade não evoluiu para ser religiosa, evoluiu para ser paranóica e os seres humanos são religiosos porque são paranóicos.

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      1. Rafael, a psicologia é ruim porque existem maus psicólogos? Ela deveria ser abolida porque pessoas fazem mau uso da profissão?…
        Acredito que existam duas formas de religião: a neurótica, como Freud bem explica, onde Deus é inventado pelo homem para suportá-lo em seu desamparo; mas acredito que exista uma outra forma de viver a fé e ter contato com o sagrado que seja libertadora. Como acontece com tudo na vida, existe o bom uso e o mau uso da religião. Penso que o texto focou apenas no mau uso da religião, que não pode ser negado, mas esqueceu-se de grandes conquistas da humanidade em função de princípios religiosos (cristãos inclusive). Não podemos ser extremistas em defender a religião cegamente sem considerar que ela pode muitas vezes ser distorcida (e os Felicianos estão por aí para nos lembrar disso…), mas também não podemos pender para o outro lado e ignorar pessoas que contribuiram muito para uma melhora social, como Marthin Luther King nos EUA (que era pastor batista) e muitos padres católicos (da Teologia da Libertação) que resistiram à ditadura no Brasil, arriscando a própria vida (muitos sendo mortos e torturados) pela liberdade de um povo, pela igualdade, pela libertação. Enfim, concordo que a religião muitas vezes é negativa, mas discordo que o ateísmo seja a única forma de libertação de uma religião corrompida e deturpada. A própria religião pode existir como uma experiência positiva, se libertadora.

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        1. Ana, primeiramente, respeito muito as suas opiniões. Sempre claras e respeitosas. Espero sempre ter sua presença aqui no blog.

          Existem bons religiosos, claro. Eu tenho muita admiração por Luther King e pela teologia da libertação. Mas defendo que é possível fazer o bem sem acreditar em Deus. E muito mais, a libertação de Deus permite-nos reapropria-se de nossa existência, sem depositar esperanças em um livro sagrado ou na interferência divina.

          Infelizmente o texto sempre será parcial, e foquei na questão de libertar-se do peso divino que muitas vezes prejudica. O ateísmo é amplo no sentido de negar qualquer valor metafísico, o que inclui religião. Mas a possibilidade de ser bom também é ampla, e inclui muitos religiosos.

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          1. Oi, Rafael, obrigada por responder. Seu último comentário deixou mais claro que vc enxerga essa questão considerando toda a complexidade do assunto! Um abraço.

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  3. Maravilho texto.
    E algo que me agrada nesse blog, a maioria das pessoas que comentam aqui, são realmente pessoas das quais querer buscar conhecimento e por isso tem amor. É legal e prazeroso conversar com pessoas com opiniões distintas.

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  4. Uma resposta com dois anos de atraso, mas é que só tomei ciência do blog agora.

    Acerca da desimportância de deus, penso que a (des)necessidade de sua existência decorre de a resposta que formularmos condicionará nossa conduta, pois só aí reside o sentido da pergunta. Ambas têm uma natureza ética.

    Quando formulamos a pergunta: “deus existe?”, independente das explicações cosmológicas ou ontológicas que formulemos inevitavelmente chegaremos a questões como: para nós, qual o proceder correto? Qual o modelo de conduta a ser seguido? Onde encontro esse código de posturas?. Isto é assim porque responder “sim” ou “não” nos conduz a “certo” e “errado”. Deste modo, penso que à pergunta “deus existe?” deveríamos anteceder as questões: “por que deus existe?”, “Para que deve existir?”

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