Todo coração é uma célula revolucionária

Ainda não tenho certeza se gostei de Edukators (2003) ou não. Assisti no youtube e o filme é uma mistura de exposição de anarquistas-revolucionários-pacíficos com filme romântico. As frases feitas são bem interessantes: “seus dias de fartura estão contados”. Mas os poucos diálogos políticos parecem ser uma distração da trama romântica do triângulo amoroso que envolve Jule, Jan e Peter.

Enfim, fiquemos então com o lado político. Jan possui uma ética revolucionária incorruptível. Ele e seu amigo, Peter, invadem casas e trocam todos os móveis de lugar com a intenção de conscientizar suas vítimas da ilusão de sua segurança. Eles querem mostrar a quão frágil e insustentável é seu estilo de vida.

Quando Peter vai viajar, Jan fica responsável por ajudar a Srta. Jule Lindner a reformar seu apartamento e entragá-lo antes que o prazo de despejo vença. Jule deve em torno de 94 mil euros para um milionário chamado Sr. Hardenberg por ter batido em seu carro numa estrada. Durante a pintura do apartamento, Jule e Jan discutem sua situação, “Você se mata de trabalhar para que um ricaço dirija um mercedes […] você está pagando pelo estilo de vida de um babaca”. Jan traz idéias que me fazem lembrar a renovação da esquerda que acontece hoje; as revoluções também têm um processo de seleção natural, as boas ideias permanecem, o mesmo vale para as revoluções pessoais. Sabemos das revoluções que resultaram em ditaduras sangrentas. Falhas históricas? Muito pelo contrário, a história nos ensina. A guilhotina no Terror da revolução francesa e os Gulags pós revolução russa nos mostram aquilo que podemos e não podemos fazer. Desistir? Nunca… ainda temos pelo que lutar. Temer? … Jan pode responder por mim, “não deixe o medo te controlar, use-o como motor”.

Pois então os dois resolvem invadir exatamente a casa daquele babaca com uma mercedes; mudam os móveis de lugar e deixam uma mensagem ao estilo Edukators, “vocês têm muito dinheiro”. Acontece que Jule esquece o celular na casa e eles acabam voltando para procurá-lo. Então o Sr. Hardenberg volta para casa e Jan e Jule e Peter, chamado às pressas, se vêm obrigado a seqüestrá-lo.

A parte mais interessante do filme são os diálogos conflituosos que os quatro têm na casa de campo para a qual levam sua vítima. O Sr. Hardenberg merece ter uma casa enorme, com piscina, dois carros caríssimos na garagem e um iate? Ele diz trabalhar de 12 a 13 horas por dia, mas no sudeste da ásia, muitas crianças também trabalham de 13 a 14 horas por dia e não têm mansões. Mas o Sr. Hardenberg estudou mais, se esforçou mais para fazer um trabalho mais competente; se os outros se esforçassem, seriam como ele. Será? Todos têm as mesmas condições, partimos do mesmo ponto? A criança de favela que estuda numa escola pública tem as mesmas oportunidades que aquelas filhas de pais ricos que estudam nos melhores colégios? Será que a faxineira da minha faculdade teve a mesma chance de se alfabetizar que eu? Qual a chance da “ideia empreendedora” dela deixá-la rica? Certamente suas chances se reduzem depois de pegar duas horas de ônibus lotado para chegar em casa e alimentar os filhos enquanto vê a novela das 9.

“O culpado não é quem faz a arma, mas quem puxa o gatilho”, e puxamos o gatilho todos os dias. Todos são vítimas. Não procuramos culpados, mas salvadores, pessoas simples que reconheçam as injustiças e ajam! A revolução não se dá de cima para baixo, mas da base, dos mais cansados, dos que mais temem, e, por ironia, os que têm menos a perder. As pessoas estão felizes? Só se o provérbio “pensar dói” for verdadeiro, mas não devemos acreditar nisso. Elas não estão felizes, estão entorpecidas. O Sr. Hardenberg faz questão de lembrar que não tem culpa, ele é só um bode expiatório, além do mais, “é da natureza do homem querer mais que os outros”. Não concordo, uma ética hedonista de “ter prazer e dar prazer”[ vejam outros posts] faz muito mais sentido. A natureza do homem é mutável, é possível ser feliz sem tomar dos outros, a felicidade não está em comprar.

O pensamento é o primeiro passo em direção à mudança. A liberdade de pensar abre nossos olhos e faz de todos nós revolucionários, mesmo sem que saibamos. Devemos nos ater ao inegociável. Enquanto a desigualdade social for vergonhosa, existirão pessoas, os Edukators se incluem aí, que lutarão pela felicidade de todos e não de alguns poucos afortunados.

Resumindo, o grupo resolve libertar sua vítima depois de verem que aquilo tudo não daria em nada. E fizeram bem, “certas pessoas nunca mudam”. Mas isso não os torna desiludidos, seus planos são grandes demais para um trabalho assalariado comum, suas metas vão muito além do gordo salário no fim do mês, eles sabem da importância que têm, afinal, “todo coração é uma célula revolucionária”.

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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