Tudo é permitido a nós, seres pós-modernos, civilizados e tecnológicos. Desde que continuemos a consumir, é claro. Ninguém quer ver o mundo à beira de uma crise econômica sem precedentes, não é mesmo? Pois bem. Temos uma variedade de produtos para todos os gostos. De camisetas do Che Guevara a jatinhos particulares, passando por toda a variada gama de esmaltes verdes-água. A produção e criação de bens de consumo e serviço atingem níveis cada vez mais altos garantindo que “todos nós” tenhamos cada vez mais possibilidades de satisfação de nossos “desejos” (ver texto O que deseja?).

A questão mercantil de nossa contemporaneidade não é mais como produzir, mas como vender. Se for vendável, dá-se um jeito de produzir independentemente das consequências. O princípio fundamental do capitalismo sempre foi o lucro, não é novidade, mas este lucro, do meio do século XX para cá está intrinsecamente relacionado ao que se costuma chamar de Marketing, Propaganda e Publicidade, que são conjuntos de estratégias para vender mais, alcançar mais pessoas, criar novos consumidores.

Não há de se contestar a natureza do processo de divulgação que é um mero reflexo do ato de criação. Toda criação, enquanto objeto, tem em si um julgamento de valor feito pelo observador que, por sua vez, tende a compartilhar a ideia por meio da comunicação. A divulgação está, portanto, interiorizada no processo de criação. Escrevo este texto reflexivo – que não deixa de ser uma criação objetivada – e o divulgarei da maneira como posso. A questão é ponderar até que ponto os sistemas de divulgação são pertinentes e coerentes.

É preciso lembrar que vivemos a época da ascensão de um novo poder, um novo estado; onipotente e onipresente que é o das instituições midiáticas. Faltam palavras para definir a potencialidade destes veículos comunicativos, não me atreverei a resumi-los em um parágrafo. O problema reside no fato de que esse grande espaço está nas mãos de poucas pessoas, será acaso que esse sistema funcione da mesma forma que o dinheiro (99% das riquezas na mão de 1% das pessoas)? É conspiração imaginar que a ligação entre poder de comunicação e poder financeiro seja uma das bases do sistema capitalista industrial?

O leilão de espaços de comunicação se torna então a maior chance de lucro das instituições midiáticas. Veja o Google, por exemplo. Sua ideia bilionária foi, simplesmente, relacionar o anúncio com o mecanismo de busca. Enquanto os concorrentes mostravam anúncio de bananas para quem procurava motos, o Google passou a mostrar Harley Davisson. Felizmente, os mecanismos de busca ainda não deixaram de ser boas ferramentas por conta dos anúncios. Pergunto-me: será que os outros veículos comunicativos deixaram o conteúdo de lado em nome do lucro previsto pela propaganda? Sem dúvida.

A partir do momento que o acontecimento passa a carregar consigo a potencialidade de agregar pessoas em torno de uma “marca”, o lucro substitui conteúdo. Nasce o sensacionalismo, que é a exploração dos fatos feita em nome de uma ideologia definida e regida pelo lucro. O espaço grande, amplo e diverso de comunicação torna-se então manipulado, unilateral, tendencioso e o espectador, perdendo acesso a todo o conteúdo não escolhido, torna-se unidimensional1.

As implicações da publicidade são incontáveis: o consumismo (na infância, inclusive2), a concentração de renda, o tempo de lazer transformado em tempo de consumo, a nova alienação (o individuo que passa a acreditar querer aquilo que na verdade o empurram), o fechamento para o novo, a poluição sonora e visual, entre tantas outras consequências que mereceriam textos específicos. Entretanto, ressalto o que considero uma das piores consequências: a produção de padrões de consumo e comportamento, de uma subjetividade em série. As marcas e slogans nos acompanham no metrô e no ônibus, no almoço e na janta, no trabalho e na folga, da infância à velhice. Acabam por moldar nossos gostos e nossos desejos de acordo com a necessidade do sistema econômico.

Nesse sentido, a propaganda funciona como uma vitrine de ideologias, nos mostrando quem somos e aquilo que podemos ser. O Carro é Status, o Banco é Família, o Supermercado é Barato, a Cerveja é Curtição, etc. Padrões cultivados e reproduzidos numa linha de série humana.

Qual a justificativa de um mundo mergulhado na publicidade como o nosso? O sistema econômico precisa estar aquecido e, para isso, as mercadorias precisam circular e o consumo de bens e serviços devem sempre aumentar. Recuso as justificativas monetárias. A justificativa real é que os interesses financeiros superam em muito os interesses políticos e éticos (no sentido amplo dos conceitos).

Sou a favor da inversão do pensamento midiático. Fazer as ferramentas (que são fantásticas!) trabalharem pelo ser e não pelo ter, pelo homem e não pelo dinheiro. Para isso, seria necessário, no mínimo, a suspensão da publicidade nos meios de comunicação em massa. Mas o que seria de nós sem aquilo que, atualmente, nos dá identidade3?

“a mera ausência de toda propaganda e todos os meios doutrinários de informação e diversão lançariam o indivíduo num vazio traumático no qual ele teria oportunidade de cogitar e pensar, de conhecer a si mesmo (ou antes, o negativo de si mesmo) e a sua sociedade. Privado de seus falsos pais, líderes, amigos e representantes, teria de novamente aprender o ABC. Mas as palavras e sentenças que formaria poderiam surgir de modo assaz diferente, o mesmo podendo suceder às suas aspirações e aos seus temores.  Sem dúvida, tal situação seria um pesadelo insuportável. Conquanto as criaturas possam suportar a criação contínua de armas nucleares, garoa radiativa e alimentos duvidosos, não podem (por essa mesma razão!) tolerar serem privadas da diversão e da educação que as torna capazes de reproduzir disposições para sua defesa e (ou) a sua destruição. O não funcionamento da televisão e dos meios estranhos de informação pode, assim, começar a conseguir o que as contradições inerentes do capitalismo não conseguiram – a desintegração do sistema. A criação de necessidades repressivas tornou-se, de há muito, parte do trabalho socialmente necessário – necessário no sentido de que, sem ele, o modo de produção estabelecido não poderia ser mantido. Não estão em jogo problemas de psicologia nem de estética, mas a base material da dominação.” A ideologia da Sociedade Industrial, Herbert Marcuse

1 – Para saber mais, ler A ideologia da sociedade industrial (One-dimensional Man) de Herbert Marcuse.

2 – Para saber mais, ver o documentário Criança, a alma do negocio direção de Stela Renner.

3 – Para saber mais, ver o documentário A verdadeira história da mídia brasileira de Intervozes produções.

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

4 comentários

  1. O Texto ficou muuuuito bom, sério!
    Sabe quando dá aquela sensação de satisfação de ler algo que realmente vc achou ótimo e que condiz com toda a sua linha de pensamento? hehe!

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  2. Ahh Rafinha…

    Que legal ver um ser pensante.
    Que legal ver um ser crítico.
    Ahhh, a juventude…
    Que legal ter a chance de aprender, de pensar e criticar, possibilitada pelo sistema que se critica, e ter muito tempo para voltar ao seio do capitalismo e ser recebido com os braços abertos como um filho pródigo. rsrsrsrs
    Continue exercendo o seu direito de crítica.

    Para saber mais basta viver.

    Grande abraço

    João Marone

    PS. Você leu o livro que eu lhe indiquei? “As veias abertas da américa latina – Eduardo Galeano”
    É um clássico do comunismo e socialismo que mora em todo coração jovem e latinoamericano.

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