Max_stirnerJohan Caspar Schmidt nasceu em 1806, Bayruth, Alemanha. De 1826-35, estudou filosofia e teologia na Universidade de Berlim onde teve aulas com Hegel, o qual influenciou muito suas ideias. Passou a dar aulas a partir de 1839. Nesta mesma época, começou a frequentar o circulo berlinense de pensadores conhecidos como “Os Homens Livres”, de onde também saíram Marx, Engels, Feuerbach, muito influenciados pelo pensamento de sua época e constituindo os chamados “hegelianos de esquerda”. Em 1842 publica seu primeiro artigo adotando, assim, o pseudônimo de Max Stirner. Teve uma vida muito simples, depois de ter sido preso duas vezes por dívidas, morre em 1856, na pobreza.

O pensamento de Stirner está representado quase que inteiramente no seu livro O Único e sua Propriedade, onde expõe suas ideias sobre o que é o indivíduo, ou melhor: o Único, e rebate outros filósofos, principalmente Hegel. Com a herança de Hegel, deixada na dialética e na perspectiva móvel da realidade, não sobra espaço para nenhum tipo de essência eterna ou fixismo de qualquer forma, tudo está sempre em movimento, se transformando, evoluindo muitas vezes para seu exato oposto. Contudo, em meio a esse fluir incessante, Stirner procura um porto seguro, contra todos aqueles que decretariam a morte do homem (Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Foucault). Ele insiste no Ego. O Eu, individual, é maior que o Estado, a Verdade, a Moral e a Ciência. Enquanto a filosofia decretava a dissolução da mente, Stirner se apoiava exatamente sobre esse conceito para construir sua teoria, “o Eu é a pedra angular que os outros filósofos desprezaram, o pilar sólido e rochoso que faltava até ao momento erguer-se na história, o grande ponto de apoio de Arquimedes que todos haviam esquecido no afã de sempre nos reportarmos ao sagrado, ao eterno, ao fundante, ao além” (Diaz, p. 24).

Mas o que constitui o Eu? O Eu é Único, só ele importa para ele mesmo. E como o Único se forma? Através da propriedade, tendo coisas, possuindo. Ao contrário de Descartes, o homem não pensa para existir, ser se reduz a ter: “Aproprio-me, logo existo”. Tudo que o egoísta tem, é dele, o constitui, não importa se é sua beleza, sua inteligência, seu carro, seus contatos, ou até mesmo, suas lembranças, seus medos, suas amizades. E as coisas que o Único possui como sua propriedade, são suas para serem usufruídas.

O mesmo princípio funciona nas relações amorosas. Para o Único, o amor não é algo sagrado, nem mágico, nem mais importante que as outras, mas funciona também como uma propriedade. O Único ama apenas aquilo que o satisfaz, que lhe é útil. Lembrem-se, Ele é egoísta, só se importa consigo mesmo, “O amor do egoísta brota de seu interesse pessoal, corre para o leito do interesse pessoal e desagua de novo no interesse pessoal” (Stirner, p. 380). Há uma inversão de papeis, o egoísta não serve ao amor, pelo contrário, é servido por ele. Todos querem seu amor, mas ele o dá a quem merece-lo e apenas se se beneficiar disso. O amor não é um mandamento, ninguém diz ao Único a quem amar, ou quando deve amar: o Estado diz que deve amar a pátria; a Família, aos pais; a Igreja, a Deus; a Humanidade, ao homem. Mas o Único serve somente à sua causa e nada mais. Muitos exigem o amor do indivíduo, mas ele o dá a quem quiser. Por que haveria de ser diferente? Não há razões para dar nada nosso de graça, não devemos prestar contas a ninguém, a não ser a nós mesmos.

É muito fácil criticar a filosofia de Stirner de modo leviano, por isso ele se defende com alguns exemplos simples que todos nós nos identificamos: “Como eu […] não posso suportar a ruga de preocupação na testa da pessoa que amo, beijo-a para que ela desapareça: faço-o por mim” (Stirner, p. 376); “se faço um ar alegre para te animar, é porque a mim me interessa a tua alegria, e o meu desejo está a serviço do meu semblante; a milhares de outros, que não quero alegrar, não mostro esse semblante” (Stirner, p. 384). O altruísta não se beneficia de suas boas ações? Isso certamente lhe traz satisfação, boa consciência. O sádico tem prazer infringindo dor e o masoquista suportando? Isso lhes dá prazer.

Amarei meu filho, mas porque o quero, porque me satisfaz. Amarei minha mulher, mas porque ela me agrada, porque suas qualidades me dão prazer, porque fico feliz quando a vejo feliz. Não há nada de errado nisso. Há sempre muito hipocrisia naqueles que criticam Stirner, porque compreendem o egoísmo como algo exclusivamente ruim, mas neste caso há apenas uma inversão da prioridade: o Eu vem sempre em primeiro lugar. Isso não significa prejudicar aos outros ou ignora-los, é melhor encontrar a melhor maneira da conviver, fazer acordos, contratos, mas unicamente porque isso é bom para o egoísta. O Único abre mão de parte da sua liberdade mas somente porque isso lhe trará benefícios.

Propriamente meu, o meu amor só o é se consistir em um interesse totalmente pessoal e egoísta, e então o objeto do meu amor será verdadeiramente o meu objeto ou a minha propriedade” (Stirner, p. 379).

Certamente, adeptos do amor cristão não interpretam bem essa ideia. “O meu mandamento é esse: amem-se uns aos outros como eu vos amei” (Jô 15,12), disse Jesus. Mas não devemos nos esquecer da ameaça na parábola anterior dos ramos que “são apanhados, lançados ao fogo e queimados” (Jô 15,6); nem da promessa de Jesus em seguida dizendo que se seguirem suas palavras, ”pedirão o que quiserem e lhes será concedido” (Jô 15,8). Seria o amor cristão também egoísta? Deus serve sua própria causa, talvez devêssemos fazer o mesmo…

Enfim, nosso amor nos serve, ou servimos a ele? A felicidade que tiramos de nosso amor superam as infelicidades? Acho que uma importante conclusão que podemos tirar de Stirner é perceber que o amor deve servir a quem ama, fazer bem a ele, agradá-lo. Não precisamos levar o filósofo e suas ideias à ferro e fogo, mas devemos olhar com cuidado para aquilo que quer denunciar. Muito de nosso amor é roubado e exigido de nós sem que o queiramos. E muito de nosso amor, bondade, educação, altruísmo etc., se escondem puramente atrás de egoísmo.

Referências:
Armand, Emile. Max Stirner e o anarquismo Individualista. São Paulo, Imaginário, 2003
Diaz, Carlos. Max Stirner: Uma Filosofia Radical do Eu. São Paulo, Imaginário, 2002
Stirner, Max. O Único e Sua Propriedade. São Paulo, Martins, 2009
Woodcock, George. História das Idéias e Movimentos Anarquistas: Vol.1. Porto Alegre, L&PM, 2002

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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