mulheres ricas

Darei a este programa a honra de uma crítica. Mulheres Ricas II, talvez o maior sugador de inteligência da televisão brasileira (ainda que a concorrência seja grande), o que há de mais podre na acumulação primitiva. Mas não vou me permitir críticas gratuitas, sejamos mais específicos.

Por que existem mulheres ricas? Porque elas têm dinheiro. E o que elas fazem com o dinheiro delas? Fazem pessoas servi-las. É muito simples, nos referimos aqui ao “Discurso da Servidão Voluntária” de La Boetie: ricos existem porque pessoas os servem, poderosos só são poderosos porque pessoas permitem que o poder seja exercido sobre elas. O poder não vem de cima, ele está na relação. As micro-relações permitem que o poder se propague, se perpetue, atravesse toda a malha social. “Decidi-vos a não servir mais, e sereis livres” (La Boetie).

Em toda história da humanidade, o escravo mais difícil de conscientizar sempre foi aquele que servia dentro da casa de seus senhores. Isto porque ele se via como parte da família e não como irmão daqueles que dormiam lá fora, na senzala. O mesmo acontece com todos os assessores e empregados que abrem champanhe para seus senhores e comemoram com eles. Mas o “comemorar com…” é uma ilusão, não há nada para comemorar porque apenas estão confirmando sua condição. Não percebem eles que estão “comemorando para…”. Através da servidão, eles têm a ilusão de ser como eles, mas é esta mesma atitude que os mantém onde estão. Stirner já disse: “Os pobres não chegarão a ser livres e proprietários senão quando se insurjam, se sublevem, se ergam”.

Eis nossas mulheres ricas: Aieleen disse, “as estradas aqui são horríveis, então eu vou de avião”, mas ela não sabe dirigir um avião, então um piloto a leva. Ela vai comprar botas de couro banhado a ouro que chegam a custar 55 mil reais, mas como não sabe fazer essas botas, precisa que alguém para fazê-las e de alguém que fique na loja para vendê-las. Mariana gosta de fazer festas com seus amigos em sua casa de 8 milhões de reais, então precisa de um assessor para organizar tudo, comprar bebidas, contratar DJ, chamar um piloto para o Iate que ela vai usar. Andréa precisa da ajuda de Beto, seu consultor, para escolher o vestido que vai usar à noite, abrir a champanhe que ela vai tomar, elogiá-la e manter sua auto-estima. Narcisa precisa de um piloto de helicóptero para chegar a seu destino, e este mesmo piloto tem que dar “badalos, ai que badalo!” (rasantes em espiral) para que Narcisa possa se mostrar para as amigas. Cruzete escuta de seu assessor pessoal “o que seria dela sem mim?”.

Pois é, o que seria dos ricos sem aqueles que os servem? Apesar de me revoltar ouvir Narcisa dizer “nós somos princesas do povo”, não deixa de ser verdade. Por que as pessoas se submetem a isso? Afinal, Narcisa não passa da encarnação de seu próprio nome, uma mente infantil completamente alienada de tudo que a rodeia; perdida em aparências rasas, diversões mentirosas, sorrisos falsos, preocupações inúteis. Ela não tem nada de melhor que nós para ter tudo que ostenta! Mas ainda assim, nós a sustentamos, a mantemos! Deixemos de servir, e ela cairá!mulheres ricas II

Não existiriam mansões se pedreiros não construíssem mansões, eles jamais vão morar numa casa de 20 quartos, então não é justo que outras pessoas morem. O mesmo vale para o encanador que instala os canos da mesma casa, ele mora numa de alvenaria no subúrbio da cidade, não é justo alguém ter tanto mais. O jardineiro, que mora a 3 horas de condução da casa, corta a grama por um preço irrisório, sendo que seu barraco no morro nem jardim tem. Não existiriam milionários se operários não fizessem carros de luxo (que nunca terão) para esses “homens bem sucedidos” dirigirem. Não existiriam mulheres ricas sem servos para organizar suas festas, fazer sua segurança, costurar seus vestidos, pilotar seus jatinhos particulares, maquiá-las e penteá-las. Não devemos servir estas pessoas, elas não são melhores que a gente. Utopia? Sonho? O povo humilde, servil, não sabe da força que tem, é um gigante adormecido, vive da ilusão de ser um deles. Mas tem um problema, se o pão for dividido igualmente ninguém terá mansões, jatinhos particulares e motoristas.

“Que fazer? Reler La Boétie e reativar suas teses maiores: o poder só existe, como foi dito, com o consentimento daqueles sobre os quais ele se exerce. E se não há esse consentimento? O poder não acontece, perde seu meio de agir. Porque o colosso de pés de barro tem os pés – imagem do Discurso da Servidão Voluntária – provenientes unicamente do assentimento do povo explorado. Frase sublime: resolvam não servir mais e estarão livres“(Onfray).

É imoral que existam mulheres assim, é imoral que a Band faça um programa assim e é imoral que pessoas assistam e não achem nada de errado. Narcisa disse “o mundo das mulheres ricas é amor”, pois eu parafraseio dizendo “O mundo das mulheres ricas é servidão”.mulheres-ricas-reality-show-band-20111109-20-size-598

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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