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Observamos uma falência da crítica, ou pelo menos um enfraquecimento. Ela é rasa, pobre, sem bons argumentos. Por que BBB é ruim? Pode parecer que não, mas é difícil responder essa pergunta (as verdadeiras respostas viram teses de mestrado). É possível uma crítica contundente em algumas linhas? Talvez, para isso utilizaremos o conceito do Panóptico que ficou conhecido com o trabalho de Foucault.

Presídio idealizado pelo jurista Jeremy Bentham, esta obra arquitetônica consiste numa construção em forma de anel com uma torre no centro. Deste ponto, os vigias podem observar cada cela do anel separadamente; estas possuem janelas dos dois lados por onde passa a luz que permite ver os prisioneiros. Com o jogo das luzes, o princípio ver-ser-visto é quebrado porque apenas o vigia pode olhar o prisioneiro.

Quem está submetido a um campo de visibilidade, e sabe disso, retoma por sua conta as limitações do poder; fá-las funcionar espontaneamente sobre si mesmo; inscreve em si a relação de poder na qual ele desempenha simultaneamente os dois papeis; torna-se o princípio de sua própria sujeição” – Foucault, Vigiar e Punir

Este dispositivo arquitetônico foi largamente utilizado no séc. XVIII com o intuito de disciplinar pelo olhar, fazendo o prisioneiro interiorizá-lo e agir conforme o poder prescrevia. Pela análise de Foucault, este dispositivo foi largamente utilizado e podemos encontrar essa construção em várias outras instituições como escolas, hospitais, igrejas, quartéis.

Já reconhecemos aí o Big Brother onde os participantes nada veem e nós vemos tudo (é irrelevante para a discussão se o programa é uma farsa ou não, porque seus efeitos são reais). Mas, como o objeto de análise somos nós, os observadores, então podemos concluir que o BBB se trata de um Panóptico Invertido.

A instituição panóptica consiste numa ferramenta de controle social, utilizada para aumentar a produção e satisfazer exigências modernas de consumo e circulação de mercadorias. Essa vigilância gera o adestramento dos corpos (veja aqui) ou, no caso do Panóptico Invertido, a produção de subjetividades.

As palavras que me vêm à mente são: letargia e entorpecimento. Escolhendo seus vencedores, quem perde são eles, os telespectadores. Sentados na frente da televisão, vendo provas patrocinadas por marcas de beleza, eles se satisfazem votando em quem fica na casa e torcendo pelo participante com quem mais se identificam. Pela inversão, o panóptico exerce controle de dentro para fora, com você olhando em vez de ser olhado. Enquanto você assina o pay-per-view e supostamente acha que tem controle de todas as câmeras.

O poder disciplinar é, com efeito, um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior “adestrar”; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. […] A disciplina “fabrica” indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício” – Foucault, Vigiar e Punir

Não somos oprimidos por chicotes ou por ameaças, a genialidade na sociedade pós-moderna consiste em tornar invisível o muro da prisão em que estamos presos. Somos oprimidos por metas impossíveis, aparências inalcançáveis, sonhos vendidos no intervalo comercial. Enclausurados em nossas casas, cansados, jogados no sofá, encarando como zumbis uma tela na parede. Nosso lazer é o descanso para começar tudo de novo no dia seguinte.

Escolher quem fica ou sai da casa, isso é liberdade? Enquanto o olho do Grande Irmão estiver sobre nós, nada de útil poderá ser feito para efetivamente tornar a vida melhor. Ele nos mostra como se comportar, qual aparência devemos ter (homens de barba por fazer, loiras oxigenadas), qual carro devemos dirigir, que música devemos ouvir e o pior de tudo: através da catarse de votar em quem fica e quem sai, temos a ilusão de poder, ilusão que mantém tudo como está! Os motivos que nos levam a assistir programas de tão baixa qualidade são preservados pelo próprio ato de dar audiência a programas como esses.

A verdadeira tarefa política em uma sociedade como a nossa é criticar o jogo das instituições aparentemente neutras e independentes; criticá-las e atacá-las de tal maneira que a violência política que se exerce obscuramente nelas seja desmascarada e se possa lutar contra elas” – Foucault, Microfísica do poder

PlatoCaveTV

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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