Zizek 1Não sou um grande entendido de Slavoj Zizek, o filósofo esloveno (cujo nome é impronunciável corretamente) constrói sua teoria sobre dois pensadores dos quais sei muito pouco: Hegel e Lacan. Zizek faz muito sucesso nas prateleiras de filosofia das grandes livrarias e nos vídeos de internet. Eu tenho 3 livros dele (que ainda não consegui ler), mas vejo muitos vídeos no youtube, agora legendados!, e gostaria de comentar um que me chamou a atenção.

Slavoj analisa essa nova cara do consumismo verde, consciente, “bonzinho”, caridoso. Ele tem muitas críticas tanto para o consumidor consciente quanto para as supostas empresas verdes (digo “supostas” porque já fiquei sabendo de muitos absurdos, mas não tenho como prová-los…). “O próprio ato egóico de consumo já contém o preço do seu oposto”, ou seja, o consumidor pelo próprio ato da compra já adquire também não só o ambiente verde/sustentável/limpo que procura, mas a sua própria consciência fica mais leve por consumir conscientemente, plantar árvores, ajudar crianças na África … (and so on, and so on…). A própria redenção para o consumismo está no consumo.

Esta lógica está universalizada, o consumo como remédio para o próprio consumo… (mais daquilo que causa o próprio problema para resolvê-lo). E então, Zizek cita Oscar Wilde, “seus remédios não curam a doença, apenas a prolongam; seus remédios são parte da doença”. Não se pode resolver o problema com aquilo que o causa, apenas prolongamos a doença, a mascaramos, escondemos e deixamos a questão para ser resolvida depois (talvez por outra geração?). Zizek conclui: “É imoral usar a propriedade privada de forma a aliviar os males horríveis que resultaram da instituição da propriedade privada”.

Em seguida, o filósofo cita a questão da caridade, talvez a que mais me incomodou: “os piores donos de escravos são aqueles que são bons para seus escravos e que assim impedem que o núcleo do sistema seja percebido por aqueles que sofrem com ele e entendido por aqueles que o contemplam”. Se você não ficou nauseado com a frase, leia novamente. Forte como um soco no estômago, não é? Deste ponto de vista, o altruísmo ao invés de mudar a sociedade, contribui para mantê-la como está. Pelo que entendi, é como se a própria caridade daqueles que têm dinheiro e podem ajudar tivesse funções egoístas: “Vamos ajudar os pobres, antes que eles se revoltem!”. O incentivo à caridade seria então mais uma ferramenta para ficar tudo como está. Quantas revoluções não foram impedidas pela simples fato de dar um prato de comida ao povo faminto? Algo que não aconteceu em 1789, na França… “Nós, ricos e nobres, somos tão bondosos que parte de nossas riquezas e arrecadações serão destinadas a por fim à fome e ao frio daqueles que moram na rua”.zizek 2

A caridade não chega ao núcleo do problema, apenas passa pela tangente. É claro que devemos ajudar crianças que passam fome… é claro! Mas ajudá-las é agir no resultado do problema, não na causa. É necessário fazer mais que caridade. Zizek não é contra a caridade, mas reconhece a hipocrisia de um sistema que “acumula e centraliza capital” com uma mão e “distribui e faz caridade” com a outra.

Resumindo: não sou economista, mas me parece que problemas gerados pela concentração de renda não se resolverão dando esmolas… devemos parar de fazer caridades? Não estou dizendo isso… mas doar hoje não resolve a situação em que estamos inseridos, e seremos obrigados à dar esmolas novamente amanhã.

Referência:

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

6 comentários

  1. hahaha vlw pela lembrança Sr Trindade…

    Bom, primeiramente devo dizer que concordo com os argumentos (eu mesmo já cheguei a comentar isso com vc pessoalmente), mas como de costume, discordo da ideia geral do texto, pelo simples fato de pensar no consumismo como um resultado de diversas escolhas humanas e não necessariamente como um mal advindo do capitalismo.

    Mas sim, de fato a economia verde eh um grande marketing. Porém, como disse, terei que discordar da primeira parte do texto, por não enxergar nenhum mal ou veneno a ser combatido e sim atitudes que possuem efeitos colaterais. São esses efeitos colaterais (que inclusive podem ser positivos, não só negativos) é oq verdadeiramente amenizamos em nossas consciências ao comprarmos produtos amigos da natureza.
    Seria “imoral usar a propriedade privada de forma a aliviar os males horríveis que resultaram da instituição da propriedade privada”? Talvez. O ponto eh que não devemos culpar nem consumidores, que buscam bem-estar, nem produtores, que visam lucros. Na economia, todo e qualquer “desajuste colateral” deve ser cuidado pela entidade que foi criada para tal: o governo. Eh dele a responsabilidade por tornar a iniciativa privada responsável por seus atos.

    A questão da caridade já possui argumentos mais razoáveis ao meu ver. Porém não vejo milionários filantropos buscando controlar multidões rebeldes. Acredito, novamente, que a filantropia eh um marketing, como o Humanitarismo ou o amor pelas baleias.

    Realmente, a filantropia n chega perto de explicar a desigualdade. Ela resulta de um processo histórico muito maior e alheio à simples acumulação primitiva de capital. Portanto tb não vejo a caridade mascarando o capitalismo tanto quanto mascarando a incompetência do próprio ser humano (talvez novamente aqui, o governo) em provir condições de competitividade equivalentes a todos os agentes econômicos.

    Bom, meu comentário já está quase maior que o texto. Mas essa eh minha visão dessas ideias de um ponto de vista mais “econômico”.

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    1. “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade.” Paulo Freire.

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