fim nazismoAo afirmar algo em si que recusa ser oprimido, o escravo começa o processo de revolta. Negar o senhor o leva a destruir tudo aquilo que o oprime. O problema é que o fenômeno da revolta, para Camus, consiste no equilíbrio entre o sim e o não. Este equilíbrio é perpétuo e não encontra resolução. Quando pende para qualquer um dos lados, se torna niilista. O problema está no desequilíbrio, tanto a afirmação absoluta quanto a negação absoluta põem fim à revolta e a transformam em terrorismo, e o principal sintoma disso acontece quando a revolta se permite tirar vidas. O primeiro caso que analisaremos é o nazismo, fruto da afirmação absoluta.

A ideologia nazista nasce no período entre guerras, num momento em que a Alemanha se encontrava desesperada, pobre, faminta, sem perspectivas. A afirmação absoluta que Hitler proclama à época é fidelidade total para com seu povo. Reerguer a Alemanha como nação poderosa e respeitada; antes e acima de tudo. Esta afirmação só é possível após a declaração de Nietzsche: Deus está morto. Ao negar os valores transcendentes, o homem vê o caminho livre para criar seus próprios valores. Mas sabemos muito bem como Nietzsche foi mal interpretado e mal utilizado ao longo da história. Os ecos da afirmação nietzschiana ao destino (amor-fati) foram apropriados pelo nazismo e utilizados na guerra total que assolou todos os países da Europa. Da afirmação total, morreu a revolta e nasceu o terrorismo.sombra nazista

O nazismo se utilizou desonestamente da afirmação nietzschiana para justificar suas atrocidades. A busca por uma raça superior deu origem a uma doutrina de ódio, racismo, vingança e assassinato. O III Reich buscava a plenitude da Alemanha, destruindo tudo que se pusesse em seu caminho. Hitler interpretou a afirmação absoluta como liberdade completa de agir. Mas a revolta, para Camus, não nega limites e leis, muito pelo contrário, “o essencial consiste em dizer que, se a lei eterna não é a liberdade, a ausência de lei o é ainda menos” (p. 92).

O nazismo não pode justificar-se frente a Camus porque passa por cima de tudo para afirmar-se, diz sim a qualquer tipo de atitude para conseguir o que quer. Nesta conduta sem limites, chegamos ao absurdo onde o crime se torna não matar se o líder assim o exigir. A revolta germânica, autêntica frente à situação que enfrentava no período entre guerras, deu origem a uma das formas mais desumanas de conduta. E se utilizar de Nietzsche para isso perverte absolutamente uma filosofia que sempre defendeu a vida.

“Sem dúvida, conhecem-se filosofias que foram traduzidas, e traídas, no decurso da história. Mas, até Nietzsche e o nacional socialismo, não havia exemplo de que todo um pensamento, iluminado pela nobreza e pelo sofrimento de uma alma excepcional, tivesse sido ilustrado aos olhos do mundo por um desfile de mentiras e pelo terrível amontoado de cadáveres dos campos de concentração” (p. 97).

A negação de Deus não justifica tudo. A liberdade não significa que “tudo é permitido”. A morte de Deus não põe fim a todos os limites. Foi isso que os nazistas não perceberam, eles acharam que a afirmação de sua doutrina e do povo alemão justificava qualquer atitude, mas se esqueceram que o sim nascia do não à miséria que viviam, e ao esquecerem-se disto, perderam o sentido da revolta. O sim de Nietzsche é pela vida, e a afirmação da vida não justifica a morte. O sim que grita o homem revoltado é o mesmo de Nietzsche quando expõe o amor-fati (amor ao destino). Este sim jamais justificaria o assassinato, a guerra ou as câmaras de gás.

hitler saluting his troops

“Um único líder, um único povo significa um único senhor e milhões de escravos. Os intermediários políticos que, em todas as sociedades são salvaguardas da liberdade desaparecem, dando lugar a um Jeová de botas, que reina sobre multidões silenciosas ou, o que dá no mesmo, limitadas a gritar palavras de ordem” – Albert Camus, “O Homem Revoltado”, p. 213.

> este texto faz parte da série/resenha “O Homem Revoltado” de Albert Camus <

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

2 comentários

  1. Rafael, tenho que dizer que estou adorando seus textos.
    Mas me permita fazer uma pergunta “O problema é que o fenômeno da revolta, para Camus, consiste no equilíbrio entre o sim e o não. Este equilíbrio é perpétuo e não encontra resolução. Quando pende para qualquer um dos lados, se torna niilista”.
    Posso considerar esse “equilíbrio” como sendo o Anarquismo?

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