Vivemos um grande silêncio crítico. Poucos são os efeitos da pequena e especializada crítica de arte em nossa sociedade, por consequência, menor é o alcance das obras nos sujeitos, cada vez mais consumidores de arte. Os choques da arte contemporânea talvez tenham abalado as estruturas da crítica ao ponto de fazê-las desabar, levando consigo os juízos e os valores. Serão possíveis novas disposições para esta anciã faculdade de julgar?

Para este texto basta a acepção comum da palavra, a saber, de que a crítica é a capacidade que nossa razão tem de produzir julgamentos, de estabelecer critérios para distinguir o belo do feio. Falando em senso comum do conceito de crítica, lembramos logo da expressão “crítica construtiva”, que é usada para qualificar um processo positivo de crítica, aquele que é pertinente, que se opõe a “crítica sem fundamento”. Entretanto, gostaríamos de divagar, sem rumo certo, sobre uma outra possibilidade desta expressão no mundo das artes.

greenberg

Cortemos a definição ao meio, com o perdão da possível falta de sentido e reducionismo. A crítica é a capacidade da nossa razão de produzir. Obtemos uma primeira afirmação fundamental para um novo entendimento do conceito: a razão produz a crítica. Não parece suficiente? Lembremos de que a razão também produz a arte! 1 Colocar os conceitos nestes termos nos ajuda a perceber que ambas são produtos deste dispositivo de entendimento, mostra sua origem comum.

Posto isto, nos cabe perguntar qual a distância prática entre arte e crítica, entre a invenção do objeto artístico e sua análise. Parece plausível afirmar que são procedimentos irmãos, pois têm suas raízes na razão. Irmãos que seguem caminhos diferentes.

Ora, se o pensamento é atividade, como diz Kant2, crítica e arte são movimentos deste pensamento. A crítica é, portanto, um movimento de criação também! Quando o objeto artístico fornece o solo, a crítica torna-se, quão mais nutritivo for este solo, um movimento de expansão e reinvenção da obra que, por sua vez, é novamente o ser vivo de outrora. A obra consagrada do passado é reanimada pela crítica do presente, com a vantagem de ganhar, assim, novas dimensões de sentido.

A função, por assim dizer, construtivista da crítica é exatamente a de dar vida, lembrando que objeto artístico só existe no momento de sua apreensão pelo sujeito, afinal, em todos os outros momentos é apenas objeto. Daí a possibilidade de fazer o movimento contrário, os dos ready-made, por exemplo. O movimento de tornar o objeto comum um objeto artístico.

Fountain, M. Duchamp
Fountain, M. Duchamp 1917

Como consequência destes pensamentos, vale refletir se faz sentido a distinção profunda feita entre este movimento de invenção que é a arte e este movimento de análise (como vimos, não passa de uma reinvenção), que é a crítica. O pensamento que, com uma mão, dá a o objeto artístico, com a outra dá a estética!

1 – Um cuidado deve ser tomado aqui. Deve-se lembrar de que a arte não é tão somente produto da razão, nem é isto que pretendemos afirmar, pelo contrário, é um produto do corpo em que esta razão está inclusa. Não vemos motivos para sustentar a separação cartesiana entre mente e corpo (Leia mais sobre o assunto aqui)

2 – Muitos dos termos e definições utilizados nos primeiros parágrafos têm sua origem na filosofia kantiana. Entretanto, estes são apenas materiais e inspiração para o texto. Não há aqui compromisso teórico com o pensamento do filósofo.

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

3 comentários

  1. fala Rafael! Bom texto! Parabéns pela retórica clara, simples e sucinta, isso é um grande talento seu como comunicador e acho que você deveria cultiva-lo com apreço. deixo aqui a minha opinião sobre o assunto tratado no texto:
    se você me perguntasse se é possível separar a arte da crítica eu responderia sem muitas dúvidas que não. Sobre a relação entre artista e critico vale citar Baudelaire: “Lamento os poetas guiados apenas pelo instinto; julgo-os incompletos… É impossível que um poeta não contenha um crítico”.
    Acho essa frase (apesar de estar em um outro contexto de argumentação) bastante pertinente ao tema. Sobre isso deixo também uma reflexão: o que muda por exemplo em um Beethoven da primeira para a nona sinfonia?… ele já era um músico completo (técnica e escrita) desde a sua juventude… eu responderia que o que muda é o Beethoven crítico! e não o músico! (tentando aqui separar esses dois fazeres) É o poder de seu senso crítico ampliando radicalmente o seu poder construtivo.
    Por coincidência, essa semana eu li um artigo do Paulo de Tarso que eu acho bastante pertinente ao que você levantou. O Artigo chama-se: “Referências à 9ª Sinfonia de Mahler no Op.19/6 de Schoenberg”. O titulo me chamou muito atenção, pois a nona de Mahler, no meu caso, é uma daquelas peças que a gente estraga o CD de tanto escutar!… um Xodó musical eu diria. rs, e eu nunca cheguei nem perto de ouvir alguma relação com o Op.19. Enfim, curioso, eu li o artigo que concluí que esse ultimo “movimento” do Op19 seria não só uma simples homenagem, ao recém falecido, Mahler (como ele mesmo coloca na partitura) mas uma obra que seria em si uma analise da nano sinfonia. Como se o ato de compor fosse também o ato de analisar! Vale notar aqui, que ler o artigo (para o bem o para o mal) mudou completamente a maneira como eu escuto o Op.19.
    Existe uma vasta literatura sobre esse tema. Não são poucas as obras que são praticamente analises sobre outras.
    E eu deixo aqui o que eu acho que é a questão mais pertinente que você levanta: A ressignificação de obras do passado! Acho que essa questão coloca um profundo dinamismo a história da arte! e por consequência a enche de vida!
    Escutamos madrigais renacentistas diferente depois de Ligeti ou da noção de micro-polifonia! e isso é simplesmente lindo! rs
    É por isso que eu gosto tanto de Borges e de sua visão sobre a literatura. Escritor que se dedicou não só a criação como também a crítica, e não são poucos os textos dele dos quais a linha que separa crítica de criação é bem tênue ou inexiste. A obra de Borges é sempre comentário… mas também, é pura criação.
    Porém vale lembrar também, que a critica e a analise possuem seus paradoxos e seus insucessos. Sobre isso deixo um texto que contribui melhor do que eu para o assunto: http://www.atravez.org.br/ceam_8_9/ilusao_analise.htm
    da uma lida eu acho que você vai gostar
    Bem correndo o risco de me estender demais deixo aqui a minha contribuição para o tema!
    um abraço!
    Paul
    ps: divirta-se com esse site de artigos! é do caralho! Visito sempre que quero ler algo sobre música.

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    1. Paul,
      Você completou magnificamente o texto! Belas citações e exemplos!
      Vou olhar um a um, inclusive o site de artigos, fiquei muito interessado! Muito obrigado pela contribuição!
      Eu já tinha a ideia de escrever um texto sobre o assunto há algum tempo, mas essa vontade se concretizou em ato ao ler uma análise feita pelo Arrigucci do poema “TInha uma pedra no meio do caminho” do Drummond. Vale a pena conhecer! É lindo!
      As análises do Borges são geniais! Vale lembrar do Roland Barthes também! Enfim, tantos outros!
      Li recentemente “O homem revoltado” do Camus. A maneira como ele interpreta o Ivan Karamazov me deixou morrendo de vontade de reler o romance sob essa nova perpesctiva!

      Um abraço!

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