leminski111Paulo Leminski tem um pouco de Charles Bukowski. Calma, calma, calma… Não necessariamente na temática. Mas em algo diferente. Por exemplo, seus fãs não possuem um número tão gigantesco como de poetas “maiores”, no entanto são mais “fiéis” e dedicados na obra & vida dos poetas. Esse é o ponto em comum que vejo nos dois. Pode não fazer sentido? Talvez, mas acho interessante essa caracterização.

Teve uma vida bem agitada e conturbada; casou-se aos 17 anos, separou-se, casou-se de novo e foi morar num tipo de comunidade hippie; ele, sua atual mulher, sua ex-mulher e o namorado dela. Saiu de lá por causa do nascimento do primeiro filho. Morre aos 44 anos, vítima de cirrose linfática. Ironia ou não, dizia que queria ser como Maiakóvski e Pound [dois de seus ídolos], grandes poetas que não bebiam, além de Maiakóvski [já tivemos um A Hora do Poema pra ele], também era engajado em poesias sociais [outro desejo de Leminski, como ele diz em uma poesia: “eu queria tanto/ ser um poeta social/ rosto queimado/ pelo hálito das multidões”]. Ele simpatizava com partidos comunistas, no entanto, jamais foi fisgado pela poesia social; dizia que preferia um bom poema romântico do que um ruim poema político. Ao menos o romântico não enfraquecia os ideais. Aliás, numa dessas ocasiões, acusou Ferreira Gullar [também já tratado aqui] de ser oportunista e carreirista.

Praticamente toda obra é composta de poemas mais curtos [produziu famosos haicais]. Por esse motivo e alguns outros, ele é encaixado no grupo de “poetas marginais”; artistas que queriam, em época de ditadura, mostrar o quão livre sua poesia poderia ser. Por isso, vendiam suas obras de mão em mão. Obras essas que eram MIMEOGRAFADAS e GRAMPEADAS [muitas vezes, só dobradas]. Ou seja, eram, de fato, “marginais”! Não só no conteúdo, mas em todos os âmbitos da arte que pretendiam disseminar.

Digo que “muitos o colocam”, pois é realmente difícil classificar Leminski. Sabe-se que ele flertou com muitas vertentes; desde o tropicalismo, a MPB, o modernismo, e acreditem: o concretismo. A questão é, como alguém pode ser marginal e concretista ao mesmo tempo? São visões, aparentemente, tão opostas. Afinal, se a “marginalidade” representava a completa “saída do eixo intelectual”, como poderia o poeta, leitor de Joyce, estudante de linguagem, erudito desde o princípio da vida, amigo de grandes intelectuais da época, como poderia ele caber tão bem dentro de tal movimento? Pois é… Leminski o fez e, por isso, dificilmente será encaixado em algum lugar com um definitivo ponto final. Não é errado dizer que o poeta exerce em seus leitores algo bastante único, bastante pessoal.

Um exemplo nato da singularidade de Paulo foi quando ele publicou sua obra Máxima “Catatau”. Antes de explicar por qual motivo, quero dizer que além da aparente contradição de ser marginal e concretista ao mesmo tempo, vale mencionar que ele era uma espécie de hippie, mas na década de 70 virou publicitário. Ou seja, um grande ponto de interrogação na cabeça de todos nós. Se essa dualidade lhe parece inaceitável, espera até ouvir a maneira com que Leminski misturou sua visão de mundo com sua profissão. Para um cartaz promocional do livro citado no início do parágrafo, ele pousou nu [em posição de flor de lótus]. Para Décio Pignatari, amigo íntimo do autor, a iniciativa foi inovadora dentro do marketing literário. Mas, óbvio, tal atitude não sairia livre de críticas. Jaques Brand, escritor, falou do ego de Leminski e que tudo não passava de uma suja jogada publicitária. A resposta de Paulo foi daquelas de cortar o coração de quem acha que literatura não faz parte de um mercado “o que irrita Brand é que usei técnicas da propaganda para lançar um livro de literatura. Como se a literatura – numa sociedade de mercado e de consumo – fosse algo de santo ou pátrio”. Dá pra imaginar um hippie falando assim? Difícil. Mas ele não foi “só” hippie, publicitário, marginal, concretista, tropicalista, ou contraditória. Foi Leminski. Paulo Leminski. O Marginal dos marginais ou a Besta dos Pinherais.

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Bem, selecionei vários poemas de Paulo. Tanto pra mostrar algumas de suas vertentes, porque não soube escolher uma pra analisar, tanto pra trazer um pouco daquilo que falamos na primeira parte do post [poemas curtos]. Parte essa que foi propositalmente maior do que o costume pra dar uma dimensão do que foi Leminski.

Mas, pra não dizerem que não falei das flores; o poema “ameixas”, foi escrito logo depois do famoso slogan: “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Causou, obviamente, bastante controversa na época e mostrou que o poeta também tinha senso de humor. Aliás, segundo ele, em tempos como aquele, o melhor remédio era rir.

Já no “Razão de Ser”, vemos uma vertente um tanto mais lírica. Na tentativa de explicar porque escreve, acaba explicando que não é necessária uma explicação. E assim, convence a todos. Não tão marcante quanto a fala de Clarice “escrevo pra salvar vida, provavelmente a minha”, porém um pouco mais “verosímil”, calcada na “realidade”.

Os poemas “Marginal” e “Epitáfio” não foram colocados um ao lado do outro por acaso. Acredito que o segundo justifica o primeiro e o primeiro exemplifica o segundo. 2º: “Marginal, escreve na entrelinha, […]”; 1º: “Este Silêncio, acredito, são suas obras completas”.

Enfim, ficaríamos muito tempo discutindo a obra de Leminski e seu significado. Tentei apresenta-lo pra muitos e também tornar o post interessante pra quem já o conhecia. Espero que tenha dado certo haha. Deixem seus comentários acerca da obra/vida do poeta. Não esqueçam de curtir/compartilhar.

Texto de Gustavo Magnani, retirado do site Literatortura.com

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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