O movimento LGBT é marcado por uma forte militância, também por uma luta pela valorização de sua identidade. Por toda questão ideológica que envolve o assunto, e toda polêmica (e falsa polêmica) que veio à tona nas últimas semanas, resolvemos nos manifestar. Para evitar mal-entendidos, somos a favor da lei, mas faremos uma reflexão para além desta questão, tentando entender as conseqüências das reivindicações desta minoria e a aprovação da união homoafetiva.

Embasados no conceito de alteridade (clique aqui), acreditamos que a vitória do movimento LGBT trata-se, paradoxalmente, de uma forma de derrota. Toda a questão sempre é tratada pelos liberais de mesma forma: “ok, vocês são como nós, lhes daremos direitos”, mas a questão é muito mais profunda que a simples possibilidade de união. Para estes liberais, possibilitar a incorporação do homossexual no núcleo social é um interesse não só econômico, mas fundamentalmente coercitivo. A medida da previsão de um determinado tipo de comportamento estabelece a medida da conservação de toda uma sociedade normal. Existe todo um movimento de codificação de comportamentos que envolve a suposta liberalidade da união homoafetiva. Uma produção de subjetividade em série ameaça também o movimento LGBT.

Entendemos que todo um movimento de minorias perde sua força quando ao invés de impor novos valores, ao invés de propor novos modos de vida, passa a pedir tolerância. Pedir para jogar o velho jogo (do qual todos nós fazemos parte) com regras novas é recuar na luta por vários e inusitados jogos que ainda não foram explorados. O que quer uma minoria? Tolerância? Não é muito pouco ser simplesmente tolerado? Se o movimento LGBT pode nos ensinar tantas coisas, tantas outras possibilidades de expressão, subjetivação, usos do corpo, uso dos prazeres, pedir para ser tolerado me parece um atestado de falência. O modo de vida homoafetivo explicita que as possibilidades são inúmeras, mas suprimidas no longo processo de subjetivação que um indivíduo passa ao longo de sua criação. A principal questão é a luta por um sistema de relações mais rico. Aqui, aceitar é capitular nos princípios, na possibilidade da diferença. Do mesmo modo que qualquer outra orientação sexual, a homossexualidade demonstra que o modelo heterossexual/monogâmico tomado como regra é limitado. Mas não, querem o homoafetivo tão entediado quanto o heterossexual, incluído em um modelo edípico clássico papai/mamãe/filhinho.

Toda minoria corre o risco de entrar em desespero para se encaixar (e posteriormente ser engolido) no modo de vida pobre e sem graça que vemos hoje. O “negro” alisando o cabelo (fim do black power), o “gordo” comprando diet shakes (ditadura da beleza), o “ateu” pregando a ciência e o “gay” casado. Só falta a música punk ganhando Emmy awards! Onde está toda revolta de uma minoria, em criar ou destruir leis? Quando a união homoafetiva for aprovada dirão finalmente, “lhes demos o que queriam, agora calem a boca e sejam como nós”, em suma, vocês têm direito à nossa miséria agora. Morre um gay militante e nasce um gay conservador.

Pedir isso é muito pouco. Dar isso é quase nada. Temos muito a aprender com qualquer minoria. Pareceria-me muito mais legítimo que o movimento homossexual deixasse explícito a falência destas instituições. Elas limitam as possibilidades de relação entre os indivíduos, física e psicologicamente. Deste ponto de vista, a união homoafetiva se torna puramente uma questão conservadora e monetária. O real sentido de qualquer minoria é lutar por um sistema plural de relações, seja ele qual for; multiplicar, e não legalizar.

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Dois, Eduardo Sancinetti

Os desejos instauram novas formas de organização e também de criação. Neste ponto, o devir criativo é muito mais importante que a identidade sexual; isto implica uma posição política que, muito além de uma defesa de uma ou outra identidade, propõe o potencial da própria não-identidade. Afinal, suas conquistas não são exclusivas, pois passam a ser possibilidades de toda uma sociedade. Não se trata de estabelecer limites, mas justamente de suspendê-los.

O principal a se dizer é que não se deixe morrer a essência de uma causa necessariamente crítica às estruturas. É neste sentido que o registro em cartório da união homoafetiva funciona, em última análise, como uma concessão. Uma vitória que acaba por domesticar o espírito transformador deste movimento. Os autores deste blog certamente ficariam felizes pelos benefícios imediatos de tal lei, mas ao mesmo tempo temeriam as implicações futuras de tal ato. Se todo desejo é revolucionário e toda revolta é permanente, pouco a pouco, corre-se o risco de vermos a morte da militância LGBT. Que perigo, que perigo é para um movimento revolucionário o gay conservador (porque todo conservadorismo é perigoso). É necessário resistir e promover espaços e possibilidades libertárias que fomentem a diferença de maneira cada vez mais criativa, e esta conquista não passa pela aprovação de uma lei.

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

6 comentários

  1. Não vou me estender pq concordo em grande parte com suas opiniões. Apenas gostaria de levantar um ponto:
    Talvez, grande parte do movimento LGBT estivesse querendo somente a legalização da união para que eles pudessem com maior tranquilidade e direitos, além de menos constrangimentos, justamente fazer parte desta sociedade como foi criada e poderem viver o “sonho americano” como qualquer outro.
    “Onde está toda revolta de uma minoria, em criar ou destruir leis?”.
    Talvez eles soh queiram ser como qualquer um e não revolucionar nosso modelo social. Vale aqui lembrar que nossa sociedade e economia deriva da evolução natural do próprio ser vivo, e que definições impostas por opressores sobre oprimidos nao é uma relação exclusiva de nós, seres humanos. De certo toda evolução que tivemos derivou justamente da revolta dos oprimidos contra seus opressores, porém nem todo completo radicalismo é verdadeiramente positivo assim como não o é, o conservadorismo.

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    1. Senhor Diego, estou apreciando muito sua moderação! Concordo também com sua opinião, este texto apenas para deixar claro os perigos de ser aceito. Existe liberdade porque temos a capacidade de resistir.

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  2. concordo com sua crítica, rafael, q, se reproduzo bem, poderia ser resumida em “pra q abrir mão da liberdade das diversas outras formas de relacionamento e insistir em se casar?”.

    acho q o diego aponta pra solução: mta lgbt se identifica com essa narrativa heteronormativa do casamento monogâmico. e ñ é pra menos: q outro modelo nos é vendido como respeitável? é custoso descobrir seu próprio arranjo com x(s) parceirx(s), tanto individual como socialmente, então é fácil entender pq as lgbt querem isso.

    mas essa verdadeira ocupação do espaço público pela questão do casamento igualitário ñ é mera adaptação à ordem – ela tb tem um potencial transgressor, na medida em q traz à luz o desejo por pessoas do mesmo sexo, q é relegado à sombra pela heteronormatividade. mostra q desejar uma pessoa do mesmo sexo é algo positivo – tão positivo q pode até merecer o mesmo tratamento q o desejo heterossexual recebe por meio do casamento. além disso, essa discussão pode – pode – preparar terreno pra a luta do poliamor, por ex.

    enfim, do pto de vista lógico, sua crítica faz todo o sentido, mas sua pretensão de lutar contra o casamento teria pouco eco na sociedade. se uma parte muito grande das lgbt se reconhece no paradigma heteronormativo, está disposta a lutar pelo casamento e tem grande simpatia do restante da sociedade – o casamento da daniela mercury com uma mulher ganhou o jornal nacional – seria um grande desperdício não encampar essa luta e aproveitar seus efeitos colateriais, q são de grande interesse.

    parabéns pelo texto.

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