Giuseppe Crespi
Giuseppe Crespi

Não há padre que não seja onanista“. Esta citação foi dada numa palestra ministrada por Luiz Fuganti no Festival Contemporâneo de Dança 2011 (clique aqui). Provocadora? Com certeza, mas podemos explicar o porquê desta visão.

O desejo se torna falta quando perdemos a capacidade de criar. Começamos então a consumir. Uma existência que perde a capacidade de expandir-se volta-se contra o indivíduo e abre um buraco nele, o que era transbordamento se transforma em falta. “Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro – é isso que eu denomino a interiorização do homem” (Nietzsche, Genealogia da Moral). A vida se torna fraca e passa a pedir esmolas, pesada e passa a pedir perdão. É aí que o padre diz: o desejo só é real porque ele carece de um objeto externo, é porque ele não tem que ele busca ter. Somos incompletos, imperfeitos. O padre prende o desejo identificando-o com o Ideal, pois só o Ideal é capaz de domar o desejo real.

Se primeiro ele inventa a castração, chamando o desejo de falta, depois, ele cria a masturbação. O padre não quer aliviar o desejo, quer matá-lo! O desejo tira o homem de si mesmo, o enlouquece, o desequilibra. Precisamos matar o desejo, diz o padre, e para isso inventa o prazer. Neste momento, a vida passa a ser masturbação, ferramenta para aliviar o desejo (porque todo desejo é revolucionário). O “amor mal feito e depressa” que nos faz suportar a existência, a happy-hour que nos faz relaxar, o chocolate que dá aquela escapada do regime, porque afinal somos também filhos de Deus.

O padre nunca fala contra o prazer, fala apenas contra o desejo. Através do prazer, o padre prende o desejo, canaliza o desejo, enfraquece o desejo. Está claro, afinal, que uso fazemos do prazer? Para aquietar-nos, amansar-nos. O prazer, na visão do padre, é utilizado para acalmar, e principalmente, esgotar. E desta maneira, a vida se torna cada vez mais pobre.

Vemos sempre muitos padres por ai (psicanalistas, acusaria Deleuze). Eles estão sempre à espreita, sempre chamando o desejo de perigoso, sempre prontos a nos culpar por não seguir suas prescrições. O prazer que mata o desejo, o prazer que nos impede ver, o prazer usado para amansar o homem: eis a figura do padre.

Virando-se para o norte, o padre diz: Desejo é falta (como não seria ele carente daquilo que deseja?). O padre operava o primeiro sacrifício, denominado castração, e todos os homens e mulheres do norte vinham enfileirar-se atrás dele, gritando em cadência: “falta, falta, é a lei comum”. Depois, voltado para o sul, o padre relacionou o desejo ao prazer. Porque existem padres hedonistas, inclusive orgásticos. O desejo aliviar-se-á no prazer, e não somente o prazer obtido para calar um momento o desejo, mas obtê-lo já é uma maneira de interrompê-lo, de descarregá-lo no próprio instante e de descarregar-se dele. O prazer-descarga: o padre opera o segundo sacrifício denominado masturbação. Depois, voltado para o leste, ele grita: O gozo é impossível, mas o impossível gozo está inscrito no desejo” (Deleuze, Mil Platôs, Vol. 3)

Giuseppe Crespi
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Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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