Invasion al Comunismo

Se ao interpretar o nazismo Camus definiu-o como afirmação absoluta (clique aqui); ao analisar o fenômeno das revoluções marxistas, ele as identificará com a negação absoluta. O homem revoltado necessita do equilíbrio para manter sua revolta: pender para qualquer um dos lados é cair no niilismo e no terrorismo. Assim como acontece com a revolução russa, o mesmo acontece com outras revoluções históricas, que são negadoras absolutas.

Talvez seja por estas afirmações em “O Homem Revoltado” que Camus rompeu com a intelectualidade francesa, principalmente Sartre, e foi acusado de conservador e direitista. Ele não perdoa nenhum tipo de crime contra o homem, a revolta não desculpa tudo, e isso vale também para a esquerda.

A análise de Camus ao marxismo acontece sob o ângulo da profecia: uma mistura de método crítico com messianismo. Deste ponto de vista, os fins justificam os meios, do mesmo modo que uma religião, a interpretação dos fatos é justificada pelo a posteriori. O marxismo se aproxima do cristianismo quando transforma a história da humanidade no reino dos fins: um seta em direção à perfeição divina, ou, neste caso, ao paraíso terrestre da sociedade sem classes. “O futuro é a única transcendência dos homens sem deus” (p. 196).

Quando se está seguro de que o amanhã, na própria ordem do mundo, será melhor do que hoje, é possível divertir-se em paz. O progresso, paradoxalmente, pode servir para justificar o conservantismo. Letra sacada contra a confiança no futuro, ele autoriza, desta forma, a boa consciência do senhor. Ao escravo, àquele cujo presente é miserável e que não têm nenhum consolo no céu, assegura-se que o futuro, pelo menos, é deles. O futuro é a única espécie de propriedade que os senhores concedem de bom grado aos escravos” – Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 226

Camus não perdoa os massacres, os campos de concentração, as execuções sumárias, os exílios, enfim, todas as crueldades perpetradas pela esquerda. Com a justificativa de uma sociedade justa e harmoniosa, todo o tipo de absurdo foi cometido, em nome da liberdade futura, escravizou-se o presente. Segundo Marx, as contradições do próprio capitalismo seriam fortes o bastante para fazer ruir este edifício e dar origem a um mundo novo: só era preciso esperar, tudo se arranjaria. “De que modo um socialismo, que se dizia científico, pôde entrar em tal conflito com os fatos? A resposta é simples: ele não era científico.” (p. 254). O materialismo histórico transformava o homem em simples objeto da revolução, ferramenta de seu tempo. Ao criticar a reificação do homem, o materialismo histórico se utilizava de sua crítica na tentativa de libertá-lo.

Se a única esperança do niilismo reside no fato de que milhões de escravos possam um dia constituir uma humanidade emancipada para sempre, a história não passa de um sonho desesperado. O pensamento histórico devia livrar o homem do jugo divino; mas essa liberação exige dele a submissão absoluta ao devir” – Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 270

Troca-se a submissão a Deus pela submissão à história, mas a miséria permanece. Toda esta questão gira em torno de um mal-entendido por parte do revoltado que se torna revolucionário: a totalidade não é unidade. Há de se lembrar que toda revolta nasce com a afirmação de uma unidade própria. O escravo que diz “não” é antes aquele que diz “sim” para si mesmo, unificando suas partes. Mas seu movimento de revolta perde-se ao buscar a totalidade, esta atitude é definida por Camus como terrorismo, subjetividade imposta como objetividade (veja aqui). O homem revoltado estabelece um limite e se pauta por ele para guiar-se no mundo; já o revolucionário aposta todas as suas fichas na história, ela se encarregará de redimi-lo. Todo e qualquer ato no presente, por mais extremo que seja, encontrar-se-á perdoado pela sociedade perfeita que virá. Mas este ato exige fé, e exige evangelização, e caso contrário, exige mais violência. O carrasco chora maltratando suas vítimas em nome delas mesmas, o senhor violenta seus escravos em nome do que não existe. Mas muitos estão dispostos a matar por suas ideias, então é necessário ocupar-se delas.

O revolucionário procura trazer ao homem aquilo que é dele, mas joga esta posse no futuro e em nome desse ideal ultrapassa todos os limites. Sua diferença para o homem revoltado é que este se identifica com o presente e já encontrou a unidade. O revolucionário justifica sua violência no porvir, o revoltado justifica sua resistência no devir. A negação absoluta em nome do que virá condena toda revolução ao terrorismo. O homem revoltado não se utiliza necessariamente da história porque afirma e ao mesmo tempo está no presente, seu ato encontra afirmação em si mesmo, naquilo que afirmou no ato de dizer “não”.

A revolta em conflito com a história acrescenta que, em vez de matar e morrer para produzir o ser que não somos, temos que viver e deixar viver para criar o que somos” – Albert Camus, O Homem Revoltado, p. 288

comunismo

> este texto faz parte da série/resenha “O Homem Revoltado” de Albert Camus <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

7 comentários

  1. Me desculpe a sua herminêutica é evaziva e forçosa naquilo que, Marx jamais falou de revolução proletária em atos matar e atos de terrorismo, mas, em revolta não permitir-se ao dominante capitalismo e segundo textos apresentados Camus não atrocida em nada o maxismo. Porém, porque evasiva a sua interpretação? É percebível o seu pensamento em esconder o terrorismo capitalista em sua visão utópica bem definida em domínios nacionais, imperialismo e por fim um império total e único. Os países capitalistas e já visivelmente imperialista atua num terrorismo extremo de participação em extermínios étnicos tão atual. Nem Nietzsche e nem Camus pregaram anti-marxicismo mas, pela vida e claro se é pela vida o capitalismo é pela vida de todos? Você diria que sim? Então, sua concepção filosófica tem uma paixão ideológica que nem estar oculta. Se responder que não,seja mais explícito a sua identificação em ocultar em suas palavras o outro lado da moeda.

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  2. Belíssimo artigo, esclarecedor a nível de informação! Quando li a obra tinha apenas 16 anos, não a compreendi muito bem (talvez estivesse passando pelo romance e encantamento comum de todo jovem com as artes). Hoje, mais sóbrio e muito menos convicto na fé (seja lá qual ela for) seria mais do que bem-vindo reler a obra com um olhar ainda mais crítico.

    Já assinei o blog.

    Meus parabéns pelo ótimo trabalho!

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