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início da manifestação

Em face das tentativas da mídia de deslegitimar as reivindicações do Movimento Passe Livre (MPL), achamos necessário refletir sobre a questão de vandalismo de que nos acusam. É certo? Até onde podemos ir? O Governador Geraldo Alckmin disse que eles são intoleráveis; sim, tanto quanto nossa rotina no transporte público.

Por que aqui somos vândalos e lá fora somos manifestantes? Não somos uma Turquia (ainda), mas as manifestações pela diminuição da tarifa de ônibus e metrô assumem proporções cada vez maiores, e isso reflete a insatisfação geral das pessoas. Não são apenas 20 centavos, longe disso. A questão é a re-apropriação de nossa cidade pelo uso dos meios democráticos, manifestar nosso repúdio à exclusão social consequente do aumento da tarifa, a infelicidade de nosso presente e nossas perspectivas da vida na cidade, a indignação de uma política pública/privada que sempre deixa os cidadãos em segundo plano. Neste ponto, somos todos turcos… começa com uma praça e assim vai.

Mas e a violência? “A manifestação é boa, mas a violência tira toda a razão”. Acreditem em mim, não tem como controlar. É uma minoria. É impossível se responsabilizar por todos. Não adianta pedir um protesto 100% pacífico, insistir neste ponto é inviabilizar nossa manifestação. Um recurso moral barato dos conformados. Além do mais, eu estava lá, e não é como aparece na TV. Não vamos parar de nos manifestar porque meia dúzia de arruaceiros queimam um ônibus durante o processo ou picham “3,20 não” nas paredes. Nós somos 20 mil ou mais. A violência de alguns será algo com que teremos que lutar, mas nunca conseguiremos suprimir. Não é um mal necessário, imanente talvez. Será forçoso conviver com esta questão sem deixá-la tornar-se maior que nossas reivindicações.

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Mesmo assim, alguém já se perguntou o por quê do vandalismo?

A violência é infelizmente a única coisa que algumas pessoas conheceram durante toda a suas vidas. Eles se manifestam desta forma porque é a única ferramenta que lhes foi passada. Tudo que são hoje é fruto de uma família violenta, uma escola repressora, um trabalho opressivo. Reflexo social. Sabemos disso, vivemos em São Paulo também. Nossas vidas são um regime de violência. Quebrar coisas não é causa, é consequência. Para olhos bem treinados, um indicador do que esta cidade está nos tornando.

E a mídia se utiliza dessa raiva para criar medo: medo de nós mesmos, medo de ir pra rua, medo de exigir nossos direitos. Sabemos também que o que a mídia passa não condiz com a realidade. Vi lixo no chão, vi fachadas de bancos quebradas, vi gente pichando as paredes. Mas não vi nenhum assalto, arrastão, não vi transeuntes sendo agredidos, e não vi nenhuma loja sendo saqueada. Outra coisa, vi muita gente na marcha com medo de polícia. Quando eles estavam rindo da gente na chuva estava tudo bem, mas depois da praça da Sé eles não estavam mais tão amigáveis. E quando as balas de borracha soaram, vi alguns “vândalos” servindo de escudo humano para podermos escapar.

Não defendo a violência, mas a entendo. Nós estamos cansados, e chega a ser difícil de colocar em palavras, vemos muitas coisas que não nos agradam, o transporte público é uma delas. Exatamente por isso não vamos parar, somos muitos e os vândalos são poucos. As notícias de jornal podem dizer mentiras apenas dizendo verdades. Mas vocês podem ver com seus próprios olhos, apareçam na próxima manifestação. Acreditem, vocês serão muito bem vindos (talvez não pelo poder público).

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bombas de gás lacrimogêneo voando na praça da Sé

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

7 comentários

  1. Sabe o que ainda me deixa em suspenso…o fato de haver violencia aqui e, no Rio e em Porto Alegre não. Não podemos generalizar, existem alguns aspectos que escapam ao controle, certo?
    E a mesma passeata! (mesmos direitos).

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    1. é verdade! são coisas que precisamos analisar…. primeiramente a vericidade do que a mídia passa destes protestos. Em segundo lugar, sociologicamente, afinal, as coisas em São Paulo e Rio/Porto Alegre são diferentes: população, rotina, desigualdade social, religião, escolaridade. São perguntas que eu gostaria muito que fossem respondidas.

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