policiaa

É mais fácil escrever hoje, ontem eu não tinha condições de traduzir emoções e experiências em palavras. Pela televisão você não respira o gás lacrimogêneo, pela televisão você não sente o tremor de ar à cada bomba de efeito moral que explode ao seu lado, pela televisão você não sente o coração na boca de tanto correr e o medo ao ver as pessoas do seu lado serem atingidas por balas de borracha. São cenas de guerra civil, e apesar de sermos 50 mil, somos minoria.

A ação da polícia não foi exagerada, nem descabida, foi perversa. Uma manifestação pacífica tratada como terrorista. Vimos ontem que o patrimônio público está acima do patrimônio humano. Para quem está no poder, bancos, ruas, carros, placas parecem ser muito mais importantes que pessoas. Nem a mídia escapou (há males que vêm para o bem). Vinagre tornou-se porte de arma, nos prendem pela tentativa de nos proteger, nosso escudo é uma ofensa para eles. Mas o poder é fraco porque é a última arma de que alguém dispõe. O poder só destrói, e nós estamos criando.

Por isso agora a questão é outra, os manifestantes não querem “apenas” que a tarifa volte a ser 3 reais. Daqui em diante, a manifestação é pelo direito de se manifestar. São muitas coisas, uma vontade de liberdade. Eles sabem, voltaremos às ruas. Claro que temos medo (eles também), mas voltaremos às ruas. Enquanto o batalhão de choque acha que está em uma guerra real, nós sabemos que estamos em uma guerra de valores. Enquanto lutar para eles é bater, lutar para nós é resistir. Eles venceram a batalha ontem, mas muitas vezes o vencedor é vencido por sua própria vitória.

Iremos em paz. Não revidar nem fugir: resistir. Acreditamos em algo e cada vez mais essa crença aumenta. Nosso movimento tornou explícita a profundidade das rupturas sociais de nossa cidade. Não adianta usar violência para acabar com a manifestação! A violência de nossas vidas nos levou até lá! A raiva de abaixar a cabeça e aceitar situações como essa foi o que nos mobilizou. A violência é um tiro no pé, ela só fará aumentar nosso número, ela nos unirá mais e mais. Quanto mais violência, mais forte seremos. Cada vez voltaremos em maior número.

Desviar a violência, passar pelo lado, por baixo, por cima. Todos juntos. Ficar parado, sentar. Não fugir nem reagir: resistir. Eles têm bombas, cassetetes. Nós somos dezenas de milhares! Daremos os braços, andaremos juntos, o medo faz parte da coragem. Você ouvirá minha voz na próxima manifestação e provavelmente eu estarei do seu lado também. Quando ouvirmos as bombas, daremos os braços. Vamos lutar pelo direito de lutar.

Respirando ares do oriente médio, ontem fui dormir mais turco.

asasas

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

12 comentários

  1. Despresaram a Bíblia? Agora sente só o cheirinho de gás! Certamente mais de um se lembrou de Deus nesse momento. Sim aquele mesmo que foi rejeitado em momentos de ilusória paz, ha alguns días atrás! Outra vez você me fazendo rir. Você quer liberdade mas nao respeita a liberdade de um ser igual a ti que possui outra crença! HAHAHA

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    1. péssimo comentário heim Marisa!! Fica nítido que sua visão de mundo além de ser extremamente limitada é baseada no que uma mídia (de baixa categoria) dissemina!!

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    2. Marisa, com suas palavras agressivas e arrogantes você envergonha quem, como eu, crê num Cristo humilde e corajoso. Não é nesse tom que se defende a palavra de Deus, com vingancinhas e ironias. Reflita bem no que está escrito neste livro que vc pensa conhecer. Já que você quer que outros conheçam a Deus, comece dando bom testemunho.

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    3. Apesar de ser difícil explicar com palavras ou razão no que as religiões creem, é fácil defender seus direitos de crer no que bem entender.

      Mas é esse tipo de ignorância, por parte de quem não pode justificar tal ingenuidade que acaba até com o ânimo de defendê-los. O conhecimento da sua própria crença é a melhor ferramentas para defender sua liberdade de crer.

      A vingança devia ser incluída numa revisão dos pecados capitais pós-modernos. Luxuria parece ser uma boa candidata a sair. Sei lá, não é mais #trend no século XXI, não?

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  2. Eu era bem cético em relação a esta manifestação alguns dias atrás. Continuo sendo, porém agora, com uma ponta de esperança. A manifestação ainda peca em corpo, objetivo (esse peca muito ainda), organização e planejamento. Mas ouvir das pessoas que lá estavam, cada vez mais, que seu objetivo não são os 20 centavos, muito menos a revolta contra a polícia, e sim a revolta contra a organização política, contra a ineficiência da gestão pública, contra a repressão exagerada e os absurdos parlamentares, me anima.

    A maior organização provou ser a melhor arma contra a repressão exagerada da polícia. Nada como sentar com as autoridades ANTES de levar milhares de pessoas pras ruas e definir CLARAMENTE as regras, destinos e bandeiras. Os poucos excessos que houveram, foram contidos com a força proporcionalmente necessária, pois os excessos DEVEM ser desestimulados. A atuação da polícia ontem deve ser tão elogiada quanto a dos manifestantes.

    É triste ainda ver tantas bandeiras partidárias e tantos pedidos incabíveis de redução de tarifa. Mas é incrível ver tantas pessoas na rua tentando, desesperadamente, mudar alguma coisa. Espero que esse movimento não acabe quando não for mais hype levar seu iphone pra rua, e sim evolua, até que ele seja conciso e forte o suficiente para mudar algo na vida das pessoas que não puderam postar fotos da manifestação no face porque estavam dentro do ônibus.

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