“Os manifestantes são descartados como sonhadores, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar indefinidamente como estão, com apenas algumas mudanças cosméticas. Eles não são sonhadores, são o despertar de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estão destruindo nada, estão reagindo ao modo como o sistema gradualmente destrói a si próprio” – Slavoj Zizek

Acaba de sair a notícia da revogação da tarifa de ônibus e metrô que a partir de segunda feira voltará a custar 3 reais. Em face disso, precisamos refletir sobre as consequências que esta determinação terá no futuro do grupo de pessoas que saiu às ruas para se manifestar. Neste momento, algo de muito estranho está acontecendo (este blog não é o primeiro a perceber isto), mas temos observado uma apropriação do Movimento Passe Livre por forças estranhas que não estavam no começo deste movimento.

A mídia está tendo um trabalho enorme agora em transformar a luta em uma comemoração; pior, a demanda por mudanças em um desabafo nacionalista barato. Estão transformando um ato político em um showzinho. Jogadores de futebol apoiando o protesto? E eu com isso? Me assusta ver Datenas, Jabores e Pondés que, de repente, passaram a ser os maiores defensores dos atos públicos da democracia. A revista Veja apoia? Não é possível, então precisamos pensar se algo de muito errado não está acontecendo. Não podemos cair em seu jogo. O que está acontecendo pode, e quem sabe se tornará, algo grandioso, passível de enormes mudanças.

“Os manifestantes devem ter cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem apoiá-los e trabalham duro para diluir o protesto. Da mesma forma que tomamos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar os protestos num gesto moralista inofensivo” – Slavoj Zizek

Protesto sem protesto, protesto que não visa mudanças, isto seria uma enorme perda. A manifestação não pode perder sua legitimidade, precisamos nos manter unidos e tomar cuidado com aquilo que forças externas nos colocam. A resposta de uma integrante do MPL aos números e estatísticas que apresentaram a ela foi perfeita: “Não quero e não vim aqui para discutir tabelas, quero que abaixem a tarifa”. Estamos discutindo com grandes profissionais da política, estamos jogando um jogo em que eles já são experts, não podemos cair em suas artimanhas. Eles estão com medo. Exatamente, medo porque após a revogação da tarifa não paramos. Agora, não colocamos pautas claras, dizemos apenas que estamos cansados e insatisfeitos com tudo isso que nos oferecem. O modo atual de fazer política necessita de uma transformação radical porque apesar de vivermos numa democracia representativa, não nos sentimos representados. Tudo aquilo que não é posto às claras e bem definido assusta: temos medo daquilo que não conhecemos. E nós estamos ainda neste ponto. Sabemos que algo nos incomoda e traduzir isso em questões simples foi o que nos trouxe às ruas, mas saber lidar com o desconhecido é o que pode nos manter fortes e unidos.

“O que se deve ter em mente é que qualquer debate, aqui e agora, necessariamente permanece como um debate no território do inimigo: é preciso tempo para posicionar o novo conteúdo.” – Slavoj Zizek.

Protesto não é um evento legal de facebook para chamar a galera e tentar aparecer na televisão. Deve haver indignação no ar, não clima de festa. Deve ser tenso, não “algo lindo de se ver”. Da mesma forma que o Punk foi engolido pela indústria fonográfica, não podemos correr o risco de ver esta onda de manifestações ser engolido por caras pintadas filmando e tirando fotos. Estamos saindo às ruas para procurar respostas à perguntas que ainda não temos, não sabemos, mas já estamos agindo. Por isso é tão importante calma e cuidado neste momento. Não podemos tomar caminhos errados e não devemos nos assustar com nossa ignorância, porque buscamos algo que ainda não conhecemos, mas que exatamente por isso devemos criar.

“Os manifestantes deveriam se apaixonar pelo trabalho duro e paciente – eles são o começo, não o fim, então sua mensagem básica é: o tabu foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão, a obrigação até, de pensar em alternativas” – Slavoj Zizek

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

5 comentários

  1. Me revolta ouvir os manifestantes clássicos tirarem o mérito de quem está lá cantando o hino, de cara pintada. São cidadãos como vocês. Neymares, Ronaldos e Pelés tem o mesmo direito de protestar, contestar ou apoiar como qualquer um, da maneira que os convir. Jabores e Datenas tem o direito de mudar de opinião como cidadãos comuns. Eu mudei de opinião inúmeras vezes ao longo dos últimos fatos e nenhum dos meus amigos me condenou. Pq eles não podem? Pq uma revista tradicionalmente direitista, agora é fascista e não pode apoiar o protesto? Ser direitista não significa ser contra o progresso social. Um dos maiores protestos vistos dentro dos muros da USP foi puxado pela FEA, a Faculdade Fascista que nunca está preocupada com a sociedade a sua volta. Isso tira dela sua legitimidade? Seus direitos? Pq eu, cidadão, não posso me manifestar como quero, como posso, pelo que acredito? Não estive nas manifestações dos 20 centavos, pois não concordo com ela. Por isso não posso estar na da PEC-37?

    Tenho visto inúmeros textos de famosos “manifestantes profissionais” como o discretamente citado acima, alegando que algo estranho está acontecendo. O estranho é vocês não perceberem que as pessoas comuns fazem o que podem. E que é belo vê-las apoiarem e se politizarem (no bom sentido) a ponto de saírem às ruas. Pq o Neymar não pode postar no fb seu apoio? Pq ele é famoso? Pq a Veja não pode apoiar o movimento? Pq ela é direitista (VEJA bem, direita não é fascismo, e mesmo que fosse, seus direitos permanecem)? Pq por 1h30 eu não posso realmente só sentar no meu sofá e ver uma partida de futebol?
    É clássica ja a mania de perseguição dos revolucionários sul-americanos que só ajudou a suprimir todos os movimentos que insistiam em alertar uma conspiração que nunca se manifestou.

    Aceite. A mídia vai apoiar o que é benefício pra ela, como o povo apoia o que é pra si. Bem-vindo à beleza do capitalismo democrata, onde a busca pelo benefício próprio pauta todas as ações, inclusive as do MPL, consciente ou inconscientemente. Decisões ignorantes são tomadas por todas as partes. Informação é um problema para todos os lados. Ingenuidade não.

    O Brasil precisa de todos que possam ajudar sua pátria neste momento. Criar polêmicas irracionais não ajuda em nada. Discutir ações, FATOS e propostas talvez nos leve a um caminho melhor.

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    1. Diego… acho que concordo com você. Não sei, acho que você apareceu falando de coisas que não estão no texto. Claro que concordo que todos podem mudar de opinião, mas acho que certas decisões são tomadas corporativamente com relação à Jabor, Datena e etc. Concordo que cada um faz o que pode, eu e você também, mas acho que existe um jogo de quem lidera quem em um momento em que ainda estamos perdidos, saíndo às ruas pela primeira vez.
      Este texto foi muito mais para pedir calma e cuidado ao invés de criar uma teoria da conspiração.

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      1. Realmente Trim, foi em certo modo um desabafo por muitas coisas q tenho lido sobre o tema, de pessoas q deveriam ter um posicionamento diferente. Seu 3o paragrafo eh perfeito. Nos demais, enxergo discriminação inargumentada. Há certa diferença entre Datenas, que são porta-vozes da opinião midiática, de Jabores, que nem mesmo é afiliado a uma só rede (nem mesmo é um sociólogo ou jornalista politico, é um cineasta excêntrico).

        Concordo plenamente com o jogo de lideranças. Só nao sei como julgar ql liderança eh a mais positiva pro movimento. mas temo-a, como você.

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  2. Li seu texto e agora estou num dilema… não sei se a multiplicidade de manifestações e protestos sobre diversos temas em diversos lugares do país indica uma descentralização positiva, no sentido de cada vez mais promover a apropriação do espaço político; ou se aponta para o revelar de uma característica antiga do nosso povo: a legitimidade do movimento se dissipa, se descentraliza e novamente passa a representar os interesses individuais e regionais.
    De uma certa forma nenhuma destas alternativas parece totalmente negativa, a medida que pelo menos levam as pessoas a reflexão, ou quase isso…
    Meu maior medo é o seu segundo/último parágrafo, uma terceira alternativa, a criação de uma categoria “manifestante”, tipo ‘hipsters’ ou qualquer coisa do tipo… um produto a ser comercializado e explorado pelos meios de comunicação. Seria a completa banalização e cuspida final na cara de um movimento que só teria existido como manobra econômica!

    Enfim.. Ótimo texto Rafa! Me fez rever algumas “certezas” … (:

    Estou torcendo para que o movimento realmente se use da criatividade de seus integrantes e conduza o país para um “desconhecido” mais justo, consciente e participativo!

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    1. concordo! é quase impossível analisar com precisão o que está acontecendo. Mas algo muito grande está acontecendo e o principal não são as teorias da conspiração, o principal é que estamos caminhando no escuro, fazendo política de um modo que não temos prática ainda. Vamos ver no que vai dar. Sejamos otimistas…

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