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Há tempos conhecemos os absurdos que alguns veteranos fazem seus calouros passarem no trote. Muitas vezes a brincadeira inocente se torna um meio para síndrome do pequeno poder, para usar um pouco de linguagem psicanalítica: o mais infeliz, mais humilhado, mais ressentido é sempre o primeiro a se vingar com aquilo que tanto o ofendeu. “Ano que vem você faz com seus bixos”, foi o que ouvi na minha vez como calouro. Isso parece acontecer longe de nossos olhos, mas temos a prova real de que é mentira. Esta foto foi tirada durante um trote realizado por estudantes da Universidade Mackenzie.

O comportamento de todos nesta foto me impressiona. Um homem segurando “coleiras”, mulheres imitando cachorrinhos e pessoas indiferentes. Mas não vamos psicologizar e dizer que se trata de um comportamento patológico. Prefiro seguir um caminho micro-político, se isso parece obscuro, vocês já vão entender.

Um simples trote pode ser a situação perfeita para entendermos como relações de poder se reproduzem e se mantêm. Sinceramente, meu texto não será para o cidadão de azul que segura as coleiras, todos sabemos o que dizer e pensar deste sujeito. Este texto se dirigem para as “vítimas” de tal brincadeira.

Como o poder se mantêm? Quem sustenta o poder daqueles que oprimem? Somos cúmplices do poder, por medo ou por amor a ele. Não vítimas, cúmplices. Estas garotas foram coagidas por motivos que parecem banais: pressão social, vontade de serem aceitas, etc., mas no momento em que aceitaram, deixaram de ser apenas vítimas e se tornaram cúmplices, elas ajudaram a manter uma prática machista que há tanto tempo muitas mulheres (e vários homens) lutam para reverter.

Não quero culpá-las, isso seria isolá-las no contexto, quero só dizer que tomem o cuidado
para não se submeterem a situações como essas novamente, porque é isso que sustenta todos os clássicos argumentos machistas de nossa sociedade: “ela gosta”, “mas no fim ela fez”, “ela reclama mas sente prazer”, e assim por diante. Não deem poder àqueles que o usarão para fazer coisas como estas. Não se submetam a práticas deste tipo.

Quero ir para além do julgamento, e do famoso “culpabilização da vítima”, para tentar mostrar que as práticas de opressão se dão em uma relação. Se os opressores vão continuar a agir desta forma, cabe às vítimas (falso elo mais fraco da relação) a resistência, se negarem a estabelecer relações deste tipo.

Isso levando em conta claro que estas garotas foram iludidas (ou deveria dizer forçadas?) com a promessa de um trote divertido, mas na verdade estavam se sentindo humilhadas. Muitas pessoas não vêm problema nos trotes e estabelecem esta relação de veterano/bicho sem constrangimento nenhum, neste caso, este texto não é para vocês. É para aqueles e aquelas que se submetem a situações em busca de aceitação. Saibam de uma coisa bem simples: o trote não precisa ser humilhante para você conhecer pessoas na faculdade.

Resumindo, não caiam nessa ladainha de “você precisa fazer isso para ser aceito” ou algo do tipo “é só uma brincadeira”; para terminar, e citando La Boetie, “parem de servir ao poder e ele cairá”, ou neste caso, parem de sustentar práticas machistas e humilhantes e assim elas deixarão de existir.

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

22 comentários

  1. Texto muito bom. Podemos acrescentar nessa discussão a ideia do Goffman, que um papel não existe sem o outro, ou seja, só existe um opressor, se alguém se colocar no papel de oprimido.

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    1. perfeito! o goffman é mais atual! e a análise das instituições dele é perfeita para este momento: a instituição trote diz “faça e no ano seguinte se vingue”

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    1. Você vai ser xingado por esse comentário, mas honestamente eu concordo. NINGUÉM é obrigado a frequentar o trote. Nenhum “veterano” obriga os ingressantes a passarem por isso, e caso obrigue, geralmente ele é punido pela própria reitoria da Universidade em questão. Foi assim, por exemplo, com o trote racista de uma federal do interior de MG. TODOS os envolvidos foram expulsos da universidade.

      Realmente existem coisas que podem soar extremamente humilhantes/machistas/whatever aos olhos dos “críticos” que estão do lado de fora, mas pra quem está lá dentro, é outra coisa. Nem sempre o que parece horrível e grotesco à vista dos “conhecedores críticos da sociedade” realmente o é. Vamos controlar essa hipersensibilidade aí também. Fora que os homens TAMBÉM sofrem um trote “pesado”, se quiserem obviamente.

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      1. Apenas uma coisa, sou de uma opinião de que o trote deveria ser abolido de qualquer instituição, com exceção do trote solidário. Lembrando que o trote é uma “tradição” que ganhou força na Alemanha do século XIX, no qual servia como um ritual de passagem. Acontece que assim como outrora, hoje, a função social do dito trote, é uma verdadeira demonstração da barbárie, o que evidente nas fotos acima.
        Esse fato perpassa a questão institucional, pois teoricamente quem deveria demonstrar as melhorias que a vida universitária produzem nos indivíduos, fazem o processo inverso, demonstrando que antes de qualquer coisa, falta empatia, cavalheirismo, inteligência, mas principalmente, falta EDUCAÇÃO!
        E sim, não acredito que esse tipo de interação seja interessante para nenhum dos lados, realmente se o trote se resumir a isso é uma experiência descartável, principalmente, para os ingressantes, que desse modo, evitam o contato com seres acéfalos, que sofreram, em algum momento, algum erro em seu processo fálico e agora tentam se auto afirmarem através de ações no mínimo estúpidas.
        Uma última coisa que não ia comentar, mas que não dá para passar em branco,
        achei muito inteligente, muito coerente, de um grande aprofundamento intelectual o comentário do sr. rafael jangrossi. Está de parabéns flipper!

        abraços!

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  2. O trote se transformou eu algo novo, de sentido que ainda precisa ser avaliado. Na minha concepção, o sentido do trote hoje em dia é o de humilhar, de rebaixar aquele que ainda não é veterano, de usar do sadismo puro para sentir um pouco de poder. Ah, o poder, a busca insana de todos os homens. Para mim, trote é apenas uma comemoração que se faz por terminar um ciclo e entrar em outro, ou seja, sair do colégio e ingressar à faculdade. Pensar do modo que esse sujeito acima descreve “se nao aguenta so nao ir no trote” é na verdade uma expressão da sociedade em que vivemos. Espera um minuto, temos mesmo de ser humilhados por sermos calouros? Não é questão de aguentar ou não, meu caro, mas sim questão de que não queremos e não devemos ser humilhados dessa forma. Isso é apenas mais uma permanência daquela sede de poder e daquela fraqueza tão presente no homem de hoje (e de ontem). Temos sempre que condenar atitudes abusivas e ridículas como essas. Já fui caloura e veterana, mas jamais aceitei qualquer tipo de humilhação ou imposição em ambos os papéis. Vamos rever nossas atitudes, revisionismos sempre foram fundamentais para alinhar os pensamentos humanos.

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  3. Fato é q ao final, todos se sentaram a mesa do MacFill. As garotas “humilhadas” conheceram a turmas veteranos, certamente a de joelhos beijou o cara de azul. E hj elas se sentem mto mais “na faculdade”. Esse tipode trote existe a 794 anos. Se nao tiver violência, abuso sexual e nada “obrigatório”, é divertido pra caralho, como sempre foi. Mas vivemos no novo mundo coxa. Já imitei cachorro, já contei quadra com palitinho fazendo conta de matemática no meio, já matei formiga a grito….cara, puta saudade dessa fase!!!

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  4. Na boa, eu entrei no Mack em 2006, não fui obrigada a fazer nada no meu trote… me pintaram, me levaram até a Usp na Rua Maranhão ( msm lugar onde foi tirada esta foto), gritei chupa FAU, tomei ovada, jogaram farinha, vinagre, e afins… como qualquer trote, chegou na hora da bebida falei q não podia beber e não me obrigaram a nada, nem a fazer o tradicional elefantinho… só fui pedir dinheiro no Pacaembu e tomar cerveja no Kenzie depois… teve gente q chegou caindo de bebado… pq quis… pelo jeito as coisas estão bem diferentes….

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  5. Gostei da sua teoria de síndrome do pequeno poder! Encaixa perfeitamente. Mas vale lembrar que o trote, se tornou um ritual de passagem. Muitos calouros aguardam ansiosos por esse dia, pois é socialmente a comprovação de que foram capazes de passar numa boa universidade e que agora eles pertencem a um grupo muito seleto da sociedade.
    Muitos pais estão em casa, aguardando ansiosos e orgulhosos, seus filhos de cara suja e roupa rasgada, pra tirar uma foto e eternizar o momento que seu filho realizou o sonho (do filho E dos pais) de entrar em uma universidade. è degradante e humilhante? sim! Mas eles não se sentem humilhados, desde que não os firam fisicamente.
    O trote solidário é uma excelente alternativa, mas é popular? Não! Não vale a pena participar, pois não os “insere” socialmente na instituição. Tal qual o médico gosta de andar de jaleco para anunciar seu território, o calouro gosta e espera pelo momento de andar careca, sujo e rasgado para também anunciar ao mundo que agora tem um lugar de pertencimento, que ele conquistou com seu esforço, muitas vezes depois de anos de cursinho. Pode-se pensar teoricamente em sociabilidade sincrética e contrato narcísico, pois ao entrar nesse grupo, indiferenciam-se ali, tornando uma grande massa e a insituição (veteranos), investe naquele indivíduo perpetuando seus valores (trote) e dessa forma, são valorizados.

    Você escreveu um excelente texto! Muito bom pra reflexão!

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  6. Rafael! Achei muitíssimo pertinente o tópico, gostei muito do texto. Acho que participar ou não do trote, não elimina a discussão do tópico, ao contrário de um ou outro comentário que vi aqui.

    Com relação a “humilhação” que é colocada a mulher nestas condições é uma contradição.
    Em tempos de Marcha das Vadias, vemos o retrocesso que é esses tratos intencionais de humilhação até num contexto que é “brincadeira”…

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      1. Se passei a impressão de que culpo as vítimas, digo desde já que isto está longe de minhas intenções. Gostaria de comentar esta questão que não apareceu somente aqui no blog, mas em outros lugares onde o texto foi compartilhado.
        Meu foco foi em cima da relação que se mantém entre “opressor” e “vítima”. Relação esta que nunca é unilateral, os dois colaboram.
        Acho até que faço o contrário de culpabilizá-las, coloco minha confiança em cima de suas atitudes para darem o primeiro passo e libertarem-se de tais situações. A responsabilidade ética vêm não da culpabilização mas na crença de que a possibilidade de libertação vem do próprio oprimido.
        A vítima não tem escolha, porque é uma criação abstrata puramente passiva. Se afirmo que não são vítimas, mas coniventes, aposto na potência individual de cada uma para conquistar sua própria liberdade, algo que jamais poderia dizer para uma vítima.

        Obrigado por lerem o texto e comentarem

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  7. COMPATIBILIZAÇÃO DA VÍTIMA²²²²²²²²²²²²²²²²²²²²²²²²²²²²
    “Se os opressores vão continuar a agir desta forma, cabe às vítimas (falso elo mais fraco da relação) a resistência, se negarem a estabelecer relações deste tipo.” Muito fácil falar isso do ponto de vista do opressor. Quero ver passar anos aprendendo a ser submissa e depois ter de agir com resistência. Não é bem assim que a vida funciona, amigo.

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  8. Preguiça desses homens que, além de oprimir mulheres diariamente, ainda por cima querem dizer como elas devem reagir a opressão. Isso é de uma arrogância tão grande, que não consigo nem expressar. Mansplaining, já ouviu falar? Dá uma googlada.

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    1. Nao entendi o texto como um analisis sexista, achei que falava sobre oprimidos e opresores. concordo com vc em que se trata de uma reproduçao das relaçoes previstas dentro da instituiçao.

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  9. Se já achei o texto ruinzinho, não queiram nem saber o que achei dos comentários! A cabeça desses mackenzistas é tão minusculamente pequena, que não conseguem interpretar minimamente uma situação e entender que as coisas não funcionam de maneira tão simples.

    Primeiro que tentar justificar esse “rito de passagem” dizendo que é “tradição”, não quer dizer porcaria nenhuma! Era tradição também sacrificar humanos em ritos antigos, sabe, mas isso não quer dizer que era uma boa ideia.

    No fundo, no fundo, o trote é apenas uma forma da universidade manter as relações de poder do nosso sistema: o calouro é “bixo” e deve estar submisso aos seus “veteranos”, que são seus superiores. E como nós tratamos os nossos superiores? Ah, sim, com respeito e submissão. E se nossos superiores nos humilharem? Tudo bem, porque eles são nossos superiores.

    “Ah, mas o trote é só uma brincadeirinha boba e inofensiva” – Claro, claro, agora pode ir assistir seu Pânico na TV e Domingo Legal que tenho medo de fritar seu cérebro se você continuar lendo muito.

    Sinto muito por destruir essa visão infantil de vocês, universitários burrinhos, mas trote não é uma “tradição bonita e divertida” em que os “calouros fazem amizade com seus veteranos”. Há milhares de formas de integração que não envolvem humilhação, sabia? Trote é um reflexo das nossas relações de poder, e tudo o que vocês estão fazendo é perpetuá-las. Exatamente o contrário do que deveria ser o intuito de se estar numa universidade: estudar e transformar o sistema. (Ai, se eu tivesse passado na USP >:)

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  10. muito bom este texto, faço ESALQ-USP, conhecida por um dos piores trotes do Brasil…
    a relação de poder q acontece no trote é reproduzida pela própria universidade e como vc bem disse, acontece fora dela tbm

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