Uma pergunta aflige a todos nós amantes das artes. Já pronunciamos uma, duas, três vezes os seus questionamentos. Já bradamos uma, duas, três estratégias na tentativa de combatê-la. Mas ela persiste: “Como sustentar a noção de belo?”. Parece simples, entretanto, é muito raro encontrar bons argumentos para justificar um gosto, mais difícil ainda é justificar porque uma obra é melhor do que outra. Será possível proceder neste campo obscuro que é o do juízo estético?

Ao menor dos estímulos, nosso bom senso reage aos berros: “É uma questão de gosto! Gosto não se discute!”. Claro que é. Mas se o gosto é o único critério do valor, quem em sã consciência admitiria a excelência do último hit, embalado para consumo, sobre a obra prima da tradição? Parece que em alguns momentos gosto não se discute mesmo! Afinal, temos medo de admitir que não temos boas justificativas para sustentar nossa posição. Não sei dizer por que prefiro o Led Zeppelin ao Michel Teló. Que problema!

Geralmente, nos deparamos com argumentos do tipo “Mas nesta música há melodia, harmonia, arranjo!”. Bom, ambas têm. São maneiras diferentes de se lidar com as notas, simplesmente. Às vezes, este mesmo argumento nos aparece de uma maneira mais técnica: “Você gosta disto porque não conhece harmonia, não sabe que isto é simples e bobo”. Estranho, não aprendi em harmonia que as cadências simples são feias e que as complexas são belas, pelo contrário, aprendi muitos truques para valorizar o simples e fazer o complexo soar fácil.

Fato é que o relativismo de valores é inevitável. Não devemos tentar combatê-lo. É ele que garante a criação, é ele que proporciona, em última análise, a estética. Se houvesse um panteão das boas maneiras de se compor, o que restaria a nós reles mortais? Reproduzir mecanicamente o belo que desce dos céus? Não, obrigado. O valor estético é sim uma questão pessoal, pois o contrário não é possível. Não há valor absoluto. O acorde meio diminuto com décima primeira é tão relativo quanto o vermelho-escarlate que compõe o quadro. A questão é: o que se faz com ele? Ou melhor, o que eu faço com ele?

Por outro lado, estou longe do ponto de admitir a equivalência entre Romero Britto e Pablo Picasso. Sei que minha busca não deverá se basear na refuta dos maus valores e na defesa dos bons valores dados, mas sim naquilo que me dá boas justificativas para preferir determinados objetos artísticos a outros. O que de fato se apresenta como possibilidade de valor para mim? Se eu encontrar estas justificativas, é natural que elas se coloquem também para outras pessoas.  Pensamentos não se restringem apenas ao campo pessoal. Se forem coerentes, eles o extrapolam. Quando comunicados, eles criam uma fissura, instauram outra realidade.

Com esta busca em mente, escrevi algumas propostas (a do espanto e a do encontro), que são, antes de tudo, exercícios em que a atividade do apreciador, enquanto criador do valor, determina o alcance de experiência. Através deste texto, venho sugerir mais uma possibilidade de juízo.

A obra feita e acabada se mostra a nós totalmente aberta e estabelece um diálogo em que tenta nos seduzir. Assim como a sereia encanta o pescador para arrastá-lo ao fundo do mar, a bela obra quer nos devorar. Proponho que mergulhemos! A obra será boa na mesma proporção de sua profundidade e a experiência será muito mais proveitosa se nos perdermos nessa realidade submersa. Minha identidade se perde, tão melhor! O retrato que observava agora sou eu, o compasso agora é meu tempo, os talhos no mármore agora são minhas marcas. Uma boa justificativa se esboça: gosto porque me é intenso e me perco em seus caminhos.

Nesta possibilidade, não estão isentos nem obra nem apreciador. Se a obra me inspira a investigá-la, deve possuir algum valor que se apresente na forma de profundidade: “Há neste ponto algo que não compreendo e que me fascina”. Se a obra, como um mar aberto, não sai da linha do horizonte cabe àquele que a aprecia subir no mais alto dos rochedos para buscar nela o relevo de suas densidades.

O mais potente dos homens, aquele que transborda criação, precisa de um estímulo mínimo desta obra, pois encontra nela todos e tantos outros significados dentre os quais se perder. Imagine então o que ele não faz com uma obra prima?

Dorival Caymmi
Dorival na Bahia em frente a Lagoa do Abaeté (1979)

Dorival Caymmi
O mar
Canções Praieiras (1954)

Escuta Ativa —

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

5 comentários

  1. Li, os três textos, interessantíssima discussão esta do “gosto não se discute”. Ainda mais para um país com uma cultura histórica tão rica sendo destruída pela fast-food do entretenimento que me recuso a chamar de arte. Existe um abismo entre o que é arte e o que não é arte e este abismo não pode ser negado, ou melhor, se é para falar de metáforas, imagine um homem parado de frente a um abismo. Ele olha a sua volta e tudo é conhecido, tudo está regido por leis que ele conhece, menos, o abismo. Por mais calmo que seja o conforto a sua volta (de saber ou supor que o que vê é exatamente o que pensa) o abismo o chama, o convida a pular. O que existirá lá? Irei bater minha cabeça e me estatelar no chão? Irei chegar a um outro lugar semelhante ao que vejo a minha volta? Irei, talvez, descobrir algo de novo? Esta diferença, entre o mundo que nos é conhecido e o que não é, me parece traduzir de forma satisfatória, esse é arte ou não é arte.
    Mas isso não serve de nada para a questão inicial, do “gosto” e não “gosto”.
    Michael Sanders, jurista e filósofo americano, no seu curso de Ética e Justiça na Universidade de Harvard, conversando com uma imensa platéia, lhes pergunta mais ou menos assim:

    O que vocês prefeririam fazer agora, estudar as obras de Shakespeare, assistir um episódio dos Simpsons, ou um reality show.

    Três ou quatro pessoas escolheram Shakespeare.

    Porém ao lhes perguntar a mesma coisa, só que na perspectiva de qual deles tem o maior valor cultural. O que aconteceu?

    A plateia se dividiu, muitos escolheram Shakespeare.

    Incrível não? Porque existe essa diferença?

    Então ele questionou aqueles que escolheram para o momento os simpsons, mas definiram como sendo de maior valor humano Shakespeare. Por quê?

    O aluno assim respondeu: Se tivesse que passar o resto da minha vida escolhendo um dos três vídeos vistos, não gostaria de passar assistindo Simpsons ou o outro. Acho que teria mais prazer sendo capaz de refletir sobre Shakespeare considerando prazeres e pensamentos mais profundos.

    Ao que (como a aula está discutindo principalmente utilitarismo) Sanders explica que no pensamento de John Stuart Mill, prazeres de maior valor, realmente requerem cultivo, apreciação e educação. E isto acarretará que uma vez que experimentem os prazeres de maior valor, não só irão admitir o valor das coisas que precisaram se esforçar para sentir e entender. Como também irão preferi-las ao prazer intenso porém menos profundo.

    ” É melhor ser um ser humano insatisfeito que um porco satisfeito. Melhor ser Sócrates insatisfeito, que um tolo satisfeito. E se o tolo ou o porco são de opiniões diferentes é porque só conhecem seu lado da questão”. – John Stuart Mill

    Os caminhos para se partir desses apontamentos, são inúmeros, como por exemplo, a vida de prazeres de Epicuro, entre outros. Entretanto é visível a possibilidade de uma distinção simples. É possível e tangível, que deve ser observado. Não aceitar ou aceitar sem reflexão é religião. Aceitar tudo sem reflexão é o princípio do politicamente correto. Aceitar e não aceitar, baseando nossos conceitos em reflexão e experimento. Talvez possa ser o caminho.

    Gostar de rock ou blues? Mahler ou Beethoven? Charles Bukowski ou Phillip Roth? Milan Kundera ou Kafka? Gostar… o homem tem uma fauna riquíssima de anseios de diversidades. Por isso é que deveríamos mergulhar no abismo, para experimenta-las, todas, há tanto, existe tanto… e talvez um dia, num bar ou café, discutamos estes gostos calorosamente:

    – Vinicius de Moraes tocou a mais profunda essência humana, a paixão.

    – Rubem Fonseca, realmente entendeu do amor. Aquele pedaço de merda que salvou o casamento lembra? Aquilo é a melhor metáfora sobre o assunto.

    – O amor restou inútil.

    E assim por diante.

    De certa, isso será como entrar no abismo.

    Curtir

    1. Isso ai!

      Acho que esse Abismo é mais difícil de ser sustentado conceitualmente do que parece, daí a seriedade na abordagem desta questão. Uma vez assumida a inexistência de qualquer valor em si, a estética clássica fica problematizada e novas sustentações ao belo são necessárias, agora no campo do subjetivo. A questão deste texto é: existe diferença no objeto? É bem difícil de responder.

      Muito obrigado pelo acréscimo,
      Um abraço!

      Curtir

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s