Antes de falar desta magnífica obra prima de Kleber Mendonça Filho, cabe uma reflexão a respeito do cinema brasileiro: até quando? Até quando haverá preconceito com o cinema brasileiro? Como mudar essa idéia da grande massa, que o cinema nacional resume-se a comédias (algumas até de bom gosto), ou filmes estrelados por atores globais? Cabe aqui um pedido: assistam a este filme e repensem os “aclamados” filmes que concorreram ao Oscar em 2012. Para Caetano Veloso, O Som ao Redor (2012) “(…)  é um dos melhores filmes brasileiros de sempre. É um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo” (Jornal O Globo).

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Uma rua de classe média alta na zona sul da cidade do Recife tem sua rotina mudada pela oferta de segurança privada na rua, para evitar os assaltos que estavam acontecendo madrugada adentro. Alguns aprovam, outros não, mas para que os seguranças trabalhem, eles têm que pedir autorização para Francisco (W.J. Solha) o dono de alguns imóveis ali daquela rua. Aí, o diretor nos mostra o quanto aquela sociedade é pautada num sistema feudal. Se torna impressionante, através da atuação de como o personagem de W.J. Solha é apresentado, como ele vira um coronel, em pleno século XXI. O dono da terra. Isso é reforçado quando o casal principal do filme vai visitar a fazenda, e através dos sons (que é sem dúvida um personagem à parte no filme) retomam a memória do coronelismo da fazenda, na qual haviam escravos sendo torturados, e cinema à moda antiga.

Apesar da segurança privada se estabelecer na rua, o filme mostra o quão presos estamos às nossas próprias proteções. Mendonça evidencia isso filmando em todas as cenas internas (interiores de casas, apartamentos, prédios, etc) as janelas ou portas com grades. Na vontade de nos proteger da violência típica das metrópoles brasileiras, nos cercamos e vivemos em prisões domiciliares. Onde há paz na cidade?

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Esta é apenas uma das diversas discussões e reflexões que o filme traz. Outra cena, que as vezes passa despercebida, mas vale ser levantada aqui, é quando uma mulher de classe média sai da sua sessão de acupuntura falando ao celular e maltrata uns dos seguranças que guarda os carros na porta da clínica. Se sentindo humilhado pela madame, o guardador de carros arranha o carro da mulher sem ela perceber. Ora, nossa classe média preocupada consigo e com seu bem estar, mal consegue alcançar o próximo e se educar. E o guardador, se sentindo humilhado, para atingir a mulher arranha o carro da mesma. Interessante pensar nisto: nossos bens são nossos maiores valores e as vezes atingí-los fere-nos mais do que se fosse acertar nosso próprio corpo.

O filme é cheio de detalhes, coisas não bem explicadas, e metáforas, muitas metáforas com as imagens e com o som. Kleber Mendonça fez um filme apaixonante que pode (e deve) ser visto e revisto ao menos uma vez ao ano. Aborda diversos temas numa crônica urbana que narra todos nossos hábitos – que para nós passam desapercebidos – e todas nossas mesquinhices.

Há um “núcleo” do filme (que na verdade é praticamente importado – com algumas adaptações – do curta “Eletrodomésticas”, do próprio diretor) que conta a história de uma típica família de classe média, comandada pela mãe Bia (Maeve Jinkings) que vive diariamente tendo que ouvir o latido do cão do vizinho e incomodada, faz algumas coisas para o calar. Bia fuma maconha, transa com a máquina de lavar, briga com tapas com a vizinha por conta de quem tem a TV maior e ainda cuida de dois filhos (ou é cuidada por eles). É uma personagem insatisfeita e que busca, de diversas maneiras, ter sua paz e seu prazer. Bia é o retrato metafórico (em alguns casos não tão metafórico assim) da dona de casa brasileira.

Para quem tem preguiça de acompanhar um filme europeu, pois o considera muito parado e está acostumado com os blockbusters norte-americanos, podem ficar despreocupados. Por mais que tenha um “ar de Europeu” (e está sendo vendido em grandes capitais européias), o espectador acostumado com filmes mais rápidos e sem espaço para reflexões, não vai ver as 2h10 de filme passarem. Ele entretêm, provoca, invoca, desconcerta, assusta e diverte. É o filme que te faz ficar 10 minutos sentados depois do seu término, tentando entender, juntar as pontas, refletir sobre tudo o que viu. O filme é uma experiência aos sentidos. Kleber Mendonça Filho nos presenteia e prova que o cinema brasileiro é de boa qualidade.

Em 2012, o crítico A.O. Scott do jornal The New York Times colocou o filme brasileiro (e único latino-americano da lista) entre os 10 melhores filmes do ano, ao lado de Amour (Michael Haneke), Djando Livre (Quentin Tarantino) e Lincoln (Steve Spielberg). Não estamos de falando de qualquer filme.

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

1 comentário

  1. Um ótimo texto, Vinicius!!
    O filme é muuuito interessante…..a cena da cachoeira e a cena do sonho da meninas são tão significativas.
    Tomara que muitas pessoas apreciem esta obra! =)

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