Falar de um filme é uma tarefa difícil, ainda mais quando é um filme conhecido, relativamente antigo e sobre o qual muitas resenhas já foram feitas. tentando dar mais um movimento ao ganhador do Oscar de melhor filme em 1992 quis brincar de ser Hannibal Lecter, E resolvi fazer um anagrama do título do filme The Silence of The Lambs (1991), cuja tradução para o português foi O silêncio dos inocentes. Por mais que o título brasileiro faça sentido, entendê-lo em inglês é fundamental para compreender o filme. Para isso, fiz o anagrama na tentativa de entender a história por analogias – como ocorre conosco quando assistimos ao filme.

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Antes de falar do filme – ou já falando do filme – falaremos de Hamlet. O príncipe da Dinamarca vive assombrado pelo fantasma de seu pai, o qual insiste em lhe dizer que foi assassinado pelo próprio irmão – que agora, além de ocupar seu lugar de Rei, dorme com sua mulher. Hamlet planeja durante toda a peça uma vingança em nome de seu pai. Esta obsessão do príncipe da Dinamarca representa a transformação de uma fragilidade (heel, calcanhar) em força (fist, punho) para resolver uma situação no mínimo delicada e repleta de traumas do passado ali implícitos.

Clarice Starling (Jodie Foster) não está muito distante do drama shakespeariano. Ser o punho de Hamlet no calcanhar. Usar sua fragilidade como força propulsora para lutar. É com isso que a agente do FBI – inteligente, delicada, sensível e atraente – conta para desvendar a identidade de um emergente serial killer norte-americano: Buffalo Bill. A pedido do chefe do departamento Jack Crawford, a agente Starling começa sua investigação interrogando o famoso psiquiatra canibal Hannibal Lecter (com a arrepiante interpretação que rendeu o Oscar de melhor ator a Anthony Hopkins), a fim de entender a mente de um serial kiiler, bem como coletar pistas da possível identidade deste assassino.

Mesmo estando quase todo o tempo dentro de uma cela, Hannibal brinca e seduz Starling. É na cumplicidade dos dois personagens – e na incrível sintonia entre Foster Hopking – que o filme se apoia para desenrolar-se. Estabelece-se um jogo entre Hannibal e Starling: ele a ajuda na medida em que ela conta sobre sua vida.  Quid pro quo. Neste sentido, podemos buscar algumas similaridades entre Starling, Buffalo Bill e Hamlet.

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Starling perdeu a mãe ao nascer, viveu com o pai policial até perto dos 11 anos, quando este foi assassinado. Órfã, foi morar num sítio com os tios e numa noite ouviu cordeiros (lambs) chorando muito. Ela não aguentava viver lá, resolve fugir, e ao se deparar mais uma vez com os cordeiros chorando tenta acalmá-los, silenciá-los (daí o título do filme). Como eles continuam a chorar e sofrer, ela decide levar um deles com ela, porém, sendo o animal pesado, ela é obrigada a abandoná-lo e continuar sozinha. Starling assume para Hannibal que ainda hoje ao dormir sonha e ouve os lambs chorando. A culpa de ter deixado os cordeiros sofrendo a acompanha até hoje e silenciá-los significa fazer o que ela não fez antes: aliviar o sofrimento de outrém, aliviando o seu próprio. Por isso Starling quer tanto encontrar o serial killer que mantém em cativeiro a filha da Senadora. Ela precisa salvar este cordeiro para se redimir da culpa de não ter conseguido salvar cordeiro de antes e, quem sabe assim, nunca mais os ouviria chorar em seus sonhos. Be Hamlet’s fist on heel.

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Buffalo Bill é um homem. Queria ser uma mulher. Sequestra mulheres um pouco acima do peso e as mantém em cativeiro por alguns dias para cortar sua pele e criar um novo corpo para si. O casulo de mariposa encontrado na garganta de uma de suas vítimas revela esta vontade. A mariposa vive presa num casulo e, para sair dele e ser livre para voar, deve romper uma casca dez vezes mais resistente que sua força consegue dispor. Libertar-se de si mesmo: este é o dilema de Buffalo Bill.

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Hannibal fornece a pista que permite Starling iniciar seu caso: só cobiçamos aquilo que vemos todos os dias. Esta pista liga Starling à primeira vítima e a faz entender todo o pensamento do assassino. Por quê? Está muito relacionado com ela mesma. Não apenas à cobiça dela em solucionar o caso, que ela vê todo dia – nem somente com a cobiça de Hamlet em se vingar do tio, a pedido do fantasma do pai que ele vê quase sempre. Mas todos, Starling, Buffalo Bill e Hamlet, lutam contra algo maior do que eles: algo do passado. E é isto que os faz prosseguir. É a ambição de “salvar um cordeiro” e reparar o passado que faz Starling chegar a Buffalo Bill que quer também reparar o passado, o seu nascer, sua sexualidade, seu ser. E Hamlet? Não quer consertar o passado matando o tio? O quão psicanalítico e quão real é esta ideia de que vivemos a cobiça de refazer o passado?

No anagrama ficou sobrando uma letra que há no título original do filme: CCovet. Nas palavras de Hannibal: “We begin by coveting what we see every day“. Não discordo, mas questiono: será o reflexo do passado o que vemos todos os dias?

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“Há mais coisas entre o céu e a Terra que supõe nossa vã filosofia.” Hamlet

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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