Não é a morte nosso mais tátil surrealismo? O filme Hanami – Cerejeiras em Flor (2008) é um tratado poético sobre a ressignificação da morte e do amor. Ou do amor e da morte. Afinal não é o amor nosso mais tátil surrealismo? Esta resenha tentará – articulando texto e imagem – transpor as experiências do filme para quadros surrealistas. De um surrealista em especial: Salvador Dali. Convido-os para, a cada frase do parágrafo, apreciar o quadro acima dele. O filme tem uma narrativa extensa, com uma trama complexa que transita no tempo e espaço e na subjetividade de diversos personagens. Mas Trudi e Rudi – um simpático casal no fim da vida – são os personagens centrais e condutores desta história. Trudi descobre no começo no filme que seu marido Rudi está com uma doença terminal. Ela inicia uma silenciosa jornada fazendo dos últimos dias de vida dele algo fora de sua rotina. Rotina esta que é preciosa para Rudi. Ele trabalha com reciclagem de lixo, mas é incapaz de reciclar seus hábitos. Ela prepara seu lanche diário e junto põe uma maçã, ele diz “uma maçã por dia, a ida ao médico adia”, mas nunca come a maçã e a entrega sempre ao colega de trabalho. Ora, além da óbvia associação de que ele não come a maçã e adoece, podemos pensar nela como o símbolo do fruto proibido e a esquiva do personagem em devorá-lo, é a fuga de viver a vida, e não a rotina.

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O que nos forma enquanto seres em vida é tudo aquilo que nos forma enquanto seres em morte. Tudo o que de nós perde cor no fim da dança, é o que nos caracteriza como vivos. Nossas relações, nossas manias, nossos medos, anseios, tristezas, alegrias, nossos suores e nossos desprezos. Nos dá vida: e só há morte por que isso tudo um dia se dispersa. As viagens que Trudi e Rudi fazem, para aproveitar – ainda que ele não saiba disso – os últimos dias de vida de Rudi só nos mostra o quão somos definidos e limitados pelo encontro com o outro. É o outro que nos faz navegar ou ancorar. Visitando os filhos em Berlim, Trudi insiste em assistir à apresentação de um famoso dançarino de Butô. É o sonho dela ser dançarina deste bailar japonês, e o encontro dela com o dançarino nos deixa com a sensação de que nos escondemos debaixo de vestimentas para viver em sociedade e que por baixo destas roupas existe um eu: instinto, criança e animal.

Dançar a vida nos parece não caminhá-la. Mas quer navegar mais preciso que dançar? Quer seguir mais preciso que bailar? Rudi – personagem do filme – está tão ancorado em sua vida, que por mais que a proa aponte em alguma direção e as velas se estendam para ser berço d’onde o vento possa aflorar, ele não navega. Não controla suas escolhas e apenas segue os caminhos que sua mulher Trudi indica. Como um pato, seguindo sua família (metáfora utilizada no filme). Não se entrega. Viver não é seguir, nem apenas navegar: é dançar. Por que se pode simular que se segue ou fingir que se navega. Mas quem dança não é capaz de não seguir nem navegar. Dançar não se pretende, entende. E o que nos faz querer dançar? A morte: o mar.

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Surpreendido fica o espectador quando, após um sonho de dançar ao encontro de uma dançarina de butô, seguido do rebento do mar, Trudi (a mulher) morre. O convite para dançar a morte é uma ordem ao nascer. Rudi vai morar no Japão com o filho distante, realizar o sonho da então ex-mulher: dançar Butô em frente ao Monte Fuji. As diversidades culturais, dificuldades com o filho e a incompreensão da língua são algumas, das muitas, coisas que travariam Rudi – que nunca se jogou na vida. Como pode alguém que nunca viveu, ser convidado a reviver a partir da morte de quem mais amou? Pois este é o desafio de Rudi, que encontra como saída vestir-se com as roupas da falecida e sair apresentando a ela o Japão. Num desses encontros – Rudi, roupas de Trudi, Japão – ele se depara com Cerejeiras em Flor: o símbolo da temporalidade. Estão aqui um dia e depois se vão, nos mostrando a brevidade da vida e dos momentos. Não nascemos então do ventre do outro, mas das nossas próprias amálgamas. O ventre do outro nos dá luz no primeiro nascimento, mas nascemos de novo quando o vento do outro a luz nos dá.  Rudi nasce quando sua mulher morre e só morre quando ela nasce de novo em seu corpo.

O filme questiona: o que mantêm vivo quem já morreu? Nossos panos de cobrir o nú; o vazio que nosso corpo traz na cama de um casal; o aroma do nosso corpo circulando pelos cômodos; as manias que carregamos, ainda presa nos detalhes; o hábito do outro em pedir para nós um favor sequer. Só há morte quando há ausência disso tudo. Ainda que reste no outro sombras que deixamos nesta dança… há vida. Portanto, viver depende do outro, pois é este que nos avisa que já morremos. O outro vive nossa morte, enquanto nós apenas paramos de dançar. E se o viver é dançar, e para viver precisamos de outrém, não há nada mais justo que pensar que mesmo sozinhos, dançamos para uma platéia. Nem que a platéia seja projeção de nós mesmos no solo desmemoriado.

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Butô. A dança da sombra. Ela – desconhecida por mim – dança. Todo ser vivo e ser morto tem sombra. É o que nos une. Nos torna comum. Nos marca na Terra. Dilatar o corpo – isto é: abrir os poros – dançando nos permite vazar – isto é: ser partitura. Para dançar com a sombra precisa-se de luz: no escuro ninguém dança. É brincar com os paradoxos, num jogo de cumplicidade que se constitui nos encontros que temos na vida. Rudi, só aceita a morte de sua mulher Trudi, quando se veste com as roupas de sua falecida mulher e dança para o Monte Fuji. Corpo – alma – dança. A sinfonia da vida tocada pela morte.

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Todo mundo pode dançar Butô. Todos nós temos sombra. Isto é um convite. Não é a dança nosso mais tátil surrealismo?

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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