Sofia Coppola acertou num erro. Despiu o que uma juventude luta em mascarar. E o melhor, ela co-roteirizou e dirigiu Bling Ring (2013) voltando para um público jovem e mimado. O filme não é bem visto por muitos – que se identificam e negam? Mas não há como negar que a filha de um dos mais renomados nomes do cinema, Francis Ford Coppola, transfigurou o inútil em útil. Com episódios simples – assalto à casa, exibição da conquista, comemoração com drogas e festas, planejamento do próximo assalto (não necessariamente nestas ordens) – ela repete a estrutura destes acontecimentos por quase 95 minutos e não cansa o espectador: o suspende; prende; provoca; enerva e – como vejo a maioria dos jovens colegas que também assistiram ao filme – incomoda.

O que a “Gangue de Hollywood” tem em comum com a geração facebook, além de invadir a vida alheia? A incrível capacidade de se olhar no espelho e ser incapaz de se ver.

René Margritte, Not to be reproduced, 1937
René Margritte, Not to be reproduced, 1937.

O essencial é invisível ao olhos e completamente visível às lentes das câmeras de celulares. Tanto o é, que se tornou incolor, inodora e insípido fotografar exibir ao mundo (se possível) tudo o que vemos, pensamos, possuímos e opinamos. Para as ferramentas de “rede social” tanto faz o que venha de si, o importante é que venha e que se compartilhe. Os cinco amigos que compõe a gangue precisam, quase que viciosamente, ter aquilo que um famoso tem. Não só ter, mas mostrar que se tem. É preciso mostrar ao mundo, o que não podemos mostrar a nós mesmos. A triste incoerência é de tamanha perversidade, que nos enganam com a satisfação ilusória de que estamos sendo preenchidos com algo.

Uma das cenas mais intensas do filme – e intensa por conta da sua simplicidade técnica – e quando apenas dois amigos entram numa casa. A câmera mostra a casa ao longe, e o espectador pode osbervar o ascender e apagar das luzes e o caminhar dos dois colegas como se fossem dois bonecos. É impressionante como o simples – e discreto – movimento de fechar o plano enquanto observamos a ação dos dois amigos e ouvimos alguns grilos e o vento passando nas folhas, nos causa uma angústia tremenda. É como se este silêncio e este vouyerismo nos responsabilizasse por tudo o que está acontecendo. O silêncio é bem explorado pela diretora neste filme e se torna crucial em alguns momentos. Porém, como esperado de Sofia, a trilha sonora do filme te coloca em Hollywood: as músicas tocadas nas baladas nos dá sensações próximas as que os personagens estão sentindo naquele momento.

Nós nos enganamos e nos preenchemos de vazios. Nós produzimos futilidades, divulgamos futilidades, achamos que se tratam de utilidades, tornamos o fútil em útil, e nós, eu digo nós, sorrimos com gratidão por nos sentirmos mais gente com aplausos sem som do nosso semelhante. Um dia, o julgamento. Sem delongas, Coppola mostrou o que de fato nos ocorre. Os jovens preocupavam-se mais como vão aparecer na televisão do que o motivo que os leva estar ali. Entrem no tribunal para julgamento. Sentam. A porta fecha. O martelo bate. A porta abre. Todos condenados. E o que importa? Eles estarão sempre presos ao vícios e futilidades, e a população esquece em poucos meses. A personagem de Emma Watson termina o filme dando uma entrevista contando como é dividir a cela com Lindsay Lohan, uma das vítimas de seus roubos. A sociedade se cega para aceitar que os ídolos desta geração calam a esperança.

Os pais que educam estão deitados nos sofás, preocupados com o trabalho, com a estética e o bem-estar de se possível para todo mundo. No filme, a mãe que pretende educar as próprias filhas – ao invés de colocá-las em escolas – reproduz seus pensamentos fúteis embasados em nada com proposição de chegar a lugar nenhum. Moralizam, dão uma filosofia e uma religiosidade que serve para nos proteger dos nossos pecados e só julgarmos o dos outros.

O filme: cinco amigos roubam a casa de um famoso, usam as coisas do famoso, tiram fotos e publicam em redes sociais, vão para a balada comemorar, se entopem de drogas, se divertem sempre com um celular na mão, divulgam ao mundo o que fazem no dia de hoje e… repetem tudo amanhã.

O filme: baseado em fatos reais.

René Magritte
René Magritte, La condition humaine, 1933.

A vida: cinco amigos adoram um famoso, fingem ser um famoso, tiram foto e publicam em redes sociais, vão para a balada comemorar, se entopem de drogas, se divertem sempre com um celular na mão, divulgam ao mundo o que fazem no dia de hoje e… repetem tudo amanhã.

A vida: é baseada num filme.

E se a vida não fosse vivida assim? E se não tivéssemos o outro para nos olhar? E se não tivéssemos uma multidão para virtualmente nos aplaudir? E se cada fotografia fosse apenas uma lembrança? Se só pudéssemos registrar com os sentidos do corpo e divulgar com os sentidos do corpo… Onde está o humano na juventude?

René Magritte, O beijo dos amantes, 1928
René Magritte, O beijo dos amantes, 1928.

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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