Hannah Arendt foi a aluna preferida do filósofo alemão Martin Heidegger. Tendo ela sido a primeira pessoa a escrever sobre o Terceiro Reich com a publicação de “As origens do totalitarismo” (1951) e sendo este o primeiro tratado a respeito do tema na sociedade ocidental, podemos entender que a polêmica autora seleciona seus leitores. O filme – Hannah Arendt (2013) – assim como os livros, seleciona seus espectadores. Não é fácil assistir ao filme, mas a grande dificuldade é terminar o filme e fazer qualquer outra coisa que não… pensar. Não sei se escrevo sobre o filme, ou se escrevo sobre Hannah. Não sei ainda se escrevo sobre quem Hannah parece ser no filme, ou sobre o que o filme parece ser em Hannah. Reflito, apenas. E como diria Hannah “Como poderei refletir sem um carinho?”

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Trata-se de um filme ágil em palavras e pensamentos, o que faz o espectador ter atenção ao que é dito e ao que não é dito. Muitas frases nos pegam na curva e nos fazem querer divagar sobre elas, mas, não tendo muito tempo para isso, somos carregados rapidamente aos próximos diálogos e relações que o filme exibeRe. O filme começa com um caminhão vindo em direção ao espectador. Não precisamos de efeito 3D. Basta uma música – muito bem composta – e uma câmera estática, esperando o caminhão que vem em sua direção com o farol alto. Isso basta para nos pôr no tom que o filme pede: suspense. Não que se trate de um filme de suspense como estamos acostumados a ver, mas o filme pede que o espectador suspenda algumas coisas de si. O filme – que é formado em grande parte por cenas internas – possui uma iluminação peculiar. A luz que entra pelas janelas é sempre muito intensa e é ela que dá a silhueta aos personagens e por vezes incomoda o espectador. Logo percebemos que não é à toa a mistura de suspense com luz externa intensa em nossa direção, eles nos convidam a ver o filme com outros olhos, ou se preferirem, suspender nossos preceitos. O filme, que tem tom naturalista, por horas não nos parece muito natural. Seria similar à filosofia?

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O enredo do filme é simples: nossa protagonista Hannah é uma filosofa política alemã de origem judaica que se propõe a escrever para uma revista Nova Iorquina sobre o julgamento do nazista Eichmann – uma vez que ela sempre se debruçou ao estudo do nazismo. Sendo aceita a proposta, Hannah acompanha o julgamento do nazista responsável por organizar os vagões que levavam os judeus às câmaras de gás. Após um tempo em Jerusalém acompanhando tal processo, nossa personagem volta à Nova Iorque e escreve seu artigo para a revista. Um novo conflito se inicia: Hannah, que era vista como uma referência na filosofia política, assume o papel de Eichmann e passa a ser julgada por todos, uma vez que ela, em seu artigo, transfere parte da “culpa” aos líderes judeus pelo massacre dos 6 milhões.

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As opiniões em relação ao seu artigo e a ela mesma, se dividem em: corajosa; apaixonada pelo seu mestre Heidegger (que talvez  apoiasse o nazismo); revolucionária; puta nazista… Das definições, a que talvez mais me fez pensar – e daí o título da resenha – é que Hannah é toda arrogância, nenhum sentimento. Definições que os personagens trazem na ânsia de declarar a filosofia como uma masturbação mental que tira o filósofo da vida concreta e o põe num limbo pensante que não vive, não sente e portanto torna-se arrogante dizer sobre a vida aqui embaixo. O gabinete de Hannah onde ela e sua secretária organizam papéis e onde ela também escreve; bem como sua sala e outros cômodos da casa que são palcos de discussões filosóficas entre ela e outros amigos são sempre fortemente iluminados de maneira que mal enxergamos a cidade fora do apartamento – o que reforça a idéia de que a filosofia vive em outro plano, não este. Eis a contradição: Hannah em seu gabinete ou deitada em seu divã com um cigarro, pensando sobre o totalitarismo (mais especificamente em Eichmann) nos parece como se ela estivesse em outro lugar que não aqui. Quando Hannah “vem para vida” e tira do gabinete para a boca dos leitores de filosofia o que viu e pensou sobre o que vivenciou no totalitarismo, ela é mal compreendida. Claro, pois ela corajosamente nos dá um outro lado da história que não era o esperado… E talvez aí esteja a maior masturbação mental da filosofia: em quem a lê. Talvez alguns pensadores (e não somente os filósofos) criam um mundo paralelo a este e fiquem por lá pensando no aqui. E quando alguém Hannah traz a filosofia para a corpo vida, algo soa estranho e surgem os ataques. Pois fica claro que a filosofia de Hannah Arendt não se dá apenas em seu gabinete, mas na sua vida, em suas relações com os alunos, marido, ídolos e inimigos. A filosofia por ela proposta seria então de nenhuma arrogância e todo sentimento.

Tantas coisas são ditas sobre Hannah, que não me cabe mensurar. A diretora Margarethe von Trotta coloca a personagem numa curva: começa como heroína, há uma queda, mas logo em seguida Hannah triunfa e termina o filme defendendo seu ponto de vista no já conhecido “o retorno do herói”. Muito além de uma personagem, está o “pensar” como personagem secundário à própria Hannah que lhe acompanha em sua curva dramática: da razão pela razão, ao destruir a razão que não dialoga com a vida e o surgimento da razão afetuosa. Ora, referir-se à Hannah como Toda arrogância, nenhum sentimento, é nada mais que falar de si, é falar de leitores críticos do mundo que se tornam arrogantes ao deter o saber e esquecem que a filosofia é a amizade com o saber. E por amizade, lemos sentimento. Quer metáfora melhor (ainda que apoiada na realidade) da relação amorosa de Hannah com Heidegger? É unir razão e paixão…

Não… Hannah Arendt não foi corajosa ao colocar em xeque a postura dos líderes judeus no período nazista; nem se tornou corajosa por manter e defender seus pensamentos… Hannah simplesmente abriu suas janelas para que a luz pudesse entrar: Paixão. É a paixão e não a coragem que faz as reflexões que a filosofia propõe se conectarem com o mundo.

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“Existem certas coisas que são mais fortes que um único indivíduo.”

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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