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Da literatura às telas. O filme O nome da Rosa (1986) do diretor Jean-Jacques Annaud conta a história do livro homônimo que tornou conhecido o escritor italiano Umberto Eco (1980). Não é daqueles filmes que te deixam mais quinze minutos após seu término sentado na cadeira pensando sobre a obra. Ao contrário, te deixa cento e trinta minutos se movendo inquieto na cadeira. O diretor nos convida a conviver por dias com William (Sean Connery) e seu noviço Adso (Christian Slater) num intrigante mosteiro, que é palco de misteriosas mortes. Como grande parte dos bons filmes, ele traz em sua cena inicial um prelúdio do que o filme virá a ser. A cena consiste na aproximação e distanciamento pelo zoom de dois indivíduos andando sobre dois cavalos em direção a um castelo. De perto não compreendemos bem, mas de longe vemos o detalhe. É assim que se mostra o personagem principal da trama, William, que na função de investigar as mortes daquele mosteiro tem por característica principal ver a situação como é, na sua pura evidência.

Quando William e seu parceiro Adso chegam no mosteiro, passam por um ritual de lavar as mãos, representando assim não apenas um ritual de purificação religiosa, mas que se limpem do que trazem de fora e iniciem uma jornada a partir dali. O personagem principal então nos mostra em sua fala ao noviço como será sua relação com os demais integrantes daquele mosteiro: “Para controlar a natureza é preciso obedecê-la”. Assim, William lava as mãos não para se submeter a maneira de pensar instituída naquele mosteiro, mas para deixar que eles pensem assim, e manipulá-los de mãos limpas.

Um suicídio já havia ocorrido no mosteiro, e enquanto William o investigava, um homicídio ocorreu. O espectador é convidado a acompanhar o pensar do personagem na sua ardilosa investigação, pois no meio desta, ele conquista alguns inimigos que o impedem de chegar a algumas conclusões. Aos poucos, nos vemos como Adso, acompanhando William passo a passo e por horas tentando prever seus passos ou pensar juntamente com ele. O diretor aposta nos tons escuros e cenas noturnas banhadas pelo luar, além de diversas vezes nos presentear com cenas externas do castelo. As autoridades do convento insistem que o demônio se faz presente naquele lugar e que esta é a explicação para tais fatos. Mas nosso Sherlock com crucifixo não vê isto como uma plausível resposta aos eventos e, mesmo rezando com os demais colegas do mosteiro (obedecendo a natureza), duvida. A maneira de William ver o mundo, é explicada por ele mesmo, por erros e pecados por ele já cometidos. Adso, que a princípio se mostra ingênuo às situações que são apresentadas, começa a ganhar inteligência a partir do momento em que peca (luxúria), quando vai de encontro com a carne feminina e se apaixona. O pecado, a dúvida e a paixão são os fomentos para a sabedoria que se mantêm e não se curva perante ideologias.

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A própria instituição (mosteiro) cria o demônio como explicação, para que seus fiéis seguidores não possam olhar as questões implícitas. É como um mágico, que para tirar o coelho da cartola, desvia nossa atenção para sua assistente, é simples:  dessa forma, não vemos ele colocando o coelho lá antes de tirar. Envolvidos com o mistério, começamos a entender que de fato é uma produção dos próprios governantes do mosteiro que querem esconder um livro precioso. Trata-se da segunda parte do livro Poética de Aristóteles também conhecido como Livro do Riso. Para os governantes da instituição,

“O riso mata o temor e sem temor não pode haver fé. Se não há temor ao demônio, não é necessário haver Deus.”

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e por isso é mister esconder na biblioteca do mosteiro esse livro que traz uma arma mortal aos fiéis, capaz de distingui-los dos macacos: o riso. Quando William descobre que há uma biblioteca escondida dentro do mosteiro e que o livro é a causa das mortes (visto que um dos monges colocou um veneno na ponta das páginas, que matava quem o folheasse) já é tarde demais. O inquisidor Bernardo Gui (F. Murray Abraham) já está presente no mosteiro para comprovar que a causa de todas as mortes é o demônio, pondo fim aos apontamentos de William.

Mas a arrogância e o orgulho de William são percursores da sua persistência e ele vai até a biblioteca mais uma vez à procura do livro, como prova de que as mortes foram provocadas por humanos e não demônios. O caminho da biblioteca é marcado por diversos crânios humanos empilhados sendo esta, a tradução em imagem da frase que melhor traduz a essência do filme: “Aprenda a mortificar sua inteligência“. A biblioteca é um labirinto de escadas, que sobem, descem, se cruzam, vão e voltam. É povoada de livros velhos e um eco que deixa zonzo qualquer um. O filme nos dá a impressão de estarmos num subsolo pouco povoado, mofado, pouco visitado e que traz o risco de entrarmos e nunca sair. Ora, não estamos falando de outra coisa senão da própria mente humana?

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O filme não nos leva a rir, mesmo tendo um personagem tragicômico que é o único que ri (e curiosamente se parece com um macaco) que nos tira alguns sorrisos. O filme nos leva a temer, sim, a temer o demônio e às mortes que se sucedem. Porém, não é o medo ou riso que nos leva a pensar sobre o filme. A dúvida, posta como amiga da fé, nos confirma que a fé tem um direcionamento (Deus ou Demônio, no caso do filme) e que é a nossa capacidade de rir ou temer que determinará este. O temor é inerente ao ser humano, mas o verdadeiro riso, meus caros leitores, não é qualquer ser humano que o tem. O riso se dá num diálogo de intelecto para intelecto e nenhuma evangelização é possível perante uma sincera gargalhada.

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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