alex_010-jpgUm vídeo que explode na internet diz muito sobre nossas atuais relações: fica em evidência uma personalidade que precisa ser visto e reconhecido para existir. É a reinvenção da famosa frase de Descartes: “sou visto, logo existo”.

Existem pessoas tão vazias por dentro que precisam ser olhadas para sentir que existem. Este é um fenômeno cada vez mais forte. É preciso “ficar em evidência”, mais do que isso, é preciso ser desejado, invejado. Uma relação que se dá puramente no nível da imagem. O que importa é a mediação entre o objeto que ostento e o que se interpõe entre minha pessoa e o olhar de terceiros. Esta situação só existe devido à ostentação, o valor se perde e só sobram os seus fantasmas. Quando o motivo que leva à ação vem de fora, perde-se a própria força que a sustenta.

“Quem está no camarote tem que ter um Instagram, você tem que pôr suas fotos, seus vídeos”, será que nos tornamos tão ocos assim? Não estou fazendo julgamentos moralistas para com as atitudes do nosso “Rei do Camarote”, não ligo para seu champanhe, suas roupas de grife e, sinceramente, foda-se sua Ferrari. Minha crítica é simples: quem é este ser que precisa o tempo todo da aprovação e inveja alheias? Ele parece não confiar muito em si mesmo… está tão fraco que suas muletas (câmeras, seguranças, grifes) tornaram-se quem é. Muitos mendigos têm mais auto-estima! (diga-se de passagem, muitos mendigos são mais reais que muita gente)

Nosso amigo age com o simples objetivo de que outros o vejam, ele se agarra à máscara que vestiu, ele finge ser quem é, o foco de sua vida sempre está voltado para o exterior. Ele usa roupas e dirige carros que acha que outros vão invejar. Se ele fizesse tudo isso por vontade própria, se pagasse champanhe por generosidade e prodigalidade, eu não veria problema. O que me dá nojo é sua busca constante por aprovação, sua mendicância por aceitação. “Quem não queria andar com um carro bom, se vestir bem, estar com o camarote cheio de mulheres bonitas, atraentes, bebendo das melhores bebidas?”. Se ao menos ele fosse quem é, tivesse distância dos olhares alheios e dissesse, “eu quero assim, sou eu quem realmente quer bebidas, roupas, carros e mulheres”, não estaria tão preocupado assim com a quantidade de “curtidas” das suas postagens no facebook.

Alguns pedem reconhecimento (vivem dialeticamente), precisam de permissão, buscam olhares, somente existem ao serem vistos; outros simplesmente existem, por sua própria força de existir, sua própria autenticidade, não pedem licença para serem quem são. Independente do que façam, estes me parecem membros legítimos da realeza.

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

7 comentários

    1. A compaixão é um sentimento ruim… porque te faz descer no nível daquilo que te causa dor e tristeza.

      Penso que a melhor alternativa é elevar alguém à sua altura ou afastar-se dela.

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      1. Bom. Esta é sua crença no momento sobre o significado desta palavra. Respeito ela. Mas acredito que se você resolver mudar isso, não se arrependerá.

        Por exemplo. Para mim, compaixão é olhar para o próximo sem julgar e desejar que o mesmo se torne mais consciente de si, de suas crenças, sentimentos e da maneira que age. Assim ele caminhará para uma vida menos sofrida e poderá ajudar o próximo. E por aí vai.

        Não creio que exista o verdadeiro significado desta palavra. Cada um escolhe o seu. Mas você pode escolher se este significado trará mais sentimentos nobres ou não.

        Acredito que se você tem um sentimento de desaprovação por uma pessoa, quer dizer que em algum momento não aceita parte de si. E isso pra mim é sofrimento.

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  1. Compaixão quer dizer sofre com. É ser capaz de se colocar de verdade no lugar do outro, entender de verdade suas dores, seus erros, suas quedas. Por isso que tem compaixão não julga, entende. E porque entende, não julga. Ama. Compaixão é o sentimento mais sublime que alguém pode ter.

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  2. Acho engraçado as pessoas julgarem o estilo de vida de outras. Por que uma pessoa como esse cara é “vazia”? Não vejo onde isso é melhor ou pior do que alguém que não quer chamar atenção se i) essa é a maneira que ele encontrou para aceitar a si mesmo e; ii) ele está sendo julgado sem que se saiba de sua cultura, de sua conversa ou de seus hábitos reais.

    Ao meu ver, esse julgamento não é menos preconceituoso do que julgar pretos, brancos, gays, skin heads, nazistas ou políticos. São argumentos superficiais e repletos de opiniões estereotipadas.

    “O que me dá nojo é sua busca constante por aprovação, sua mendicância por aceitação.”
    Por que nojo? Ele não tem o direito de ser essa pessoa e buscar a aceitação que precisa? Ele é pior ou melhor que qualquer pessoa por isso? Acredito que todos temos razões que nos move. Dificilmente vejo como qualquer dessas razões pode ser superior ou inferior a outra.

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