“Eu acreditaria somente num deus que soubesse dançar”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra.

miss 1

Acho que somos todos ateus. De uma forma ou de outra perdemos aquela admiração (me arriscaria a dizer “devoção”) pela vida. Desde criança, nossa cabeça é entuchada com medos, dores, receios, maus-conselhos. Somos levados de nós mesmos; não nos tornamos quem somos, mas o que esperam que a gente seja.

A criança dançava no metrô. Simples assim, dançava ao ritmo da vida, espotaneamente. Enquanto cantava e se mexia ao som de uma música que ela própria inventara, sua mãe só esperava o toque do sinal para dizer: “segura minha mão, menina, senão você vai cair!”.

Fiquei observando a cena. Eu normalmente não seguro no metrô e a menina me viu… acho que isso a motivou a dizer: “mãe, não precisa segurar não, eu não caio”. O que a filha interpretara como um conselho era na verdade uma ordem direta: “Filha! Segura aqui senão você cai!”. A pequena cedeu, mas não por inteiro, ainda dançava mesmo se segurando em uma das barras do metrô. Ela não ia desistir tão fácil, seu corpo pedia movimento, continuava cantarolando sua melodia indecifrável enquanto se mexia.

Não era o bastante, ainda não estava condizente com a imagem que a mãe fazia de sua menina. “Segura direito, filha!” (tradução: “para de dançar!”). Ela parou. Quando o metrô chegou na próxima estação as duas saíram, mas para minha felicidade, ainda escutava ela murmurando uma musiquinha dançante enquanto saía do trem.

Mais ao fundo do vagão, um bebê chorava inconsolável. Um grito cortante e incômodo. Ele protestava contra o barulho, o calor, o sinal agudo, não sei. Mas contra a vontade do nenê, a mãe não tinha argumentos. A situação invertia-se, quem dançava era ela. Balançando sua cria, nascia um ritmo ao som da estridente melodia que enchia a viagem.

E dentro da menina,
A menina dança.
E se você fecha o olho,
A menina ainda dança.
Dentro da menina
Ainda dança.

– Novos Baianos

miss 2

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

3 comentários

  1. lindo…
    que a gente siga vendo meninas e meninos dançando…
    e que nosso trabalho siga sendo facilitador dos embalos de toda gente que for preciso reaprender a dançar sua música…
    no seu tempo…
    no seu ritmo…
    abç.

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  2. Nossa Rafael, eu não tinha lido este ! – que coisa mais que linda !

    ah … então : Que a dança faça nascer, pela sutileza dos traços, pela divindade dos ímpetos, pela delicadeza das pontas paradas, essa criatura universal que não tem corpo nem rosto, mas que tem dons, e dias, e destinos.

    — Paul Valéry

    – Parabéns a todos vcs, mais uma vez!
    bj
    Fy

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