“É preciso despedaçar o que permita o jogo consolante dos reconhecimentos” – Foucault, Microfísica do Poder

lulu

Se este blog afirma que “uma postura inadequada é a nossa forma de viver em uma cultura da adequação” (veja aqui), então fica claro que fatalmente não veríamos com bons olhos este novo aplicativo de avaliação dos homens. Lulu é basicamente um aplicativo de facebook onde as mulheres podem dar notas e fazer avaliações sobre os homens com quem ficaram (para mais informações, ver os outros blogs que pesquisei, no fim deste texto). Gostaria de escrever sobre o Lulu e já possivelmente sua versão masculina pois não tomarei o ponto de vista do gênero, mas sim da avaliação e da mediação sexual pela tecnologia.

Pois bem, posso dizer logo de cara que se trata de uma ferramenta um tanto quanto fascista, onde todos seguram as chave da própria cela em que estão presos. Foucault disse: “vivemos em ilhas carcerárias”, mas agora vemos elas se estenderem ao meio virtual. Se trata de mais um dispositivo de regulamentação que busca a “verdade sexual” de cada um.

O Panóptico é uma construção que quebra o par ver-ser-visto. Com uma torre que tudo vê no meio e uma construção circular em volta, temos uma arquitetura voltada para a vigilância (já escrevi sobre o Panóptico aqui). Mas neste caso há uma inversão, aquele que vê é quem sofre os efeitos do poder. Podemos então chamar o aplicativo Lulu de um dispositivo de poder: um Panóptico invertido, que cria subjetividades.

“No Panóptico, cada um, de acordo com seu lugar, é vigiado por todos, ou por alguns outros; trata-se de um aparelho de desconfiança total e circulante, pois não existe ponto absoluto. A perfeição da vigilância é uma soma de malevolências” – Foucault, Microfísica do Poder

O aplicativo que supostamente produz conhecimento é na verdade aquele que mais nos torna ignorantes. Nos perdemos entre tags e notas de zero a dez. Entre as relações reais se encontra um dispositivo que as regula, fecha as possibilidades de desenvolvimento singular de cada encontro. Mais um prato cheio para uma Ditadura da Identidade. A histeria avaliatória grita enquanto silencia as vozes singulares. O verdadeiro encontro que se daria entre duas pessoas e geraria uma condição única de relação se perde em uma generalização burra.

Se Lacan disse: “não há relação sexual”, então posso dizer, “estamos chegando lá!”. Cada vez mais perdendo a realidade para ficar apenas com a imagem (de perfil do facebook?). Não há mais produção de intensidades porque a sexualidade está toda burocratizada. Não há encontro porque o sexo está mediado por dispositivos de controle (novelas, livros, músicas, filmes, aplicativos de Iphone). É o Panóptico em sua forma mais abrangente e sutil. Chegará o dia em que trocaremos a relação sexual pela avaliação sexual?

“Tem-se a impressão de estar na presença de um mundo infernal no qual ninguém pode escapar, tanto os que olham quanto os que são olhados” – Foucault, Microfísica do Poder

“Botar os homens na linha”, “Fazer com que eles se comportem”, são alguns argumentos que ouvi. Queremos homens disciplinados, bons moços? Talvez príncipes e princesas, exemplos pra sociedade. A busca é sempre por algum ideal, ou pelo menos o controle total do comportamento e dos desejos.

No fim das contas, não posso nem ao menos dizer que as informações presentes no site sejam mentiras. Isto porque a verdade não é descoberta, mas produzida; e este dispositivo de avaliação produz verdades continuamente. Mas a cada voto, em cada “hashtag”, o mundo se fecha um pouco mais.  O aplicativo Lulu não expõe a verdade dos homens, ele cria verdades enquanto mata a possibilidade de constituição dinâmica do sujeito.

Quanto mais controle, menos liberdade. O ser humano, em suas ilusões, ainda reprime para libertar, faz guerra por paz. A liberdade sexual da mulher (e do homem) não virá pelos meios que as aprisionam. A liberdade está para além das palavras e avaliações. O dia em que inventarem um aplicativo que faça experimentar ao invés de avaliar, e criar ao invés de julgar, aí sim terei a satisfação de usá-lo e desfrutá-lo na mais perfeita felicidade.

“Temos de compreender que com nossos desejos, através de nossos desejos, se instauram novas formas de relações, novas formas de amor, novas formas de criação. O sexo não é uma fatalidade: é uma possibilidade para uma vida criativa” – Foucault

Outros blogs que trataram do assunto:

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

6 comentários

  1. Achei muito interessante, parece que o autor do texto utilizou o tema desse aplicativo para abordar a forma como a sexualidade determina os relacionamentos, ou melhor, os pré-relacionamentos na sociedade “contemporânea”. Mas gostaria de fazer uma crítica ao aplicativo também. Nos dias atuais já temos conta de que em um aspecto biogenético determinadas característica geralmente são mais atraentes que outras, por exemplo a maioria das mulheres, e homossexuais masculinos se sentem mais atraídos por homens com ombros largos e altos, entre outras características em específico, embora seja importante lembrar que essa seja uma observação que vale para a maioria das pessoas, portanto existem exceções. Para entender melhor sugiro que procure por “seleção natural”, ou em sinopse, o processo de mutação genética por adaptação ao “meio ambiente”; embora muitos desprezem a “teoria” da evolução de Darwin, ainda assim leva-se isso em consideração; o aplicativo seria nada mais nada menos que uma grande ferramenta destruidora de autoestima, afinal algumas mulheres dariam 10 a um homem que transa selvagemente, porque essa gosta de sexo hard e, por outro lado uma outra mulher poderia dar nota 0,5 porque gosta mais de romance. (Desculpe pelos erros de gramática, sou muito preguiçoso) 😛

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  2. Por isso Pirro e deus discípulos, desconstruíam toda e qualquer teoria, demonstrando que sua contraditória seria igualmente verdadeira, ou seja, só o que está além dos julgamentos apriorísticos é real, a coisa em si é o real, tudo o mais é como objeto visto por um caleidoscópio.
    Muito bom seu texto, obrigado por ele. Abraço
    Vinícius.

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  3. Que coisa boa ver um resenha tao bem feita e ainda com citaçoes de Foucault, a questao da equiparaçao de sexos é algo surreal na minha cabeça, será uma luta eterna e ainda bem que temos, nós mulheres, uma luta diaria para enfrentar, consequentemente sinto que nossas vitorias sao maiores. Mas deixando lutas e feminismos de lado, o fato de julgar, avaliar é algo vazio, sem nexo, tudo na vida é subjetivo! Diminuir uma pessoa para se sentir vingada ou melhor, é a maneira mais rapida de demonstrar sua pobreza de espirito.

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    1. “Diminuir a pessoa para se sentir vingada”
      Você está pressupondo que este é o único objetivo de quem usa o aplicativo?

      “o fato de julgar, avaliar é algo vazio, sem nexo”
      Somos julgados e avaliados a vida inteira. Por nossa família, pela escola, pelo vestibular, pelo trabalho, por nossos amigos, e por que não, por nossos parceiros? Pq apenas estes últimos são apontados como vazios? Qual o problema em avaliações? A pobreza de espírito vem de quem julga ou de quem se deixa rebaixar por brincadeiras como essa?

      A sua própria frase não é em si um julgamento?

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      1. Diego, entendo suas críticas… (aliás, conhecendo você, já esperava!)

        O fato de sermos analisados e julgados a vida inteira não justifica darmos mais um passo nessa direção. A diferença entre fazer algo por motivos externos ou por motivos internos é para mim a definição de escravidão e liberdade.

        Não estou dizendo que não faço julgamentos de valor, claro que faço. Mas meu julgamento vai no sentido de deixar a vida cada vez mais leve, com menos rótulos e menos avaliações. Julguei que este aplicativo (assim como a versão masculina) não é útil para minha vida.

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  4. Texto muito bem escrito Rafael. Nos distanciamos do nosso cerne e ficamos presos cada vez mais a nossa imagem. Nos distanciamos da questão mas profunda do ser humano que é a sexualidade e a possibilidade de relação, assim a questão do encontro fica muito parcial. Essa formas de avaliação não acrescentam a relação e somente estimulam a competitividade.
    Estou conhecendo seu Blog hoje e gostei bastante. Parabéns pelos pensamentos inteligentes e conscientes.

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