“Há em toda revolta uma adesão integral e instantânea do homem a uma certa parte de si mesmo” – Albert Camus

Albert-CamusAo longo desta resenha/série, buscamos resolver um problema proposto por Camus: “a filosofia pode justificar a morte e o assassinato?”. Existe alguma filosofia que coloque outro valor acima da vida? Agora temos condições de responder estas perguntas, mas antes tivemos de passar por outros caminhos aonde a vida era deixada em segundo plano: a afirmação absoluta e a negação absoluta.

Toda filosofia que seja uma filosofia para a vida não pode tolerar a morte de outros para alcançar o que quer que seja. Recusar a morte implica, concomitantemente, recusar tudo que faça morrer. “Assassinato e suicídio são a mesma coisa, ou se aceitam ambos ou se rejeitam ambos” (Albert Camus, Homem Revoltado). Quando matamos alguém, mato a ideia que fazia dele, mas também o ser humano real que havia por trás. Se a filosofia rejeita o suicídio e a morte, então o filósofo não deve colocar-se nem como vítima nem como carrasco. Não há inimigos, seu lugar é ao lado dos homens.

Portanto, não poderia haver perigo maior para a revolta que o fanatismo. Por fanatismo podemos entender desde o nazismo até o marxismo, passando por interpretações religiosas extremas. Não há filosofia que justifique a morte e a opressão sem cair no mais profundo niilismo. É necessário manter-se fiel à Terra para afastar de si todo niilismo. Isto evita que a filosofia torne-se arma dos fanáticos que matam justificando uma transcendência injustificável. Não podemos jamais confundir este conceito tão caro a Camus com alguma forma de religião ou busca por transcendência. Revoltar-se significa ir contra aquilo que nega o mundo, isto é uma das mais potentes formas de afirmação: negar aquele que nega o homem, é a mais pura forma de afirmação da vida.

A revolta é uma força aqui e agora, um movimento de apropriação do real, ela acontece no devir, não é um iludir-se com um mundo melhor no futuro, trata-se de um apropriar-se das rédeas da situação, levando a tensão ao máximo: é uma condição existencial levada ao seu limite. A revolta está sempre no plano do possível, o revoltado quer na verdade manter algo que já tem. Ele diz “Basta!”, para impor um limite, que é o limite de sua constituição no mundo. Este movimento não está relacionado com o pobreza, muito pelo contrário, é o que há de mais íntimo e valioso que ele quer resguardar e manter. Também não há uma busca pela inversão de valores, não se trata do oprimido querendo tornar-se opressor (em termos nietzschianos: não há ressentimento). A revolta é a busca por um outro sentido, trata-se de uma transvaloração dos valores.

O filósofo camuseano é um revoltado porque sua filosofia amplia as possibilidades do real. Esta ética supõe um limite: uma linha existencial deve ser respeitada. O revoltado afirma um ponto extremo, uma linha que existe no encontro, uma fronteira que deve ser preservada. Daí nasce uma ética da revolta, uma maneira de ser fundamentalmente marcada pela revolta contra limites que são absolutamente invioláveis. Esta é a fórmula encontrada por Camus: afirmar e negar ao mesmo tempo, negar a condição de miséria humana afirmando algo em si que não pode ser submetido.

Essa louca generosidade é a da revolta, que oferta sem hesitação sua força de amor, e recusa peremptoriamente a injustiça. Sua honra é de não calcular nada, distribuir tudo na vida presente, e aos seus irmãos vivos. Desta forma, ela é prodiga para os homens vindouros. A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente” – Albert Camus, O Homem Revoltado.

Sendo assim, o movimento da revolta desemboca diretamente na constituição de uma aliança entre os homens, dá-se sempre no plural: o que minha negação afirma é também aquilo que compartilho com todos. Onde imponho um limite e recuso minha liberdade total é onde abro espaço para a afirmação do outro. “O revoltado sem dúvida exige uma certa liberdade para si mesmo; mas em nenhum caso, se for consequente, reivindicará o direito de destruir a existência e a liberdade do outro” (Camus, p. 327). Salvo a mim mesmo procurando também salvar aqueles à minha volta.

Esta filosofia clama por irmandade. A vida deve ser preservada, por isso devemos nos opor contra qualquer constituição ilimitada de poder (Deus, Ditaduras… ). Enquanto houver opressão, tirania, massacres, perseguição e qualquer outra forma de degradação da existência humana, haverão homens que se levantarão de dentro da massa e dirão “Não!” a plenos pulmões. Estes homens se juntarão em um movimento de permanente oposição contra aqueles que fazem da existência um inferno e da morte um alívio.

Para nós, o que ressoa nos confins dessa longa aventura revoltada não são fórmulas de otimismo, que não têm utilidade no extremo de nossa desgraça, mas sim palavras de coragem e de inteligência, que, junto ao mar, são até mesmo virtude” – Albert Camus, O Homem Revoltado.

> este texto faz parte da série Homem Revoltado, veja aqui <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

2 comentários

  1. Achei difícil a leitura. Foi o primeiro texto de Camus que li, talvez seja isto?! Mas me pareceu um pouco com as proposições do filme Tarkovsky e da questão do embrutecimento e da emancipação intelectual do Jacques Ranciere. Enfim, se entendi pouco da questão, parece de difícil prática.

    Curtir

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s