– Por Rafael Trindade e Vinicius Lopes

Não houve um estudo enfadonho sobre a história da sexualidade para elaborar os pensamentos que aqui serão escritos. O método é mais simples: observação. E esta observação pode servir de preservação, contemplação ou reconstrução histórica. E mesmo sem estudo, e apenas na observação refletida da atualidade, pretendemos colocar em xeque alguns conceitos ligados à sexualidade, na tentativa de denunciar um falso avanço humano em lidar com a mesma.

O que entra em discussão num primeiro momento é a troca feita do termo “opção sexual” para o termo “orientação sexual“. Claramente foi uma escolha genético-biológica, pois não há de fato nenhuma escolha na sexualidade humana. Isso traduz a frase clichê “eu não acordei um dia e escolhi ser homossexual“. De fato, estudos genéticos apontam que há uma predisposição biológica para o sujeito se tornar homossexual; há algumas explicações psicológicas para isto, inclusive que apontam que este tipo de desejo não é assim controlável; estudos que apontam para uma consideração do ambiente, família e sociedade na qual esse indivíduo está incluso para que ele possa desenvolver sua sexualidade. E sim, apoiados em diversas correntes do pensamento científico, que buscam comprovar que a sexualidade não é uma escolha, trocou-se “opção” por “orientação”.

Mas queremos trabalhar esta questão. Não, ninguém orientou nossa sexualidade! Mas “as sexualidades” são orientadas a partir do momento que esta conduta é adotada. Quando estes indivíduos aceitam a condição de orientação e abandonam o fado de opção eles se tornar passivos com uma questão tão importante. E cabe pensar: quem nos orienta? Por que nos orientam? A quem interessa que não banquemos mais a sexualidade como uma escolha? Quem ganha com tudo isso? A troca de “opção” por “orientação” nos torna cativos de termos científicos e rótulos que nos oferecem e limitam. Só rotula e reproduz quem não consegue criar.

Há de se notar, desde que a homossexualidade ganhou espaço para discussão, desde as paradas gays, as campanhas gays – que são cada vez mais frequentes -, pouca coisa mudou na realidade dessas pessoas. Sim, é comum vermos casais homossexuais – eles até fingem que estão nas novelas, não é? – é comum vermos casais heterossexuais convivendo com homossexuais sem nenhum problema. Isto não é um problema? Há uma fronteira onde não há divisão! Heterossexuais e homossexuais são antes de tudo seres humanos, e é uma sina do ser humano escolher. Ainda trabalhamos com imagens em vez de experimentação! E pior, ao dividir homossexualidade e heterossexualidade, perdemos algo que está para além desta aparentemente simples escolha.

Desde pequenos vivemos em sociedades que nos ensinam a escolher, mas não a criar. Na escolinha, escolhemos para dividir os times, escolhemos com quem vamos sentar e brincar no recreio, escolhemos com quem vamos fazer nossa prova em dupla, e quando ficamos emburrados, queremos escolher não usar uniforme. Algumas coisas nos escapam, claro. Não escolhemos família, biótipo, classe social, país de origem, período histórico. Mas as coisas que escolhemos, e que podemos escolher, passam a nos pertencer, e deveríamos saber trabalhar com isso para criar coisas novas, outras possibilidades de agir e ser no mundo. Tudo o que fomos escolhendo ser e não ser, fica presente em nós até chegarmos à adolescência. Lá, começamos a ter outro olhar para nossa sexualidade, pondo-a em prática. Porém nós não escolhemos, somos orientados. Por quem? Por quê? Se nos desenvolvemos constantemente, nossa sexualidade também não muda?

Somos uma zona de potencialidades, um espaço de movimento, recriação, experimentação. Não estou dizendo que da noite para o dia alguém acorda pervertido ou sadomasoquista. Mas a questão principal é a da experimentação, não fechar-se, não ignorar, e não ter medo das mudanças que se passam. Se posso apropriar-me de minha sexualidade, não ser orientado, mas ser ativo nos encontros que experimentos que faço, então posso conscientemente criar e desenvolver em cima daquilo que já sou. Sem o peso da escolha, mas talvez com a leveza de ser o que quiser ser. Minha homossexualidade, ou qualquer outro rótulo, está em constante experimentação, mudando o tempo todo. Assim, aos quarenta anos de idade, posso já ser completamente diferente, passando por cima da “orientação sexual” que me deram, criando em cima dela, com a mesma naturalidade com a qual trato de outros assuntos.

Por isso há, depois desta observação, uma opção de pensamento a se seguir. Se continuarmos aceitando a sexualidade apenas como orientação, estaremos acatando o status de oprimido, sujeito que aceita uma qualidade que lhe é imposta por outro que impõe (já tratamos aqui de uma Ditadura da Identidade, clique aqui). Se colocarmos a sexualidade também como uma opção social e, muito além da biologia, escolheremos a homossexualidade nesta sociedade, nesta cultura, nesta história. Então esta escolha banca a aceitação dos desejos – o que difere da orientação – dando muito mais autonomia sobre estas questões. E se aceitarmos que a sexualidade, para além da orientação passiva, também pode ser experimentada como uma opção, além de nos tornarmos autônomos e criadores, libertando-nos de uma opressão sexual, também livraremos os opressores, da reprimida tarefa de oprimir o outro, para não oprimir a si.

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

3 comentários

  1. Muito bom o texto, Vinicius. Eu acho que é bem por aí mesmo.
    A orientação acontece no âmbito biológico. Há a predisposição genética para tal, como você disse. Então concordo com você no sentido que essa opção é social. Somos orientados geneticamente. Esse é o “por quem”, mas assumir viver isso, é uma escolha, mais que sexual, é social. Como você bem disse, é aceitar tudo que vem junto com essa escolha, no mundo que vivemos hoje.
    Obrigado pela reflexão.
    😉

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  2. Parabéns pela reflexão. Vou colar aqui um pedaço de outra reflexão que penso completar parte do raciocínio: “… E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.” Bauman – Amor Líquido

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  3. Não ha como discordar da importância da reflexão proposta. Como sociedade, somos responsáveis pelos termos que cunhamos, pelos significados que permitimos que ganhem tanto qto pelas resignificacoes que nos esforçamos por lhes atribuir. Uma contribuição importante que tira um pouco a poeira da mesmice que se repete na maioria dos textos que tentam discutir sexualidade.

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