Da mesma forma que hoje temos Nietzsche liderando as vendas de filosofia, Marx e Sartre foram os grandes expoentes filosóficos dos anos 90. O que isso significa? Que falam muita besteira por aí… O pensamento filosófico aplicado em sua forma mais abjeta e torpe. As frases dos filósofos mais influentes são usadas sem o mínimo de critério e reflexão, perdendo seu sentido original e cultuadas como grandes verdades. Tentamos constantemente remediar isto em Nietzsche. Neste texto mostraremos por que não concordamos com as citações mais famosas deste influente filósofo do séc XX. Faremos uma comparação de algumas frases famosas de Sartre à luz das concepções filosóficas dos autores deste blog e mostraremos valores que se escondem por trás deste expoente do existencialismo.

“Amar é o desejo de ser amado” – Já tratamos várias vezes do desejo aqui nesta página (ver aqui). Se desejar é um verbo intransitivo, então precisamos tomar cuidado com o amor. Em Sartre o amor encontra o mundo na busca de ser amado, que amor barato e sem graça… em Espinosa, Nietzsche, Deleuze, desejo é a potência de agir que encontra o mundo já se exteriorizando e já se concretizando. O amor vem acompanhado de uma causa externa, mas é algo que excede o ser, é uma força de criação que se dá de graça, é pródiga, esbanjadora. “Amor é dado de graça, é semeado ao vento” (Drummond). O amor não tem objetivos, ele é efeito do encontro que aumenta a potência. Temos um diagnóstico para aqueles que pensam como Sartre: “não suportais a vós mesmos e não vos amais o bastante: por isso queres induzir o próximo a vos amar, dourando-vos com seu erro” (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra).

“O homem está condenado a ser livre” – Onde já se viu? Apenas um existencialista teria a brilhante ideia de juntar penalidade com liberdade! O maior dos pesos com a maior dos presentes. Desde quando podemos juntar liberdade com condenação? Mas é possível que duas guerras mundias levem um filósofo a dizer tais absurdos. O homem ignorante, já vimos em Espinosa, acha que é livre porque não sabe das causas que o determinam. Mas a verdadeira liberdade vem da força, o homem pode aquilo que tem força para fazer. Agora, dizer que os impotentes são livres, ou condená-los a isso, me parece um crueldade sem tamanho. Sadismo sartriano. “Porque a liberdade é uma virtude ou perfeição, tudo quanto no homem decorre da impotência não pode ser imputado à liberdade” (Espinosa, Tratado Político §7). Podemos dizer que o homem só é livre quando efetua sua potência. Já que Sartre não consegue efetuar sua potência, ele a vê como uma condenação. Coitado… não há distância entre esta condenação e uma ilusória liberdade – o impotente não é livre. Uma verdadeira liberdade é a efetuação necessária da potência de nosso ser, não a ilusão da escolha.

“O inferno são os outros” – Só se for pra Sartre. Alguém impotente, com medo, fraco, com certeza é aquele que não sabe escolher seus encontros e regular seus afetos. Esta pessoa termina por demonizar a realidade, só tem maus-encontros e ainda culpa o mundo por isso. “O mundo não é bom o bastante pra mim…”. As essências são dadas, já que ele é impotente demais para fazer diferente de julgar. Só julga quem não sabe criar! Sartre, com esta frase pessimista resume sua peça inteira, “Entre Quatro Paredes”. Mas os homens não são nem anjos nem demônios. Espinosa nos ensinou a não julgar, e não entende aqueles que “procuram a causa da impotência e da inconstância humana, não na potência comum da Natureza, mas não sei em que vício da natureza humana, e, por essa razão, lamentam-na, riem-e dela, desprezam-na, ou, o que acontece mais frequentemente, detestam-na” (Ética III).

“O homem se escolhe escolhendo todos os homens” – Não quero ser exemplo para outros homens, eles que saibam de si, não me sigam. Devemos afirmar a diferença, não servir de exemplo. Zaratustra já nos deu o maior dos ensinamentos neste sentido. Sartre, que nunca deixou o partido comunista, nos traz um exemplo de igualdade que não seguimos. “Ó pregadores da igualdade, é o delírio tirânico da impotência que assim grita em vós por ‘igualdade‘” (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra). Não escolho os outros homens, cada uma tem seu jeito de afetar e ser afetado, é absolutamente singular. Não busquem isso nos outros, construam para si mesmos; não imitem, criem! As previsões de igualdade não podem concretizar-se, ou seria o mais absoluto niilismo: “Nenhuma pastor e um só rebanho! Cada um quer o mesmo, cada um é igual” (Nietzsche, Assim falou Zaratustra). Não queremos este peso.

“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós” – Aqui é importante esclarecer bem. Pois com a mesma frase queremos dizer exatamente o contrário. Importante não é pensar o que você faz com o que te acontece, mas o que te acontece com o que você faz. Assim se torna muito mais didático entender uma frase tão importante. Precisamos de um ser humano ativo, não um que espera acontecer algo com ele para então agir. Buscar a criatividade e não a reatividade. Não ser aquele em que a reatividade prevaleça. Nosso compromisso é com a potência de agir, um homem ativo que através de suas experiências escolhe a si mesmo.

“A existência precede a essência” – A forma homem é a sua essência, e Sartre nos traz o peso das escolhas de um homem livre. E ainda nos responsabiliza por toda a humanidade! Sinceramente, não me parece muito agradável ser um homem. Sim, a existência precede a essência, apenas para o ser impotente. Para este, é impossível não cair na essência, mas nós não queremos isso. A essência é sinônimo da forma, de uma cadeia de signos que nos preenche (paradoxalmente deixando a sensação de vazio). A existência é tudo, ela se afirma e se cria constantemente, não precisamos de mais nada; a essência é a perversão da existência! Como em um rizoma, faremos tantas conexões que não saberão dizer o que somos, estaremos para além do bem e do mal, para além de qualquer essência, superando a forma homem.

Se o existencialismo é um humanismo, e não somos humanistas (a forma-homem deve ser superada), podemos dizer que não somos existencialistas também…

jean-paul sartre

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

10 comentários

  1. Não sou um árduo leitor de Sartre. Nem de Nietzsche ou Espinoza. Mas do pouco que sei, e das frases que li, junto com as explicações. Devo dizer que fico triste. Todas as frases aqui colocadas, possuem um sentido diferente do que por você explicado. Mais um texto seu, que vejo cego, por uma aversão ao autor. Você tem suas preferências e seus desgostos, e escancara de forma anti-criativa. “Só julga quem não sabe criar.” Eu quase vi Sartre sendo chicoteado em praça pública neste texto. “Espinosa nos ensinou a não julgar,…” Não sei porque nem pra quem ele ensinou isso. Mas fico triste que tenha ensinado. De resto, vejo ironia em algumas frases de Sartre. Você leu a peça dele? Me pareceu com um sentido outro… Mas enfim, cuidado para não julgar, nem colocar seus filósofos de bolso como crucifixo no peito.

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    1. As frases de Sartre podem trazer inúmeras interpretações. À luz de Espinosa e Nietzsche tenho que admitir que o existencialismo se mostra cinza demais. Não há julgamentos, mas há hierarquias auto-determinadas…

      Sartre? Não muito obrigado! Por que? Por causa dos motivos acima justificados.
      Não trago minha filosofia como crucifixo no peito, mas talvez como um livro de receitas que apuraram meu paladar para não mais provar nada podre por dentro.

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      1. Ranciere diz que devemos experimentar uma emancipação intelectual, na qual devemos sempre perambular pro três perguntas, sendo a terceira: “o que eu penso disto tudo?” Só queria talvez propor que você criasse seu livro de receitas, e se desse ao luxo de degustar as coisas que tem podre por dentro. Talvez seja ainda mais saudável. E uma pena não ter lido a peça, não é filosofia, é arte.

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  2. Achei bastante coerente.

    Sartre não resiste a uma leitura Espinosana ou Nietzscheana. Assim como estes não resistem a uma leitura Hegeliana, por exemplo. É uma questão de perspectiva: por qual lente eu escolho enxergar uma filosofia? – Pela que me agrada, é claro!

    Neste sentido, concordo com você na maioria dos pontos.

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  3. Acho que uma crítica adequada poderia falar da mesma coisa, só que com argumentos em cima de argumentos…disfarçando, confundindo e dando indiretas.
    As vezes a inadequação é bem esquisita aos nosso “olhos respeitosos”.

    Até eu estranhei (malditos “olhos respeitosos”)
    Mas gostei da ousadia! 😉

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  4. Excelente, Rafael.
    Mas não entendí a crítica também. – Eu por exemplo, não suporto Platão e por mais que possa fundamentar qualquer crítica em relação às suas idéias, não estaria negando sua genialidade.
    Seu post me lembrou um livro que adorei, escrito por Juan Antonio Rivera: Carta Aberta de Woody Allen Para Platão. – Excelente e eu recomendo. Na mesma levada o filósofo Rivera faz suas críticas a Platão colocando vários roteiros de filme.
    Eu amei a ousadia!
    Bj
    Fy

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  5. Olá,

    Parabéns pelo post crítico, até mesmo ácido. Contudo, como leitor de Sartre há alguns anos, não posso me furtar de alguns comentários. Que já foram até mesmo parcialmente contemplados por outros comentários já feitos no post.

    Em primeiro lugar, acho que comentar os motes sartreanos tirando-os de contexto é, como o seria para qualquer autor, um flerte com a compreensão parcial ou equivocada. Não parece ser o seu caso, que é o de uma recusa mais global ao espírito e a atmosfera “cinzenta” da filosofia sartreana.

    Em segundo lugar, esses famosos motes se explicam no contexto de “O Ser e o Nada” (doravante SN), que é uma obra cujo conceito de “ser humano” ali presente é marcado pelo fenômeno que Sartre chama de “má-fé”. Então não é “legal” ou “desejável” que as coisas assim se passem. Apenas é assim que se passam quando o homem se compreende sem a consciência da sua radical liberdade.

    Alguns pontos merecem mesmo comentários particulares:

    Sobre o amor: amor é mesmo graça, em pelo menos dois sentidos do termo. O amor autêntico seria, sem dúvida, dessa forma. Contudo, o que as pessoas que se amam – e é disso que ele faz fenomenologia em SN – fazem é exatamente assim: seu amor é o desejo de ser amado. Não é raro ver o amor se transformar em outros sentimentos (ódio, p. ex.), quando deixa de ser correspondido.

    Sobre a condenação à liberdade: bom, quantas vezes a vida não se tornaria mais fácil quando não fosse absolutamente necessário fazer escolhas? Quantas vezes a vida não se tornaria mais suportável se pudéssemos nos jogar nos braços de outrem e entregar nossa responsabilidade à ele? Não é outro sentimento que funda a má-fé. Evidentemente liberdade é sinônimo de humanidade, de dignidade humana. Mas, novamente, isso não significa que tudo sejam flores.

    Sobre ser exemplo: aqui acho que é o desvio mais problemático de compreensão. Porque é aqui que Sartre mais se aproxima de Nietzsche, quando este diz que “se quiserem segui-lo, que sigam a si mesmos”. Se você prestar atenção, o que está sendo dito é precisamente que a ação deve “criar” modelos, e não imitá-los.

    Sobre fazer algo sobre aquilo que fizeram de nós: outro desvio sério de compreensão. Uma leitura sobre a ideia de pré-reflexividade em fenomenologia esclarece esse ponto. Afinal, se trata apenas do fato de que não somos unidades prontas de autoconsciência, mas indivíduos que se fazem de forma ativa e processual na própria existência. Não é “reatividade”. Oxalá se dispuséssemos de uma “Bildung” na qual todo indivíduo adulto dispusesse de uma visão clara da condição humana!

    No mais, vejo que você fala da superação da “forma-homem”. Lembro que para Sartre, em uma de suas última entrevistas, se trata de algo anterior àquilo que Nietzsche diz sobre o homem: o problema de querer superar o ser humano, para o francês, é que essa ideia pressupõe que o ser humano esteja realizado. Numa existência em perpétuo devir, realizar o ser humano é uma tarefa – a tarefa existencial por excelência.

    No mais, obrigado por oportunizar o diálogo. 🙂

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  6. Fiquei decepcionado com o texto. Baseado somente em espantalhos: o autor inventa interpretações das frases e as refuta — tudo bem distante das ideias postuladas por Sartre (que o autor ou não leu ou não entendeu).

    Não sou grande fã do existencialismo e até o acho meio bobo, mas fico muito extremamente desapontado com desonestidades intelectuais como as que vi aqui.

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