Amauri ferreiraNinguém está destinado à tristeza, assim como também ninguém está destinado à alegria, pois não existe algo de misterioso que seria a causa desses afetos, como se a existência de alguém já estivesse determinada a ser de um jeito ou de outro. Impedidos de existir de acordo com aquilo que é vital (que é o desejo de amar e de ser generoso), os indivíduos entristecidos certamente têm consciência daquilo que os atormenta – isso eles sentem, ninguém precisa convencê-los do seu cansaço. Diante dos valores estabelecidos, fazer parte do jogo imundo que reproduz a tristeza de outras pessoas parece ser, para a maioria, a melhor opção para administrar a crise que dominou a própria existência. Procura-se, apenas, tolerar a crise que é existir. Por isso que, para nós, trata-se de um entristecimento tolerado. Os conluios entre políticos, empresários, juízes e intelectuais ocorrem simplesmente porque eles estão tristes – por serem facilmente corrompidos, não podemos nos espantar que eles queiram cada vez mais o poder, seja na mídia ou no Estado, onde sentem-se à vontade para vomitar suas mazelas com o microfone e uma coluna de jornal nas mãos, abastecidos financeiramente por quem tem o interesse em disseminar o ódio através deles. Criticam porque estão amargos e tristes, e estão tristes porque não criam (Godard já dizia que uma crítica será sempre inferior à criação artística), e não podem criar enquanto são ignorantes das causas do seu entristecimento, pois, afinal, imaginam que é impossível viver sem a organização exterior de horários, deveres e títulos que multiplicam a sua tristeza… Muitos jovens incautos são contaminados por quem quer demonstrar erudição e grande capacidade de articular idéias. São os que falam sobre tudo, uma verborragia sem limites, um pedantismo que parece ser incurável. A inteligência seduz e captura, e isso é demonstrado todos os dias… Os sujeitos tristes precisam mentir e mentir para continuar a enganar a si mesmos; precisam roubar e roubar para continuar com a sua própria existência roubada; precisam acusar e acusar para continuar a esconder aquilo que fariam os outros sentirem nojo deles. Eles precisam de polícia, precisam também de narcóticos, precisam também de bajuladores, precisam também disso e mais isso… Sempre falta algo para eles não se entristecerem demais. Não há mistério: indivíduos tristes precisam de capitalismo, de Estado, de “juízo final” e “salvação da alma”. Ninguém é conservador e fascista por opção, mas por existir de modo entristecido… Porém, para reforçar o que dissemos no início: ninguém está destinado à tristeza…

Este aforismo estará presente no livro “Aforismos – volume II”, que está em produção. (para mais informações: http://www.amauriferreira.blogspot.com.br/)

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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