O filme de Andrei Tarkovski (1972) ganhou prêmio do Juri em Cannes, apesar de ser considerado por muitos, um dos filmes mais fracos do cineasta russo – que coleciona apenas 6 longas metragens e é considerado um dos maiores cineastas da Rússia. Ainda assim, Solaris é um filme de muitas camadas poéticas (o que já é esperado, afinal Andrei é filho de um poeta) e filosóficas, e cabe a nós então tentar descamá-las. O filme conta a história de Kris Kelvin, psicólogo que acaba de perder sua mulher, e é convidado a ir à uma estação espacial, que se aproxima do planeta Solaris. Sua missão, é investigar o que vem acontecendo na mente dos astronautas, que alegam ter alucinações. A primeira explicação é que o mar do planeta possui alguma inteligência própria que faz com que a memória daqueles que se aproximam de lá tome vida. Assim, os três astronautas que lá estavam – um deles se suicidou – vivem alucinando suas memórias, personificando o passado e tendo que lidar com pessoas que já se foram.

O filme é baseado no livro homônimo de Stanislaw Lem, que tem igual cunho de ficção científica. Tarkovski em entrevista, diz que não era a favor de usar da ficção científica para fazer o filme, sob o argumento de que as coisas que o filme quer dizer, são ditas mesmo sem o respaldo da viagem espacial. E são muitas coisas ditas em quase três horas de filme.

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Começamos pondo em xeque a ciência dogmática e sua necessidade de comprovações e definições objetivas para se chegar a uma verdade. Os estudiosos do que se passa no planeta – e que criaram a ciência solarística – não concebem que os eventos relatados pelos astronautas sejam assim possíveis. Não havia – e ainda não há – ciência que entenda ou explique como alguém importante para nós que já morreu, pode reaparecer e conviver conosco mais uma vez. A ciência encontra seu limite quando esbarra no humano. Certas coisas não são explicáveis e jamais serão, porque foram feitas para serem vividas.

“O amor tem que ser vivido, não explicado. Só pode se explicar uma noção.”

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Se o filme começa colocando em pauta a questão da cientificidade, a cena que é ápice desta discussão, é um longo plano-sequência do aniversário de um dos astronautas na estação, no qual há um jantar na biblioteca. Chega a ser engraçado uma discussão filosófica sobre o Homem, ser feita tão distante do planeta Terra. Mas enfim, é uma cena que precisa ser vista e revista diversas vezes, não apenas pelos detalhes das imagens, e pela força de um plano-sequeência tão longo, como também pela força dos diálogos: “Vergonha: o sentimento que salvará a humanidade.”

Mas a discussão trazida pelo filme que mais apetece é o encontro de Kris com sua mulher que havia morrido. Depois de um tempo na estação espacial, de observar e tentar compreender o comportamento dos dois astronautas lá, ele começa a personificar sua falecida mulher. Psicanalítico no tom de reviver um luto, elaborá-lo e matá-lo, para assim continuar a vida.  Uno transtorno – alucinação, delírio, sonho, ficção, fantasia, memória e realidade na mesma estação – uno transbordo. É impressionante como Tarkovski transita entre estes planos da mentalidade humana de uma forma natural e envolvente. Nem sempre estando claro se é sonho, alucinação, realidade ou qualquer outro plano, é mister que sintamos os sentimentos da cena, independente do quão irreal eles sejam. Kris e sua falecida mulher, precisam “juntos” entender as questões envolventes de sua morte, e aos poucos sua mulher parece ganhar vida, mas só parece…

E é assim que vamos juntamente com Kris, experimentando a conectividade com Solaris e entendendo aos poucos sua relação com a falecida mulher, bem como a maneira de se comportar dos outros astronautas já acostumados com a “realidade paralela” da estação. E resta-nos o gosto amargo que fica da deliciosa aventura. Se a ciência é incapaz de por si só compreender a vasta humanidade, será necessário viajarmos tão longe assim, para nos aproximarmos desta compreensão? Se há mais coisas entre o céu e a terra que suspeita a nossa vã filosofia, o que há além da Terra? Haverá um dia em que a ilogicidade terá mais sentido sobre as coisas, que a teimosa lógica cientificista?

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Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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