rolezinho-em-shopping-racismo-brasil-juventude

– por Agni Berti e Rafael Trindade

“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”

– Assis Valente

Existem coisas que não devem ser ditas, mas todos devem saber. Existem leis que não estão escritas, mas não devem ser quebradas. Os Rolezinhos são a saída criativa e inteligente para um problema muito sério que poucos tiveram coragem de enfrentar: segregação social e racismo.

E ainda dizem que o brasileiro não é preconceituoso! Para provar o contrário temos a enorme repercussão que os Rolezinhos vêm causando! O que começou com simples aglomerações em shoppings já pode ser descrito como um dispositivo social que deixa escancarada toda questão da divisão do espaço social em nosso país. Por que jovens não podem se reunir para andar em um shopping center? Não pode? Agora que eles querem mesmo! E às centenas!

Ao irem para os shoppings, almejando momentos de lazer, há uma confluência indigesta. “Não, eles não podem, aqui é o meu lazer, não quero ver você como um igual, como alguém com as mesmas necessidades que eu” – devem pensar os consumidores das lojas caras. Ou, outra hipótese, as elites não querem enxergar o abismo social que existe, sendo mais fácil negar e excluir do que dialogar e mudar.

Confessamos nossa admiração por estes jovens que, alguns talvez até sem saber, estão revolucionando as separações entre público/privado, pobre/rico, permitido/proibido. Estas pessoas se sentem mais corajosas, determinadas a enfrentar certas situações e quebrar certas regras. Eles não sabem nada de dialética ou luta de classes, e por isso tratam das questões sociais ao seu jeito. Talvez seja só rebeldia juvenil, mas tanto faz, não é preciso ler Marx nem saber quem é Robespierre para fazer uma micro-revolução.

Por que a presença desses pobres é tão aterrorizante? Achamos que a primeira resposta que vem à cabeça é o fato de eles exporem essa grande contradição em que vivemos. O pobre quando atua como pobre, como subalterno que realiza aquilo que cansa os ricos, é muito útil. Devem ser bons porteiros, seguranças, faxineiras, devem servir tanto quanto um porta-copo, sem interação, apenas utilidade.

Não nos seguramos de emoção e satisfação ao ver estes jovens entrando pelas portas do “templo do consumo” e deixando indignados todos aqueles que querem viver o sonho americano. Apartheid? Sim, ousamos dizer que sim (as balas de borracha devem doer bastante), o biotipo é o cartão de visita destas pessoas e também o critério de seleção ou exclusão. Eles não são idiotas, sabem que não deveriam estar ali, mas é exatamente por isso que estão: “olha como minha imagem te afeta, eu sou uma força que desestabiliza toda o local”. Não diríamos nem que eles querem ser vistos ou mostrar que existem, faz mais sentido ir além; eles criam novas linhas que quebram com as antigas formas, são linhas de fuga que fogem dos padrões atuais, que mostram novos modos de existir.

Esses jovens dizem, de uma forma até radical, que querem fazer parte do topo da sociedade, que querem os mesmos direitos, que são gente também. Gente que deseja, gente que trabalha e gente que consome. Talvez seja esse o grande choque cultural – ter que enxergar essas pessoas como gente, em oposição à função de porta-copo.

Mas não vamos nos concentrar na crítica tradicional. Vamos para além da luta de classes, ampliaremos a luta para mil batalhas diárias. Ainda assim, façamos aliados ao invés de inimigos. Por que aterrorizar as madames? Não, não, na verdade o bom seria nem pensar nelas, tanto faz!, vamos fazer nossos Rolezinhos o que eles pensarem é problema deles. A questão cultural é tão importante quanto neste contexto.

A ideia é criar coisas novas, outros jeitos de frequentar o shopping, outro jeito de ser consumista, outro jeito de dar Rolezinhos. Somos consumistas, mas consumimos tanta porcaria! Que estes jovens saibam fazer algo novo. Não basta imitar os ricos do Shopping Iguatemi, eles não são tão bons assim para serem imitados. Por que não juntar forças? Chega de criar espaços artificias para separar, o negócio agora é misturar. Quais são os novos valores que emergem da mistura periferia/shopping, madame/salário mínimo? Estamos curiosos para saber! Que se danem as identidades, apoiaremos a diferença. Nos parece muito melhor amar a diferença; o igual é muito chato, muito monótono.

“Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar” – Assis Valente

Infelizmente a resposta do governo do estadual foi a pior possível. “Nunca serão” (para citar Capitão Nascimento) é o que  parece dizer o Estado e os entusiastas da propriedade privada. É um Apartheid social na medida em que são instrumentos oficiais do governo que limitam o acesso desses jovens. À medida que o governo toma essa liberdade de discriminar, diminuem as possibilidades de diálogo e entendimento. Algo que pode ser chocante num primeiro momento, como jovens entrando e cantando nos shoppings, fica estigmatizado a ponto de não ser superado, deixando uma marca eterna de “aquele com cara de pobre não entra”.

O cenário de desigualdade social é vigente no Brasil desde sempre, mas quando o governo dá o pior exemplo e deixa claro que não há boa vontade em mudar, em superar e, principalmente nesse caso, em aceitar, esse cenário fica mais complicado. Espero que não cheguemos ao ponto de ter uma sociedade de castas, porque mesmo com Haddad se propondo a ouvir estes jovens, o perigo está aí.

Já é tempo de se misturar, plurificar, que o rico vá na favela (não só para comprar maconha, ou fazer turismo) e que o pobre vá ao shopping. Exitem infinitas de possibilidades não testadas ainda! Que isso seja apenas o começo. E cada vez mais não saberemos dar rótulos e ficar brincando de colocar cada um no lugar que merece. Não sou fã de shopping nem de consumo, mas acho genial e de uma subversão imensamente criativa o que estes jovens estão fazendo. Sim, invadam shoppings!, deixem as madames de cabelo em pé, deixem as pessoas desconfortáveis, uma hora eles se acostumam, ou não, mas tanto faz, pelo menos vocês souberam dizer sim!

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Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

7 comentários

  1. Excelente texto, Rafael.
    O caso dos Rolezinhos também traz o fenômeno do covering, proposto por Kenji Yoshino, em que grupos excluídos da sociedade, como negros, homossexuais e pobres, de alguma forma apenas seriam por ela aceitos se tivessem algumas de suas características particulares amenizadas, justamente as que os levam a ser diferentes (cabelos crespos ou demonstração de afeto entre homossexuais em público). No contexto dos rolezinhos, os jovens pertencentes à população pobre demonstram ter interesse no consumo (aparelhos iphones e roupas de grife) e hábitos (frequentar shoppings) demandados pelo mercado, o qual restringe o status de “pertencente à sociedade” àqueles que têm condições de comprar o seus produtos.

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  2. Muito bom o texto. Só uma correção: A música “Brasil Pandeiro” foi composta pelo grande Assis Valente, não pelos Novos Baianos, e tem a ver com a ida de Carmem Miranda aos EUA. O samba foi escrito em 1940, 7 anos antes de Moraes Moreira nascer, e 12 anos antes de Baby e Pepeu.

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  3. Bom, apesar de acreditar nesse clamor de luta de classes e blá blá blá politicamente correto, creio que a ação do governo foi correta, desta vez, em defesa não só dos usuários (“madames”), como dos lojistas, das lojas e dos próprios manifestantes. Reunir muitas pessoas na rua, se mostrou um desafio que nem sempre acabava harmonicamente. Reunir esse número absurdo de pessoas em um lugar que não é preparado para isso é um risco.

    Não acredito que o governo agiu em defesa dos ricos e das “madames” (aliás, me decepciona o termo usado por vocês… parece que os intelectuais brasileiros sistematicamente vêem os ricos como seres do mau, gostaria de saber o que há de errado em ser uma madame), acredito que agiu em defesa da segurança pública. Este texto poderia, na verdade, ser escrito sobre o por quê destes jovens não terem lazer e espaços adequados na cidade para se divertirem. Poderia ser sobre o enclausuramento dos jovens que não possuem segurança para sair às ruas em lugares abertos. Poderia ser sobre a miscigenação de culturas promovida pela internet e no poder de se manifestar passando dos “jovens” que vimos nas ruas em junho do ano passado para os realmente jovens. Mas jamais sobre o “direito” deles de promover algo potencialmente perigoso, no qual diversos furtos e tumultos foram registrados em um lugar inapropriado e inadequado. Repito um raciocínio usado nos textos dos tumultos do ano passado: para protestar, tem que ter responsabilidade.

    Além disso o texto está ótimo, como sempre.

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  4. Se fossem boyzinhos da classe AAA também incomodariam. O negócio é a falta de respeito, é conseguir usufruir de um local público com interação e não inibir os demais com baderna. Querem respeito, mas não respeitam!

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  5. Olá,
    Primeiramente gostaria de dizer que gosto muito do site.
    Quanto aos tais Rolezinhos, acho que defendê-los como lindos encontros de jovens buscando lazer, é utópico. Estes jovens quando aglomerados beiram o vandalismo, e quando muito, impedem que outras pessoas de fato tenham seu lazer. Não há um relato destes encontros sem que algum prejuízo material seja causado. Isso nada tem a ver com reivindicação de direitos, mas sim com o tédio.
    Uso como exemplo esses mesmos jovens em estádios de futebol. Em praticamente todas as vezes temos brigas, cadeiras quebradas e ferimentos.
    Não isento a culpa do Estado. Mas um erro não justifica outro. Não podemos culpar as pessoas por terem dinheiro. Muitos deles (lojistas) trabalharam duro para conseguir sua “riqueza”. Eles estão em um espaço PRIVADO e tem todo o direito de proibirem algo que os prejudiquem. E convenhamos, 100, 200 jovens entediados em um espaço pequeno não é nada pacífico.
    Quero deixar claro que não sou nenhum riquinho (longe disso). Meus pais trabalharam duro a vida inteira. Somente acredito que centenas de jovens “cantando” e “se divertindo” é inocente demais com realidade. O próprio noticiário mostrou que lojas foram SAQUEADAS na saída do Rolezinho.
    Isso nada tem a ver com democracia ou direitos.

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    1. Assim como o sr. Diego Angeli, concordo plenamente no que disse.
      Na maioria dos “Rolezinhos”, resultam em depedrações, furtos e outros crimes,
      Um erro não justifica ao outro.

      Como disseram, gostaria de ver se a loja da mãe de algum dos participantes do rolezinho estivesse no shopping, ou se a própria mãe dele estivesse lá, como seria.

      Afinal em bandos sem um objetivo claro como um show por exemplo, e com o tédio, conforme disse muitos se exaltam e com isso já influenciam muitos outros para algo não civilizado.

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