Porquanto

como conhecer as coisas senão sendo-as?

Jorge de Lima

Após sair da sessão de Blue Jasmine (2013) encontrei uma conhecida estudante de cinema que ao saber que eu havia assistido à recente comédia de Woody Allen comentou: “Não vejo graça. Todos os filmes dele são iguais”. Confesso que fiquei triste com o comentário, pois mesmo com os incansáveis personagens neuróticos, as velhas piadas judias ou as crises do diretor com a psicanálise, eu sempre vejo algo de inédito e original em seus filmes. E Zelig (1983) é extremamente engraçado, repetitivo nas questões judias e psicanalíticas, com a trama neurótica-amorosa de sempre. E ainda assim, Woody Allen é extremamente original – e não seria a originalidade o ineditismo presente na repetição?

O filme é um prato cheio para quem se interessa por mentira e cinema. A partir de um conto do diretor, o filme narra a história de Leonard Zelig, ou o homem-camaleão, personalidade que ganha destaque em Manhattan por ter um comportamento que desvia do padrão. Leonard, sempre que entra em contato com outra figura humana, parece assumir sua personalidade, bem como sua fisionomia. Já aí temos uma história não tão comum de se ver, mas Allen vai além, e faz o filme como um falso documentário na qual mescla em preto e branco imagens históricas com colagem a partir do chroma key; depoimentos falsos sobre Zelig de figuras acadêmicas reais; além da falsa-metalinguagem de um mini documentário feito por uma das personagens, dentro do próprio documentário.

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Se a arte é feita da mentira… Se abusamos de metáforas, símbolos, analogias e assumimos coisas que não somos para poder assim dizer algo… Por que não assumir que estamos fazendo isso? Woody Allen brinca com a arte, nos faz acreditar na mentira nos mostrando que é mentira e consequentemente nos fazendo mentir! O espectador acaba criando uma nova obra de arte, a partir da mentira que o convém – e esta é uma nova mentira.

É muito bonito ver como ele comprova que forma e conteúdo são uníssonos – ainda mais se tratando de cinema – com o melhor humor possível. Seu personagem principal, Leonard Zelig (Woody Allen), começa a ser estudado pela Dra. Eudora Fletcher (Mia Farrow), que na tentativa de entender o comportamento camaleão de seu paciente acaba descobrindo que Leonard, para se sentir pertencente e ser aceito, usou da mentira para se incluir num grupo, em uma sociedade ou para “se ajustar à vida”. Zelig faz disso como proteção de si, mas acaba servindo de espelho para os demais, na medida em que reflete exatamente o outro ao outro. E nessa ânsia desenfreada de ser como o outro, a existência de Zelig é uma não-existência, em meio a tantas personalidades, fica diluido para Leonard qual é a sua própria. Colocando a mentira como uma vontade natural do ser humano, tanto o personagem – que se camufla de qualquer outra pessoa – quanto o filme em si – que se camufla de documentário – quanto o tratamento adotado pela Dra. Fletcher – mentir para Zelig, acreditando na mentira dele – nos leva com muito humor a colocar a ética como natural do ser humano. Não é mentindo, fingindo se colocar no lugar do outro, que podemos experimentar ser o outro, e assim poder olhar para nós mesmos? Assim foi – ou parece ter sido – com Leonard Zelig.

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Mas não é apenas assumir a mentira que faz Zelig se curar. A relação paciente – terapeuta entre ele e Eudora, acaba se transformando em uma relação amorosa, e é aí que ele não deseja mais ser anônimo, fingir ser outro, fazer parte de uma massa. E mais uma vez Woody Allen une amor e humor de uma forma nada autoritária, na qual o judeu Leonard, disfarçado de nazista, está num comício de Hitler, e quando vê sua amada na platéia, acaba perdendo sua força “camaleoa” e reassume sua identidade. A cena é hilária, tocante e muito reflexiva. Um filme destes, que brinca o tempo todo com a mentira – tanto em forma quanto em conteúdo – e nos faz pensar no que é a identidade, a ética, o amor e o autoconhecimento… Como não ver graça e achar tudo a mesma coisa? Se reencontrasse essa amiga estudante de cinema após ter visto Zelig talvez diria “É preciso mentir o cinema…”

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Quem sabe o que poderia ter acontecido se ele falasse o que pensava ao invés de fingir…

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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