Às voltas com o primeiro (e por enquanto único) disco das Memórias de um Caramujo quase dois anos depois de ter acompanhado a gravação no Espaço Cachuera!, me deparei com uma pequena canção do fim do CD chamada Vai Navegar.  Sem querer mudar de caramujo para ostra, mas foi navegando que encontrei esta pequena pérola, que me afetou grandemente e pela qual eu tenho um carinho imediato, como temos por uma história de infância.

Poucas canções tem a capacidade de arrastar o ouvinte para o seu interior, convidando-o a assumir o papel principal, mas com um simples tropicão essa canção nos coloca sob o foco de luz, encenando nada mais nada menos do que nossas frustrações. Não há introdução, não há preparo, não existe contexto, simplesmente “e você tropeçou…”. Estamos lá, eu e você, que não enxergamos a pedra no meio do caminho ou que apenas tropeçamos no cadarço.

Sem pedir permissão, violão, voz e baixo começam a falar de você e, pior, para você. Para quê lembrar-nos dessas pequenas falhas em nossas belas vidas? Seríamos vítimas de uma infestação de caramujos petulantes? Não, é só um pequeno conselho. Desses que ouvimos várias vezes, mas nunca cansamos de ignorar. É hora de baixar a guarda e tentar repensar o que é, de fato, deixar pra lá.

Antes de tudo, esta é uma música sobre o que desaprendemos. Desaprendemos a ver o ocorrido como um simples fato, como um evento triste e só. Fomos educados a pensar em todas as causas e descobrir o culpado de nossas aflições, que bobagem. Fomos é desensinados! De um simples tropeço, fazemos um complexo de mil causas malignas. Não queria usar palavrões, mas hei de lembrar mais uma vez a inocência do vir-a-ser. E acho que essa canção o faz de forma belíssima…

Devemos nos mover contra o ressentimento, contra o rancor que nos consome, contra aquela lembrança espinhosa que nos deixa impotentes. E como fazê-lo? Deixando pra lá: é receita dada entre canto e fala. Ao meu ver, o clímax da canção contém, ao mesmo tempo, a problema e a solução:

E a luz a apagou
Você ficou com medo
E o segredo que tava guardado fugiu

Deixa pra lá”

O pior dos temores – um segredo que escapa – o maior dos problemas. A questão curiosa é que este é (e não falo apenas de harmonia) o momento mais tenso da música, mas aprendemos bem que a maior das tensões encerra a maior das resoluções. É como uma corda tensionada que, ao ser solta, libera força. É o potencial elástico em música. Prepara-se esse momento de auge para em seguida solucioná-lo e a resolução se dá na palavra fugiu. Ora, que ironia. O problema é superado no mesmo instante em que acontece. Voltamos ao chavão o que não tem solução, solucionado está, mas um por um prisma muito mais melodioso.

 Finge que o mar tá calmo
ergue a vela
vai navegar”

Pois bem, deixemos para lá! Só depois disso conseguiremos fingir que o mar tá calmo. Ergueremos as velas e nos lançaremos mar adentro, sempre com o risco de dar de cara com um rochedo. Nesses momentos de frustração, vamos desabar. A questão não é bem essa. Devemos é repensar como é que vamos lidar com ela quando estivermos prontos para seguir viagem. Proponho que deixemos de lado as lembranças espinhosas e fiquemos com as memórias deste caramujo.

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Ouçam todo o CD aqui!

Acessem o site e o perfil da banda no facebook!

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

4 comentários

  1. Que riqueza.! Sou chata e tenho uma forte tendência a questionar tudo, mas não adianta, em muitos momentos, o melhor mesmo é deixar pra lá. Não gosto da ideia de fingir, porém, muitas vezes a solução é essa, é simples, a gente é que gosta de complicar tudo.

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