Um pernilongo veio em minha orelha ontem à noite e me acordou para conversar:

– ZZzzzZZZzzz… Boa noite!

– Boa noite nada! Você me picou e agora ainda fica na minha orelha?

– Isso? Ah, não foi nada… só peguei um pouco do seu sangue.

Cheio de raiva, tentei acertá-lo com o meu travesseiro, mas ele voou para longe dizendo:

– Foram só umas gotinhas, não reclame, dois litros de sangue e você fica resmungando por causa de algumas gotinhas!

– Eu sei, mas não gosto que me acordem à noite, e agora ainda está coçando! – realmente a picada estava coçando, tenho um pouco de alergia.

– Você não é o primeiro a me dizer isso. Nunca o homem foi tão frágil e tão sensível. Imagine que nossos ancestrais viveram por milhares de anos desta mesma forma, você consegue imaginar um neandertal chorando como você por causa de uma picadinha de nada?

– Não, mas eles não conversavam com pernilongos e não precisavam acordar cedo no dia seguinte! Além disso, não sou socialista para ficar dividindo meu sangue.

– Socialista? Não, ninguém falou de socializar. Você é tão pobre assim que não possa abster-se do desprezível? Seis litros de sangue, mas o homem sempre pensa através da perspectiva da falta. Vocês ainda não são ricos o bastante para se tornarem deuses.

– Como assim?

– “O homem é uma corda atada entre o animal e o além-do-homem – uma corda sobre o abismo” (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra).

– Não sabia que pernilongos conheciam de Nietzsche.

– Apenas o essencial, vivemos poucos meses, não temos tempo para nos dedicarmos integralmente à sua obra.

– E onde você quer chegar com isso tudo?

– “Que me importam meus parasitas? […] Eles podem viver e prosperar – sou forte o bastante para isso” (Nietzsche, Genealogia da Moral). Nunca ouviu falar de “o que não me mata me torna mais forte”?

– Já sim, até tenho um blog onde escrevo sobre Nietzsche. E acho que estou começando a entender…

– Um dia, deuses caminharão sobre a terra, vocês são o caminho que leva até eles. Estes novos homens (talvez nem poderemos chamá-los assim) não se importarão de esbanjar e multiplicar, ser generosos, e certamente não resmungarão por causa de umas gotinhas de sangue. Até lá, cabe a vocês estenderem a corda ao máximo. Hoje vocês só sabem guardar e conservar, ainda é muito pouco…

– Concordo, ainda é muito pouco… mas o que você está falando? Você é só um pernilongo.

– ZZzzzZZ… Pois é, você acha que meu tamanho faz de mim inferior. Mas minha vida me parece bem mais emocionante. Minha espécie está aí fazem 170 milhões de anos, lidando com criaturas colossais. Pensa um pouco, você pesa infinitas vezes mais do que eu, é praticamente uma divindade para meus padrões, e ainda assim eu te desafio e tomo o seu sangue enquanto você fica reclamando e não consegue deixar pra lá. Será mesmo que sou inferior?

Fiquei sem palavras, realmente, estava levando um sermão de um pernilongo. Tendo dito isso, o inseto voou pela janela, passei o resto da noite pensando no que se passou. Acordei no dia seguinte sem saber se tinha sido um sonho ou realidade, mas com uma picada de pernilongo na perna.

Nietzsche_1_c

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

3 comentários

  1. Ótimo texto, muito literário. Só achei curioso a ideia de socialista doar sangue, não sabia que a ideia de doar sangue veio dos socialistas. rsrs Brincadeiras a parte, parabéns!

    Curtir

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s