Difícil falar de um filme que ainda não terminou. “Nymph()manic vol I” de Lars Von Trier (Anticristo, Dogville) é sua mais nova obra cinematográfica, que estreou em meio a muita polêmica. Talvez o cineasta mais rebelde da nossa época, assim como fora Carl Theodor Dreyer (A paixão segundo Joana D’Arc), cineasta que serve de intensa referência para o dinamarquês Trier. E mesmo que, tomados pela ansiedade, estejamos sendo imprudentes ao falar de um filme que ainda não terminou, visto que é parado na metade – praticamente um coito interrompido – e tenhamos que esperar o vol II para saber enfim o que é este filme, há algumas coisas a se observar e, porque não, gozar.

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Trier, como de praxe, divide seus filmes em capítulos como se fossem livros. E exatamente como em um livro (não que necessariamente todos os livros sigam este padrão, mas foi exatamente assim que o cinema se baseou na literatura, no qual Griffith se apoiava em Dickens) a montagem de seus planos é completamente paralela. O que isso quer dizer? Acompanhamos a história de Joe (Charlotte Gainsbourg) e sua saga vazia de um vício por sexo, pois ela o relata (e então Trier confirma que sabe muito bem escrever uma narração) para um pescador, que relaciona a todo momento o sexo com a pescaria. Duas linhas paralelas são traçadas na montagem tornando-a quase didática. O diretor nos apresenta uma seqüência de plano A e B no qual: A)  se trata de um plano em que Joe narra sua saga sexual e seu ouvinte faz uma analogia reflexiva sobre a narração; B) um plano ilustrativo da analogia feita por ele a partir da narração dela, sem acrescentar nada novo. Assim, o filme se dá por texto (dado por eles) e uma imagem que ilustra literalmente o texto dado. A montagem fica neste ciclo vicioso A-B-A-B-A-B-A-B, não deixando espaço para colisão entre os planos A-B, que gerariam um C, Z, F. E assim é o filme, o tempo inteiro. Duas linhas paralelas que jamais se tocam, apenas se relacionam distantemente – talvez isto se deva ao fato de que Joe e seu parceiro sexual da vez também sejam duas linhas paralelas que jamais se encontram. Esse didatismo resultante de uma montagem paralela, é esgarçado ao máximo quando vemos números, gráficos, setas, bonecos, e tudo o que temos direito para explicar (ou ilustrar) a narração.

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Os “paralelismos” na montagem são igualmente cansáveis aos “paralelismos” na história: bem ou mal; homem dominador e leopardo; amor e Bach; boceta e isca; religião e pecado; enfim, o tempo todo somos bombardeados de dois opostos, ou dois complementos, mas é sempre dois. Raras as exceções em que os planos, juntamente com o texto, dão uma colisão e nos levam a uma montagem de justaposição, que aí sim nos levanta da cadeira. Para mim, o clímax é justamente o fim do filme (ou talvez o meio, contarmos com a segunda parte) em que a personagem tenta pela primeira vez fazer sexo com amor. Aí sim, e pela primeira vez, a tela é dividida em três, temos encontro de imagem, movimento e som. E sim, chegamos ao orgânico de um filme. Espero que o segundo filme seja daí em diante, para poder tornar verdadeiro o argumento de Trier.

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Se quer falar de uma mulher vazia, que usa o sexo para matar suas angústias e dores, ilustrando o que Bataille diria de que o orgasmo é sempre uma nova morte, é até coerente um filme assim, tão paralelo, tão seco e pouco sintetizante (entendendo sintetizante não como reducionista, mas como a criação de uma terceira via, não conclusiva, mas resultante de uma colisão de tese e anti-tese). Claro que de fato esse tipo de montagem orna com os sentimentos da protagonista, ornando também com o argumento da sexualidade vazia como forma de escape. Mas ainda assim, poderia ser diferente. Poderíamos sair do entretenimento e ir para o novo, o colidido, o pathos. Porém, para dar sentido a esse vício por sexo, e a curva de uma personagem – se ela enfim encontrar o amor, ou qualquer outra coisa que lhe dê mais sentido ao vício – é necessário que a montagem se transforme, que as linhas paralelas até então traçadas se cruzem, ou se preferirem assim, transem.

Como ainda não temos a segunda parte para contemplar o filme inteiro… também não ficaremos apenas com o que temos. Mesmo sendo um bom entretenimento: com atuações aconchegantes, e destaque para a impagável Uma Thurman que nos faz rir e depois se lamentar de ter rido, quase num gesto de des-culpa; com uma trilha provocadora; com uma trama de competições envolventes; com um humor ácido e por vezes doentio – e aí talvez nos aproximamos cada vez mais e nos reconhecemos no filme. Mesmo com tudo isso, não nos basta um entretenimento, pois nele não há o novo. E mesmo sendo um filme no qual entramos na história e acompanhamos aqueles personagens como se fossem reais – e então não há como tirar este mérito do diretor e seus atores – devemos tirar algo disso tudo. E então parto para uma síntese nossa, do telespectador, a partir do filme – já que este por enquanto não o fez.

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Que terceira via nós criamos a partir da dualidade imposta no filme? Que devir nos cabe ao experimentar “Nymph()maniac vol I.”? Qual a Vossa Ninfomania?

Se pensarmos o vício como um ciclo que jamais se fecha, se repetindo sem inovação, dando-nos ilusão de movimento e consequentemente de vida… Ora, temos diversos vícios, tão vazios e insensíveis quanto o de Joe. E nesse ciclo ininterrupto há pouco espaço para o novo e para a criação. Vejamos os vícios das saídas noturnas aos finais de semana, na qual é praticamente mister beber e procurar parceiro. Se já há parceiro, busque diversão nas músicas. Muitos levam este pequeno germe do vício ao extremo – tanto em parceiros, quanto em bebida, e igualmente em freqüência. Não seria uma forma de escape? Uma ilusão de vida que nos leva a um sofrimento sem nome por consequência? Uma apatia na criação?! Como podemos então quebrar o ciclo, sair do novo, perder os vícios e gozar, enfim, a vida?

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Há diversos outros exemplos a ser pensados e que poderiam ter sido fruto de uma montagem mais provocativa advinda do filme. Mas este não teve. Ou melhor… Ainda não teve, o que faz de “Nymph()maniac vol I.” um filme morno, incompleto… e de fato está incompleto! Resta-nos aguardar para acompanhar o resto do ciclo – ou, por favor, uma abertura do mesmo – de Joe.

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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