Ser contemporâneo é conseguir ver a sua própria época. O filósofo italiano Giorgio Agamben problematiza três pontos que vejo como capital para caracterizarmos um local privilegiado do qual possamos ver o contemporâneo. O primeiro ponto está relacionado com o anacronismo, o segundo ponto trata de um jogo de luz e sombra e o terceiro é uma relação com o arcaico. Todos estes três pontos vão distinguir o que é estar na atualidade, caracterizando-a de uma forma transhistórica, da qual teríamos então condições de fazer perguntas como: Quem são os contemporâneos em qualquer momento histórico? Quem são os contemporâneos da pós-modernidade?

"Glass House" do arquiteto Philip Johnson. Uma importante referência do pós-modernismo na arquitetura, área em que primeiro surgiu a discussão sobre a superação da modernidade.
“Glass House” do arquiteto Philip Johnson. Uma importante referência do pós-modernismo na arquitetura, área em que primeiro surgiu a discussão sobre a superação da modernidade.

Para ser contemporâneo Agamben marca um movimento, é necessário ter uma posição com relação ao presente, um anacronismo, estar um pouco fora de foco. De acordo com Agamben: “é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com aquele, nem se adeque a suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual. Mas, justamente por isso, a partir desse afastamento e desse anacronismo, é mais capaz do que os outros de perceber e de apreender o seu tempo”. Trata-se de uma posição singular em que se está no tempo, o aceita, mas também se afasta dele, exatamente para obter um olhar mais privilegiado. Nesta primeira definição positiva, também achamos o seu negativo, ou seja, sabemos o que não é contemporâneo – não o é aquele que está totalmente imerso em seu tempo, pois não tem a possibilidade de ver as luzes e as sombras de uma época, de compará-las com outras.

O segundo ponto que Agamben coloca é uma reflexão sobre o que ele chama de  relação de luz e sombra, luz e obscuridade. Se, em primeiro lugar, ser contemporâneo era apenas não estar totalmente sincronizado com o presente, para então termos um olhar privilegiado do mesmo, agora podemos ver algumas luzes e sombras. É este o motivo do anacronismo, poder sair de um ponto somente de sombra ou de luz. Contudo, Agamben faz uma leitura do contemporâneo respondendo indiretamente a pergunta: Quem são os contemporâneos da pós-modernidade? Pois as Luzes para Agamben se tratam também do projeto do iluminismo, a força da razão na sua tentativa de esclarecer tudo. Mas sabemos que o projeto iluminista fracassou em grande parte, a razão mostrou o seu lado frio. A tarefa do pós-moderno para Agamben seria ainda ver os danos que esta luz causou, e para isso teríamos que ver o cinza, o obscuro mostrado nos campos de concentração, o obscuro das minorias. Entretanto, se nos perguntarmos Quem eram os contemporâneos do Iluminismo? O jogo de luz e sombra, o jogo de poder agora é outro. A luz opressora neste momento é eclesiástica e não iluminista. Luzes e sombras são metáforas, vê-las é enxergar relações de poder, e por isso se torna necessário não deixá-las somente para uma análise do pós-moderno. E talvez seja por isso que Agamben não cita explicitamente o iluminismo, ele simplesmente nos induz a pensá-lo. A dualidade da luz e da obscuridade permanece então transhistórica e como possibilidade de compreensão do que é ser contemporâneo em diversas épocas.

A última relação que saliento sobre Agamben é a respeito do arcaico, do início, da origem. Pois é desta relação com o arcaico que me surge a pergunta: Devemos cortar a língua dos mortos ou deixá-los falar? A resposta de Agamben para esta pergunta seria um sim bem sonoro, deixe-os falar, pois o conhecimento do presente para ele se dá via arqueologia. É necessário deixar a língua do cadáver intacta, para que escutemos a sua voz. É necessário ver o passado, ou melhor, é necessário sentir o passado, que na verdade não passou, ele está em nós como uma criança ainda permanece na vida psíquica do adulto. A arqueologia de Agamben diz respeito à seleção de brinquedos, de cenas de uma infância, de ferramentas, que o adulto deve recordar para entender o seu presente. O filósofo Michel Foucault brincava com a história, ao escrever livros como “O Nascimento da Clínica”, “História da Loucura” e “Vigiar e Punir”. Tratava-se de rever o passado de forma seletiva, buscar obscuridades e então ter um conhecimento que operasse no presente (história presentista). Contudo, outra atitude possível é a de cortarmos a língua dos nossos mortos – enterrá-los de forma a não mais ouvir um eco. E talvez esta atitude hoje em dia seja a mais comum, o vencedor na história mutila o vencido. E diante da história dos vencedores temos outras histórias menores, outras formas possíveis que estão caladas, outras perspectivas de realidade sepultadas. Torna-se imprescindível redimir os mortos, para a nossa própria redenção.

Françoise et Paloma, Picasso : Cenas de uma infância ..
Françoise e Paloma, Picasso : Cenas de uma infância ..

Dizíamos que ser contemporâneo é ver a sua própria época, mas neste momento nos achamos em um modo bem peculiar de estar com relação ao contemporâneo. Pois, este afastamento que nos permite ver o obscuro, as sombras, assim trazendo e produzindo uma memória, também cinde o tempo em momentos, o nosso afastamento e o nosso presente. E voltamos a este presente, mas não voltamos sozinhos e sim com algumas vozes em off. Com este anacronismo talvez não seja mais possível deixar de dar atenção para aquelas vozes, para algumas falas. Neste momento, o ser contemporâneo ganha um caráter político, ao filiar-se a determinadas vozes, a determinados mortos, pois uns estão em covas rasas e outros cadáveres quase eternizados no mel.

Escrito por Rafael Leopoldo

"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Manuel Bandeira

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