O filme de Daniel Filho é fruto de um seriado homônimo que fez muito sucesso há exatos vinte anos atrás. Maria Mariana filha do cineasta Domingos de Oliveira escreveu – a partir dos seus diários de adolescente – um livro, que logo depois virou o seriado da TV Cultura.

A fama foi tanta, que a jovem talentosa autora acabou trabalhando na redação de diversos programas infanto-juvenis: Malhação (1998, 2007, 2008 e 2009), Sítio do Pica-Pau Amarelo (2002), entre outros. Agora, vinte anos mais tarde, a autora e o diretor do seriado e do filme, precisaram atualizar a linguagem – textual e fílmica – para uma adolescência cada vez mais seletiva e aprisionada nas tramas adolescentes norte-americanas. Na questão cinematográfica, o diretor abusa de filmes com depoimentos curtos e do efeito de facebook na tela, bem como de uma montagem de ritmo acelerado e músicas atuais que expressam os sentimentos intensos dos jovens melodramáticos.

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E os dois mostram conhecer bem o público que estão lidando. Apesar dos temas vividos pelas quatro adolescentes que protagonizam o filme, serem quase os mesmo vividos pelas protagonistas de vinte anos atrás, a forma de lidar com estes conflitos mudou – e muito. Acompanhamos a história de Tina (Sophia Abrahão) a irmã mais velha dentro de quatro, que vive a angústia do primeiro emprego, de morar sozinha, e de buscar a independência. Se fosse um seriado, com certeza isso seria mais abordado – como de fato já o foi – mas como é um filme, o que interessa na personagem é seu longo relacionamento com o riquinho Lucas (Hugo Bonemer). Acompanhando a história da garota desde seu primeiro beijo, e o nascimento da sua paixão pelo Lucas, até o fim do namoro, nos deparamos com um típico relacionamento de filme. E é. O diretor brinca com a metalinguagem, ao retratar a sala de cinema como um bom lugar para os primeiros beijos e encontros, e Tina e Lucas ainda pequenos estão lá vivenciando isso, enquanto a Tina já crescida é quem está na tela do filme. Cada vez mais a juventude procura no cinema seu grande amor. A mídia dita os sentimentos que vamos consumir. Não é à toa, afinal os maiores livros/filmes/seriados vendidos contam histórias de romances impossíveis, inacabados, perfeitos e todos utópicos. E os adolescentes que consomem essa ilusão do que de fato é amor, não são capazes mais de enxergar o outro, afinal, a sala de cinema é bem escura, não? Só enxergamos as projeções…

Não distante disto, a irmã Alice (Malu Rodrigues) vive a adolescente que quer perder a virgindade mas tem medo. O que poderia ser um clichê – e muitas vezes o filme cai no clichê, para se aproximar do público jovem – acaba sendo uma história divertida, inusitada e muito provocativa. Alice e Marcelo (Christian Monassa) desde o começo do filme estão tentando ter sua primeira vez. O menino que tem que tomar as rédeas da situação, no primeiro encontro coloca um terno, prepara um jantar e recebe a namorada em sua casa. Claramente os jovens estão cada vez mais assumindo um papel – ilusório – de adultos. A primeira vez não dá certo, nem a segunda – na qual são pegos pelo pai de Alice, o advogado Paulo (Cássio Gabus Mendes). Eles apenas conseguem realizar o ato sexual quando ambos pensam em algumas figuras para poderem se soltar na hora H. A menina coloca os símbolos sexuais produzidos pela mídia para poder relaxar, e se imagina transando com Thiago Lacerda Caio Castro. Ele, que por conselho do primo deveria ir com mais calma, pensa na professora XXXX. É… A obrigação de perder a virgindade quando todos já perderam, nos fazem transar com nossos desejos platônicos. A menina começa a sentir o mundo de outra forma, e descobrir que todas as pessoas que ela encontra na rua, fazem sexo. Mas claro, o prazer acaba quando eles descobrem que ela está grávida… E então temos aquela velha e conhecida história do casal de adolescentes na crise de ter engravidado.

Se nas duas histórias acima vemos muita sexualidade, com cenas de nudismo heterossexuais feitas com uma naturalidade ímpar, a história da terceira irmã, Bianca (Isabella Camero), é um desastre. Desde o começo do filme, ela vive um relacionamento “fantasma”, pois todas as amigas ouvem falar, mas ninguém vê o cara. De início já entendemos: é um relacionamento homossexual. E com tantos filmes estrangeiros que abordam esta temática (os mais recentes: Azul é a cor mais quente Minhas mães e meu pai) o cinema nacional cai na hipocrisia também feita na televisão: enquanto as cenas heterossexuais estão cada vez mais explícitas e quentes, as homossexuais estão sempre dentro do armário. No caso de Confissões de Adolescente fica dentro de um banheiro da escola, no qual Bianca usa para falar ao celular com a namorada. Ainda assim, a personagem é palco de outros temas da adolescência: o bullying, a indecisão do que fazer de faculdade, e o desejo pela popularidade. A sua melhor amiga é loira, de olhos verdes e quando é traída pelo namorado perfeito, com a estranha que ela sempre praticou bullying, a personagem no entrega de presente a definição de adolescente:

“Eu estou no auge da minha vida, quando eu envelhecer ninguém mais vai me querer. Eu sou linda, popular, namoro o menino que todas as meninas queriam namorar, e todas as meninas queriam ser igual a mim”

A frase pode não ser exatamente assim, mas diz exatamente isso. A adolescência não é só um estágio do desenvolvimento humano, mas um desejo social: os adultos querem ser jovens – e fazem plásticas, enamoram pessoas mais novas, tentam seguir as modas da juventude – e as crianças querem logo se tornar adolescentes.

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E não é diferente com a caçula Carina (Clara Tiezzi). Representando a futura geração de jovens, ela ganha dinheiro trabalhando com tecnologia. Ajudando os mais velhos a lidar com toda a parafernália que nos consome diariamente: celulares, music players, laptops, etc, ela vai ganhando um dinheiro aqui e outro ali, para ajudar o pai a pagar o aluguel do apartamento. Tão adulta ela é que, além de trabalhadora, não acredita em vampiros. Aqui, Daniel Filho faz a cena mais cômica do filme, na qual o garoto apaixonado por Carina, finge ser o vampiro Edward, da série de sucesso Crepúsculo, e na porta da escola ele reproduz a cena de sucesso do longa norte-americano, na qual o vampiro salva a mocinha de um acidente de carro. Claro que vira uma grande palhaçada, pois ao invés de um carro é o amigo de bicicleta, e ao invés de poderes sobrenaturais que salvariam a mocinha, o menino na bicicleta acaba se estatelando no chão. Mais uma vez, referência a conquista amor ligado às imagens que nos são vendidas.

Então resta-nos algumas reflexões: O que mudou em vinte anos? O que há de diferente na adolescência dessas quatro meninas de idade distintas? O que é tabu na adolescência e no cinema? O que estão fazendo com nossos jovens, e como eles serão quando adultos? As atrizes que fizeram adolescentes na versão de 1994 (Deborah Secco e Daniele Valente, por exemplo) fazem as mães neste filme. E elas claramente não sabem lidar com os filhos. As gerações estão cada vez mais distantes umas das outras, e vinte anos de história é tempo suficiente para o nascimento de outras linguagens. Pais e filhos não sabem dialogar, talvez por mensagem, sms, whatsapp… mas não são capazes de dialogar. Será que algum dia foram?

dseccoMas além de tudo, um seriado, um filme, a arte. Será que ela consegue por assim dizer, criar uma linguagem una que faça pais e filhos minimamente se entender?! Será que os adolescentes que verem o filme, vão apenas rir dos clichês e os pais vão apenas criticar os comportamentos?

Qual é, de fato, o cinema adolescente?

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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