Estava eu sentado confortavelmente no parque Trianon. Com meu violão em mãos, me sentia um verdadeiro representante do arcadismo. Nada poderia me tirar aquela calma que se conquista apenas depois da terceira ou quarta música, onde se sente a felicidade de não pensar em nada, ou melhor, pensar com as sensações, exatamente como Alberto Caeiro nos ensinou.

Mas eis que me surge, no segundo ato, meu nêmesis. Sou surpreendido por uma figura quase mitológica chamada “Iphone”. Com sua fome insaciável por barulhos, chamadas, gadgets, Wi-Fi, avisos sonoros, “interatividde”, “praticidade” e o pior de tudo, sua manifestação mais cruel, a sede insaciável por fotos. Como Cronos que comeu seus filhos, o Iphone se usa de nós, pobres humanos, para satisfazer sua fome por fotos. Para ouvidos leigos isso pode parecer exagero, mas os mais renomados mitólogos descobrem a cada dia a capacidade extraordinária desta divindade.

Meu momento bucólico corria risco! Vinha em minha direção esta sacerdotisa do deus Iphone, prestando homenagem a ele, sacrificando todos os momentos em honra de sua benção. Cada foto tirada, cada foco ajustado, era um passo a mais em minha direção. Não tinha escapatória, depois de alguns momentos, seria apenas eu e ela, como dois cowboys em uma cidade abandonada.

No começo eu fingi que não vi, a música que tocava me agradava tanto que resolvi fechar os olhos. Mas quando abri, notei sua presença, ela estava do meu lado, me observando atentamente, examinando meus movimentos. Sinceramente, achei que escaparia, mas minha ilusão durou pouco: ela mirou sua máquina divina para mim e “click!”. Senti que parte de minha alma ia embora, como os japoneses que não tiravam fotos com medo de perderem seu espírito.

Como se não bastasse, pediu a um simples transeunte que tirasse uma foto dela, “é só apertar aqui, é muito fácil”. Veio caminhando em minha direção, poderia dizer que ficou a uns míseros dois passos de distância. “Click!”, pronto, estava feito, novamente parte de mim havia sido extirpada em holocausto ao deus Iphone. Esquartejado, não tinha forças para reagir, me sentia como um animal imolado que é deixado sem vida em um canto.

Mas seria mentira dizer que o Deus Iphone se contentaria com a essência de um modesto e tão discreto violonista no parque Trianon. Não, ele quer mais, sua fome por momentos é insaciável, ele consome o devir em nome da forma. A sacerdotisa foi embora, sem nem ter ouvido uma nota que meus dedos assustados tiravam de meu singelo violão.

iphoneworship

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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