“Um dia me perguntaram o futuro do cinema. E eu fiquei sem resposta. Mas hoje posso afirmar que enquanto houver vida, haverá cinema. Pois a vida não existe sem história, nem a vida faz sentido sem suas histórias pra contar. E o nosso dever de exibidor é levar essas histórias dos cineastas, que são contadores de histórias, para as pessoas que querem se emocionar com essas histórias.” Francisgleydisson

O filme cearense “Cine Holliúdy” de Halder Gomes retrata bem a difícil situação do cinema independente brasileiro. O cinema sem patrocínio, dos artistas não reconhecidos, que lutam – e como lutam! – para fazer sua arte. Um governo tão mesquinho e que destina suas verbas culturais, suas leis de fomento e de apoio à cultura a uma repetida classe desbravadora da cultura vazia. E o herói do nosso filme, Francisgleydisson, é o personagem que luta o tempo todo para construir um cinema numa cidadezinha do Ceará, lutando inclusive contra a televisão posta na praça. O filme, infelizmente, se perde no decorrer da história e o herói consegue – com facilidade e imaginação – atingir seu objetivo. O diretor acaba deixando passar alguns pontos que poderiam ser mais abordados, como a esperança nas crianças, a luta da televisão contra o cinema, o coronelismo no âmbito do patrocínio… Mas tudo bem, isso é desculpável quando se trata do humor e a linguagem cearense.
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Já viram filme com legenda? E filme brasileiro com legenda? Pois eis que há um filme brasileiro de linguajar pouco entendível – o “cearês” – que precisa ser lido para ser reconhecido. Ora, triste não? A sacada de legendar em português um filme em português é só para nos lembrar o quão submetidos à cultura norte-americana nós estamos. Não para por aí. Halder usa outros filmes, curta-metragens feitos por ele e os legenda (ou dubla). Porque não importa. Muitas vezes o público só quer ser enganado e nem se importa que isso ocorra tão descaradamente. Em “Cine Holliúdy”, as exibições de curtas apresentados na praça, projetados numa rede de dormir, os personagens falam palavrões e a dublagem conta uma história outra. Censura? Sim, somos constantemente censurados pelo Cine Hollywood, que nos cega e impede de ver o que de fato está na tela.
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E como Halder tenta driblar tudo isto? Fazendo uma montagem extremamente condizente com o linguajar cearense. E não é que o Ceará e os filmes de Hollywood tem muito em comum? Em ambos o ritmo das colagens de plano a plano é rápido, trazendo uma composição fugaz e dançante. Os cortes são velozes, as vezes tão rápidos que nos perdemos. É assim lá, é assim aqui. Mas o motivo de ser aqui assim, é que os cearenses falam com uma rapidez que de fato nos fazem nos perder. Nada mais próprio de uma obra de arte que transpor a forma de pensar do seu povo para a forma de pensar sua arte. Agora, por que os norte-americanos apostam em cortes tão rápidos? Talvez para o espectador não respirar, não refletir, não pensar, não degustar, mas consumir. Bom, fiquemos com Holliúdy ao invés de Hollywood. Não que o “Cine Holliúdy” seja uma completa obra de arte, mas é uma completa denúncia a um tipo padronizado de cinema (visto que há muitos diretores de lá que fogem a este padrão) que submete os filmes à uma indústria, assim como submete a arte ao entretenimento, e talvez essa seja a maior denúncia deste filme brasileiro. Não uma denúncia lá, ao norte, mas aqui ao Brasil. Há tantos filmes brasileiros feitos para entreter, somente entreter, e cegar o povo da reflexão desenfreada que a arte proporciona que, para ver um “Cine Holliúdy”, só com legendas mesmo!
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E os efeitos especiais? Ué, não estamos assim tão atrás. Se falta capital, imaginação não nos falta. Mais uma vez, o cearense sonhador cria o efeito que quer, porque é um cinema que conta história e quem tem história pra contar dá um jeito de deixar especial. Lá na terra do tio Sam, não… o efeito é especial, pra rechear um filme nada especial. Por que é que precisamos de um King Kong tão grande, que sobe no Estado do Império, se temos um pequeno macaquinho que se diverte em cima do pôster que diz o filme que passará?
“O cinema é um modo divino de contar a vida.” Federico Fellini
Precisamos apostar mais em Holliúdy. O padre, o bêbado, o casal de namorados, o gay, o gordo, o cego, o brega, as crianças, os militares… Todos personagens… Todos caricaturas… Todos cearenses… Todos brasileiros. Lá no Cine Holliúdy, eles são platéia do cinema de Francisgleydisson e vibram juntamente com o que a tela expõe. Cada soco, cada luta, é igualmente sentida em uníssono pela platéia. E quando o projetor falha?! Vamos contar história! Improvisar, compôr. Lutar contra si, dar tapas em nós, jogar no chão, pegar as bolas e mandar pro povão… pra que não sejamos o palhaço do lado de fora, que fica vendo só pela frestinha.
A cena descrita acima é sem dúvida o auge do filme. É aquilo que Eisenstein chamou de patético, ou pathos, quando o filme atinge sua organicidade máxima. Todos os componentes cinematográficos: luz, cenário, atores, câmera, montagem, direções, etc, estão em tão completa harmonia que o que é visto transcende os sentidos. Vai além da visão, além da audição, e nos preenche de emoção. É isso que faz do cinema ser uma obra de arte tão única: ela dança com as demais artes e chega em nós, espectadores, de uma forma única e patética. Este transcender a tela – que é literalmente encenado com Francisgleydisson e literalmente encenado com a recepção da platéia do cinema – deve ser revitalizado no cinema… Sair dessa submissão capitalista e industrial em que o cinema cada vez mais se coloca. Menos bilheteria, mais bofetaria. É preciso trocar cada vez mais o entretenimento pela arte… Não há preço de ingresso que cubra o valor de um filme que sai da tela e chega em nós. Não há. E é preciso muito mais disso… Pois só a arte nos salva!
Tomie Ohtake - Sem título,1996
Tomie Ohtake – Sem título,1996

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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