A fotógrafa Markéta Luskacová passou por várias temáticas, contudo algumas características não são deixadas de lado, como uma fotografia poética, com uma atmosfera religiosa em sua maioria, mesmo que em uma religião sem deus. A questão do tempo está em diversas fotos e explicitamente na fotografia chamada Edward with clock. Mas pode-se perceber o tempo também nas suas diversas fotos de crianças. Luskacová em suas imagens deu um maior valor às fotografias em preto e branco.  A sua preferência é com relação às sombras e a obscuridade.

Edward with Clock

Pode-se ver esta obscuridade em suas fotografias, na complexidade de sentimentos que suas fotos nos mostram. Primeiro temos uma dualidade, ela de fato parece brincar com o que é familiar e estranho a nós. As fotografias que geram mais sentimentos são as que ela mostra os funerais, mas também temos uma complexidade de sentimentos em fotos como People around a fire, na qual fotografa moradores de rua, na Inglaterra de 1976. Este incômodo que podemos sentir nos remete à tentativa de não fotografar seres genéricos, mas sim de estar junto a singularidades e então nos depararmos com sentimentos como compaixão, tolerância, integridade, solidariedade.

People around a fire

Contudo, não é somente um homem em sua singularidade que ela fotografa, mas também um momento singular. Luskacová procurou fotografar momentos que estavam prestes a desaparecer. A fotografia então surge como uma ferramenta, para gravar uma voz e fazer lembrá-la. Ela fotografou muitos peregrinos, funerais, procissões, moradores de rua, crianças. Fotografias de momentos fugazes e deste momento ela procurou não algo decisivo, mas um momento de verdade. Basta vermos as fotografias Pilgrims on St. Patrick’s Mountain ou Children in a playground IV para termos uma ideia do cuidado com a fotografia. Luskacová nos conta que para ter este momento, às vezes demora horas, semanas ou anos, mas cria as melhores fotos.

Pilgrims on St. Patrick’s Mountain

Estes momentos que Luskacová nos fala me interessa, pois estão ligados a este estranho tempo de suas fotos, de momentos que estão prestes a desaparecer, mas que ela restaura. Este restaurar já não é mais o momento, ele tem uma função. Esta função é nos fazer ver e escutar determinadas vozes em off, determinados murmúrios. Ela fotografou os esquecidos: a criança, o homem de rua, a procissão, o peregrino. Luskacová afilia-se a algumas vozes que não fazem parte da história dos vencedores, ela recria um mundo com imagens. Quando a sua obra foi criticada por um excesso de religiosidade ela pareceu ter dito “vocês não me entenderam”, pois ela afirmou “minhas fotografias não são somente pessoas praticando religião, são testemunhos da integridade humana”. Somente é necessário evocar palavras como integridade humana quando esta integridade é ameaçada – Luskacová nos remonta a esse mundo fazendo sair vozes daquelas imagens.

Children on the playground IV
Children on the playground IV

Escrito por Rafael Leopoldo

"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Manuel Bandeira

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