PM continua operação na cracolândia em SP

– por Marcos Amaral

Esse texto é uma chuva de sensações, de compreensões que ainda estão desajustadas na minha cabeça.

Hoje (15/02) tinha uma manifestação marcada para acontecer na Cracolândia, que teria na verdade um caráter de debate sobre a truculência da Polícia do Estado de São Paulo na região no dia 23/01 , após a prefeitura começar a trabalhar com o projeto “Braços Abertos”.

Eu fui para a Cracolândia. Cheguei à estação Júlio Prestes da CPTM e perguntei a um funcionário onde ficava a Rua Helvetia, rua marcada para o encontro dos manifestantes. Fazia algum tempo que eu não ia para aquela região, e para não ficar perdendo tempo andando até encontrar preferi perguntar. Quando fiz essa pergunta ele franziu a testa, me encarou nos olhos. Eu repeti a pergunta, e ele me forneceu a rota. O céu estava cinza e logo começou a garoar. Logo que vi o tempo pensei que não ia acontecer manifestação ou debate. Mas segui meu trajeto.

A rua fica do lado direito da estação. Eu me lembrei que geralmente vou para o lado da Santa Efigênia, que aquele lado da rua marcada para o debate ou manifestação era mais frequentado por mim nos finais de semana da virada cultural. Logo que sai da estação um carro de polícia passou por mim, numa questão de minutos entrei na Helvétia e acho que compreendi a testa franzida do homem que me forneceu a informação. No começo da rua tinha uma ambulância, que acredito ser do projeto da prefeitura. Era uma rua pequena, e havia alguns carros de polícia na rua. Estranhei a quantidade de carros de polícia e de policiais. Eu contei cinco carros. Fui andando pela rua, nenhum policial olhou para mim. Eu que, infelizmente e por uma série de motivos, tenho um pouco de medo de passar perto de policiais não senti nada. Eles não me olhavam. Continuei caminhando e no fim da rua encontrei garis, agentes comunitários de saúde (que contei serem quatro), do meu lado direito os usuários de drogas e do lado esquerdo pessoas comuns (sic) ao lado de religiosos, no fim achei que eram todos religiosos. Havia uma caixa de som, ouvi um “Meus irmãos”. Depois ouvi um dos religiosos dizendo a um homem “Eles sabem muita coisa, a gente pensa que eles não sabem nada, é nosso preconceito”. Vi policiais se aproximando, senti medo. Ouvi os religiosos falarem entre eles “Pra onde nós vamos?”.

Eu apenas observei, eu não consegui falar com ninguém, me esqueci do motivo de estar ali naquele momento. Só consegui observar e me encher de indagações. A rua parecia, uma única rua, um jogo de poderes. Tive a sensação que os usuários queriam ocupá-la, ficar ali. Os policiais não queriam deixar. Por mais sensacionalista que possa parecer, não consegui não pensar numa guerra, eu vi a prática da famosa “guerra às drogas”. De um lado os policiais, com seus carros, suas armas de fogo, do outro, pessoas vulneráveis, coberta com cobertores molhados, nitidamente frágeis. Os policiais de um lado, os usuários do outro. Os policiais cochichavam entre si, os usuários também, os religiosos também, os agentes comunitários também, cada um permaneceu no grupo que se identificava. Parecia que ninguém falava a mesma língua. E ninguém se importava com minha presença, naquele momento eu era o invisível e não os usuários, os usuários estavam ali protagonizando.

Pensei na vontade boçal da sociedade (e do governo do Estado) de esconder e afastar os usuários de perto. Eu confesso, é muito difícil olhar. Faz mal pra quem vê. E me fez mal porque me senti, enquanto ser ativo de uma sociedade doente, responsável por aquilo que vi. Tentei compreender os motivos de tanta gente querer esconder os usuários, não ver, afastar, trancar…

Que todos nós usamos droga é uma verdade incontestável. Bebida alcoólica, cigarro, remédios… E se as pessoas refletissem um pouco, eu acho que o nosso uso particular pode nos aproximar do ser humano que usa de forma abusiva o crack. Não, não é um absurdo… eu sei que cada droga tem um efeito diferente, uma forma de criar dependência particular, mas se todos nós usamos droga isso nos aproxima, a todos, sem exceção. Mas, olhar para um usuário abusivo de crack e se identificar deve ser um absurdo. “Porque ele é sujo, feio, não se controla, ele é fraco” Sim, tanto quanto você, tanto quanto eu.

Tem uma frase do Bauman que eu gosto muito “À partir do momento em que o Outro me olha, sou responsável por ele” e nós não queremos ser responsáveis pelo usuário de droga. Porque na verdade não queremos ver o quanto somos frágeis, sensíveis, o quanto o nosso cobertor é molhado. É difícil olhar para si, dói, é mais fácil criticar o “feio” e afastá-lo, porque assim não olhamos o quanto horríveis nós somos.

Do mesmo jeito que temos potencialidades, os usuários também têm. Do mesmo jeito que tentamos nos superar, eles também tentam. Cada um lida com seus problemas de uma forma particular. A rua é de todo mundo e precisa ser ocupada. O uso abusivo precisa ser cuidado, mas sempre pensando na autonomia do sujeito. Você não tem autonomia? O Outro também tem o direito de tê-la. Enquanto olharmos para o Outro sem nos identificarmos com ele, fica difícil discutir qualquer política pública de saúde.

Ir para a Cracolândia me encheu de fôlego para militar e lutar por uma sociedade mais justa, com indivíduos autônomos. Ir para lá doeu… e eu espero sentir essa dor enquanto as coisas estiverem desajustadas.

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

3 comentários

  1. Um dia um imbecil colega de sala falou “Eu já pensei assim, já quis mudar o mundo. Hoje eu prefiro juntar meu dinheiro e prezar pelo meu conforto.” Deu esta fala em resposta a uma fala minha de indignação social. Não é à toa que eu não gosto dele, e considero você Marcos, meu irmão! É você, que sofre porque vê, que me faz levantar da cadeira e seguir em frente. Muito obrigado pela coragem de ser humano…

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  2. Obrigada pela façanha de não se opor á informação. É incrível vermos que a popularidade de quem tem a palavra esta crescendo e ganhando voz. Ainda me admiro quando leio textos como o seu, onde colocam o que pensam e sentem, sem medo de ser subjugado. Digo mais, ainda acredito que pessoas como você, como eu, iremos mudar “o mundo”, se não, pra que serviria falar ou ainda pensar? Se não podemos acreditar, então, como lutar?

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  3. Ótimo texto, apesar de acreditar ter sido esta frase “De um lado os policiais, com seus carros, suas armas de fogo, do outro, pessoas vulneráveis, coberta com cobertores molhados, nitidamente frágeis.” desnecessária.

    A rua é de todos, porém, da mesma forma que nos “rolezinhos”, a ameaça e a violência que circundam a presença dessas pessoas inibe o direito delas de estarem ali. Na USP podemos olhar GRANDES concentrações de pessoas utilizando drogas, da mesma maneira, elas tem o direito de estar ali. Em contrapartida, elas não causam a ninguém medo ou insegurança em se aproximar.

    Todos usamos drogas, mas todos somos obrigados a conviver com suas consequências individualmente, até que essas consequências ultrapassem o limite do individual e passem a afligir o próximo.

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