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A adaptação do livro August: osage county de Tracy Letts que assina o roteiro do filme que leva o mesmo título (e traduzido como Álbum de Família) tem tudo para ser o cansado filme Hollywoodiano de drama familiar. O diretor John Wells, aposta na mesmice do cinema norte-americano com cortes de plano-contraplano, uma luz que nada nos diz, um cenário claustrofóbico (que sim, dialoga com a história) e comum. E nada, ou quase nada, de trilha sonora. E assim fica o espectador na sua primeira meia hora de filme, conhecendo os personagens e aos poucos a trama.

A história não parece das mais inovadoras: Beverly (Sam Shepard), alcoolista adicto também por livros é casado com Violet (Meryl Streep – em mais uma das milhares incríveis atuações), que sofre de câncer na boca e se viciou em analgésicos. O velho casal, que não anda bem, possui três filhas – uma em condição psicológica pior que a outra – e mais outros agregados na família, igualmente neuróticos. Quando Bev some de casa, a família que até então está espalhada pelos Estados Unidos, se reencontra e descobrem o suicídio do pai da família. Passado meia hora, o filme começa. A convivência dos familiares após a morte do pai da família é hilária e amarga.

Os diálogos acidamente escritos por Tracy (ganhador do prêmio Pulitzer pelo livro) fazem enfim a história ganhar vida, os personagens ganhar brilho e o espectador se sentir cada vez mais, parte desta torta família. E não há nada além de texto e bons atores – sem estes, o filme não existiria. Com destaque para Julia Roberts, que interpreta a filha mais velha Barbara e a impagável (e drogada) Meryl Streep, o público acaba se divertindo com a tragédia familiar que parece não ter fim. As revelações dos segredos familiares, os almoços em família no qual as brigas são escancaradas e sinceras, as destemidas tentativas de concertar tudo, e as inusitadas interrupções de outros parentes, são o que fazem da trama, um drama não convencional ao esperado pelo cansado filme norte-americano.

Não tão raso em argumentos, mas em estética. O filme se vale, apenas e mais uma vez, dos atores e do texto. Só. O reflexo é apenas angústia. A família ali retratada é universal, não apenas de Osange County. Não é preciso trocar peixe por feijoada e Streep por Montenegro para que nos reconheçamos nas peripécias (e é quase isso) da família. Em novos tempos, o conflito de uma geração a outra nos leva a crer que a instituição familiar está cada vez mais extinta – ou pelo menos nos moldes antigos. Irmãos são cada vez mais “organismos que dividem células geneticamente parecidas“; os casamentos entraram de vez no sistema capitalista: rápidos, recicláveis e idealizados; a neurose individual é cada vez mais ampliada para uma neurose familiar; os filhos estão cada vez mais impacientes e os netos, precoces; reunir todos os membros, somente com a morte de um; a herança é apenas um motivo para briga, afinal o dinheiro já manchou o companheirismo; a desistência é plural…

E no fim, esse grupo de pessoas, que nos ensina as primeiras palavras, os primeiros sentimentos… nos ensina os primeiros erros e arrependimentos. Em uma era tão individualista e inquieta, é cada vez mais raro ser família. O que consola a mãe abandonada por todos, é a empregada Índia (ou nativo-americana, como aprendeu Violet) nada mais simbólico que a mãe natureza, o contato com o que é mais primitivo nosso. Talvez fique o recado… Não é preciso aprender com as gerações passadas, porque são tão passadas quanto nós. É preciso aprender com as gerações nativas, tão “futuristas” que pouco compreendemo-as.

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Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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